O IDB estimula, valoriza - e pratica -
o constante estreitamento das relações entre
pais e mestres. Para isso, estruturou um conjunto de mecanismos,
a começar pelo sistema de direção aberta.
A Diretoria, a Secretaria,
a Recepção, as Coordenações, as
Supervisões, o Corpo Docente e os diversos Setores
da Escola são orientados para bem servir.
Nenhum titular de obrigações
no IDB dispõe de Agenda para marcar contatos, ao contrário,
trabalha em ambiente aberto (inclusive a metade de cima das
portas são de vidro transparente), recebe a todos sem
qualquer entrave burocrático e a qualquer tempo.
Não há necessidade
de intermediários para facilitar contatos. Os pais
podem e devem tratar dos assuntos diretamente com os responsáveis,
quem quer que seja ele.
De preferência, pede-se
apenas que assuntos sejam trazidos nos respectivos turnos
de estudos dos alunos, por uma razão de ordem prática:
facilita o fluxo de informações e o correspondente
encaminhamento das soluções.
Busca-se e vê-se, com
muita alegria, a presença dos pais na Escola quer seja
solicitando informações, discutindo soluções,
deixando os filhos (para o início das aulas) ou aguardando
o seu término (para levá-los de volta) ou, ainda,
participando do conjunto de atividades promovidas ao longo
do ano letivo.
Apenas um pedido é
feito aos pais no período em que aguardam os filhos
antes do término das aulas: evitar aglomeração
nas proximidades ou nas portas das salas de aula e, sim, aguardar
a saída dos filhos nas diversas áreas cobertas
preparadas com muito carinho para essa finalidade.
Isso para não tirar
a concentração dos alunos e, assim, o professor
possa bem finalizar as atividades em curso.
A Escola organizou e mantém
instalações sanitárias especiais para
pais e visitantes.
Escola de
Pais
Proposta de aprimoramento das
relações entre a Família e a Escola,
envolvendo múltiplas atividades interativas (reflexões,
plantões escolares, distribuição de textos,
reuniões específicas inclusive com professores
ou profissionais especialmente convidados pela Escola, programação
de eventos, debates).
A Família é estimulada
a incluir a Escola no seu roteiro de vida, buscando-se a instalação
de um pacto de lealdade entre as partes norteado pelo respeito
e por uma postura eminentemente ética.
A "Escola de Pais"
quer refletir sobre a essencialidade do comprometimento do
pai, do comprometimento da mãe, do comprometimento
de ambos, em conjunto, com o processo educacional dos seus
filhos.
A Educação é
dimensão mais abrangente do que o trabalho da Escola,
portanto conclama as partes a um entendimento capaz de promover
o alcance de objetivos comuns.
Associação de Pais
e Mestres
Com o objetivo de estreitar
as relações entre pais e mestres, a Escola conta
com uma Associação de Pais e Mestres (APM).
Reuniões/ contatos diretos
com os pais
A Escola, mesmo consciente
do alto teor de improdutividade das reuniões massivas,
busca promover reuniões gerais ou específicas
com os pais.
No entanto, dá preferência
para os contatos diretos com cada interessado, solicitando
por todos os meios (carta, telegrama, telefonema, circulares
e comunicados) a sua presença na Escola para tratar
de questões relacionadas à vida escolar dos
filhos.
Plantão escolar
A cada bimestre, o IDB coloca
à disposição dos pais o Plantão
Escolar. A iniciativa visa a promover o encontro entre os
pais e cada professor de seus filhos para troca de informações
sobre o aluno, o professor, a Escola e a Família.
O encontro se dá no
turno de aula do aluno que, no dia, pode vir a ser dispensado
para que haja maior proximidade entre os interlocutores.
Circular externa
Ao longo do ano letivo, além
dos já mencionados contatos e do acompanhamento dos
resultados das avaliações (mediante instrumento
denominado Envelope de Avaliações), os pais
são informados sobre o dia a dia escolar por meio de
Circulares e Comunicados.
As Circulares são de
caráter genérico, envolvem os alunos como um
todo, ou por série, ou por turma. A média de
Circulares alcança o patamar de 1,5 por dia letivo.
É obrigatório
o recebimento das Circulares e a devolução do
canhoto no prazo estipulado ou no primeiro dia útil
após o seu recebimento, caso não haja referência
de prazo.
IDB confere o autógrafo
do responsável.
Comunicados
Os Comunicados (emitidos por
computador), de caráter restrito, envolvem os alunos
individualmente. São utilizados para tratar de questões
relativas à Folha de Ocorrência, ou seja, medidas
disciplinares.
O IDB estimula uma relação
de mútua confiança entre todos os membros da
comunidade escolar, sobretudo entre pais e filhos. O aluno
deve ser continuamente encorajado a tratar da sua vida escolar
com os pais e não a subtrair-lhes a entrega dos Comunicados
e com isso provocar desdobramentos constrangedores.
É obrigatório
o recebimento dos Comunicados e a sua devolução
no prazo estipulado ou no primeiro dia útil posterior
ao seu recebimento, caso não haja referência
a prazo.O IDB confere o autógrafo do responsável.
Devolução de documentos
(por parte dos pais)
A devolução de
documentos em geral nos prazos estipulados é um procedimento
indispensável, uma vez que calendário de atividades
da Escola ser rigorosamente planejado e, portanto, não
dispõe de folga para tolerar atrasos, por comprometer
os fluxos de processamento de informações, retardando
relatórios e paralisando o processo decisório.
O cumprimento de prazos é
um elemento valorizado pela Escola por sua natureza formadora.
O IDB nunca estipula prazos que não possam ser cumpridos.
Seu filho está se preparando
para o vestibular?
Como ajudar seus filhos
Quem tem filhos ou irmão
fazendo vestibular já sabe. A casa inteira acaba se
envolvendo na prova. Pai e mãe entram em tamanha aflição
que até parece que eles é que são os
candidatos a uma vaga na faculdade.
Calma! O nervosismo dos mais
velhos atrapalha. Aumenta a tensão, o medo, a expectativa
- como se a cobrança que o vestibulando faz dele mesmo
já não fosse suficiente para tornar sua vida
um inferno. Abaixo, alguns conselhos que ajudarão os
pais a não aumentar a ansiedade dos filhos:
Nada de marcação.
Os pais tendem a liberar sua ansiedade por meio de censura
ou cobrança. De nada adianta ficar martelando que o
rapaz ou a moça deveria estudar mais.
O interesse pelos estudos
é uma coisa complexa que se desenvolve com base em
muitos fatores, entre os quais o próprio exemplo dos
pais, o ambiente da escola, as pressões exercidas pelo
grupo social, o temperamento e a ambição de
cada um. É um equívoco imaginar que alguém
possa transformar e em um aluno esforçado só
porque papai e mamãe, tomados por súbita ansiedade,
começam a agir como sargento.
Evite perguntar a todo momento
se o jovem está comendo bem, se está dormindo
o bastante. Pode até parecer demonstração
de afeto, mas só enerva.
Não se meta a professor.
Não há nada mais irritante para um candidato
do que ficar sendo submetido a testes fora de hora. Os pais
devem evitar fazer a checagem do conhecimento dos filhos.
Também é contraproducente tentar ensinar, na
última hora, aquilo que o filho não conseguiu
ou não quis aprender em meses de preparação
para o vestibular.
É mais útil
tornar o ambiente doméstico um lugar acolhedor. O momento
é de proteção.
Mude de assunto. Se todos na
faculdade estão envolvidos com os exames, é
natural que esse seja o assunto dominante em casa. Nem poderia
ser diferente. Mas tenha a sensibilidade de falar sobre outros
assuntos de interesse de seu filho ou filha.
Leve-o para passear. Uma boa
idéia é surpreender o filho candidato com um
convite para jantar fora ou ir ao cinema. É uma forma
de mostrar que ele tem aliados dentro de casa.
Não se faça de
vítima. Muitos pais não resistem a dão
um jeito de lembrar que se sacrificaram financeiramente para
dar boa escola ao filho e, agora, esperam a retribuição
de seu esforço com a vitória no vestibular.
Alguns adolescentes entram em pânico.
Os pais colocam os filhos na
escola porque sabem que esse é o seu dever. Culturalmente,
não está estabelecido que os jovens devem pagar
o investimento em algum momento de sua vida. A exigência,
nesse sentido, é um fardo a mais para o jovem.
Não chantageie seu filho.
O velho discurso de "se você entrar na faculdade
ganha um carro ou uma viagem para o exterior" é
dos mais catastróficos. O que deveria servir de incentivo
se transforma em fonte inesgotável de nervosismo.
Respeite os limites do seu
filho. Quando o candidato é reprovado, isso já
é punição suficiente. Não aumente
o martírio do seu filho com bobagens tipo "Eu
não falei?" Nenhuma reação negativa
de sua parte mudará o passado, mas pode ser determinante
para o futuro. Tente analisar com o ele o que houve de errado.
(Karina Pastore. Veja, 12/11/1997).
Um amor inteligente
Peço em minha oração
que vossa caridade se enriqueça cada vez mais em conhecimento
e em sensibilidade, a fim de poderdes discernir o que mais
lhe convém (Fl 1, 9-10)
Uma das primeiras coisas que
Paulo pede ao Senhor, dirigindo-se aos filipenses, é
um progressivo crescimento no amor. Trata-se evidentemente
do amor que eles receberam de Deus no Batismo e que os leva
a colocar, em prática, o ensinamento de Cristo, principalmente,
o amor ao próximo.
O apóstolo pede para
os filipenses um amor cada vez mais rico de conhecimento e
de luz, de modo que saibam perceber claramente, em cada circunstância,
aquilo que é melhor e que mais agrada ao Senhor.
O "conhecimento"
do qual fala o apóstolo parece referir-se aos princípios
fundamentais do comportamento cristão, ou seja, àquela
vontade de Deus que se exprime nos seus mandamentos e que
Jesus continuamente nos explica e nos ensina a atuar através
da sua Igreja.
Na vida de todos os dias o
cristão tem que enfrentar muitos problemas. São
problemas pessoais, da vida de casal e de família,
da vida profissional e de relacionamento com os outros, são
decisões sobre os uso dos bens etc. Às vezes
são problemas complexos e delicados.
Compreende-se, então,
por que para o apóstolo Paulo o amor do cristão
deve ser constantemente iluminado e compenetrado pela palavra
de Deus.
Por outro lado, falando de
"discernimento", o apóstolo parece referir-se
aos problemas e às situações concretas,
consideradas nos seus vários aspectos e implicações,
dando uma atenção toda especial às pessoas
envolvidas.
O discernimento, então,
deve ser aquele amor cheio de inteligência prática
- isto é, de sabedoria, de prudência, de delicadeza,
de compreensão, de tato etc. - capaz de entender, à
luz da Palavra de Deus, o que é melhor, o que é
mais conveniente numa determinada situação.
Como viveremos então
a Palavra da Vida deste mês? Esforçando-nos para
que também o nosso amor pelo próximo seja cada
vez mais iluminado, a fim de sabermos escolher aquilo que
mais agrada ao Senhor.
Trata-se, sem dúvida,
de uma graça especial de Deus, que devemos pedir em
primeiro lugar através da oração, como
o próprio Paulo nos dá a entender.
Mas é também
uma questão de esforço pessoal.
Por um lado, quando tivermos
que tomar uma decisão ou assumir determinada postura,
se tratará de conhecer melhor a Palavra de Deus e o
ensinamento da Igreja a esse respeito.
É o próprio
amor por Cristo que nos leva a isso. Porque uma característica
do amor é querer aprofundar os ensinamentos de Jesus
para poder corresponder sempre melhor a tudo o que Deus quer
de nós.
Por outro lado, ao enfrentar
concretamente uma situação, o nosso amor para
com o próximo deverá se revestir de uma ou de
outra virtude: paciência, humildade, disponibilidade,
desapego de nós mesmos etc.
Procuremos, então, descobrir
e exercitar esta virtude particular.
Conquistaremos assim aquele
amor cada vez mais iluminado e rico de discernimento, descrito
por Paulo, e aprenderemos a amar o próximo segundo
o coração de Deus.(Adaptado do texto de Chiara
Lubich. Palavra da Vida. Dezembro de 1994)
A arte de contar
histórias
Ouvindo histórias, a
criança reforça seus laços afetivos com
os pais, os avós, os professores, desenvolve sua própria
fantasia e aprende a lidar com a realidade de forma divertida.
Era uma vez uma mãe
(ou um pai) que, pouco antes de o filho dormir, reservava
alguns minutos para lhe contar uma história. Entretida
e dedicada, gesticulava e usava vozes diferentes para interpretar
os personagens. A criança acompanhava, encantada, imaginando
os castelos, as bruxas, os magos e os heróis da aventura.
O final era igual ao dos contos
de fadas: mãe/pai e filho dormiam felizes para sempre.
Ela/ele, por sentir que estava contribuindo para a educação
do menino; ele, por tido a chance de sonhar acordado.
O hábito de contar histórias,
uma das mais antigas tradições praticadas em
família ou nas pequenas comunidades, ainda é
essencial e insubstituível para o desenvolvimento emocional
e a aquisição de conhecimento da criança
acerca da sua própria cultura.
Por meio de uma simples fábula
infantil, relatada com emoção e carinho, os
pequenos ouvintes assimilam conceitos éticos, políticos,
filosóficos e religiosos, aprendem a lidar com a realidade
de forma divertida e desenvolvem a sua própria fantasia.
"Durante uma sessão
de contos, mãe [pai] e filho, avó [avô]e
neto, professor[a] e aluno reforçam imensamente seus
laços afetivos", explica Regina Machado, professora
do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações
e Artes-ECA da Universidade de São Paulo-USP. "Nesse
momento, a criança sente os pais como parte de sua
realidade e percebem que os adultos são capazes de
sentir e de pensar como ela".
Dedicar alguns minutos do dia
atribulado a essa prática, duas, três, quatro
vezes por semana, deve se tornar uma rotina na vida dos pais.
Não importa qual seja a história que se conte
- acontecimentos do dia-a-dia e lembranças familiares,
tradições dos ascendentes, histórias
bíblicas, fábulas, contos de fadas tradicionais.
Esses relatos sempre cumprem o seu papel: dar exemplos para
que a criança comece a entender o que parece inexplicável.
"A história é
a forma comum, simples e direta, adotada por todos os povos,
em diversas etapas da civilização, para mostrar,
por meio de seus mitos e heróis, como encaram o amor,
a vida, a morte, e repassar sua visão da honestidade,
das boas atitudes do ser humano", lembra Raquel Barcha,
atriz e autora de livros infantis.
Durante quatro anos, ela interpretou
Sherazade - famosa contadora de histórias e narradora
de "As mil e uma noites", uma coletânea de
contos árabes - no programa X-Tudo, da TV Cultura,
de São Paulo. Hoje atua na peça infantil Sherazade
em um teatro paulistano e está prestes a estrear um
programa na Rede Bandeirantes, em que volta a contar histórias.
Quando escuta um conto, a criança
tende a se introduzir no enredo, como ela própria ou
pela identificação com um dos personagens. Incorpora
o herói, a princesa, a fada, a bruxa. Usando a imaginação,
torna-se a agente da ação e passa a "interpretar"
mentalmente o que ouve.
Cada história promove
um aprendizado diferente e induz o ouvinte a encarar seus
erros, a lidar com a traição, o amor, e pode
ajudá-lo a transpor os momentos difíceis.
O americano Nan Gregory, contador
de histórias profissional e autor de livros infantis
premiados, lembra-se de um menino com dificuldades para se
adaptar à nova Escola porque sentia saudades dos antigos
colegas.
Sua mãe contou-lhe a
história de um balão preto, desprezado pelos
coloridos, encontrado, certo dia, por uma criança solitária
que se tornou sua amiga. O menino pedia à mãe,
que repetisse a história várias vezes, até
conseguir fazer novas amizade.
Ler ou contar?
Não há uma forma
correta de contar histórias, nem um local adequado
para isso, dizem os contadores profissionais, que promovem
sessões de leitura ou relatos nas escolas e bibliotecas.
Ler ou interpretar, não
importa. O que vale é a dedicação, a
boa vontade e o interesse demonstrado pelo adulto - mãe,
pai, avô, avó ou empregada. É preciso
adotar uma postura relaxada, entrar no mundo infantil. Na
prática, significa ajoelhar-se, sentar-se no chão
com os pequenos. Falar a mesma língua deles, tentar
superar as barreiras e os preconceitos.
"O único
requisito é curtir, se enturmar, ser espontâneo.
Todo mundo tem a capacidade de imaginar, é só
uma questão de treino", garante a "Sherazade"
Raquel, que usa sempre uma história para ilustrar o
que diz.
Uma sessão de contos
não precisa se tornar um espetáculo teatral.
Se você não se sente à vontade interpretando
uma história, simplesmente leia um livro. Mas procure
evitar a leitura mecânica - a criança perceberá
a sua "ausência".
"Vale muito estabelecer
nesse momento uma relação de alta qualidade
com o ouvinte", diz Regina Machado. "Pois é
essa interação que torna insubstituível
o relato oral". Em sua tese de mestrado sobre essa tradição,
Regina comprova que a história contada é um
instrumento importante também no aprendizado da estrutura
narrativa.
"É uma experiência
viva do significado do adjetivo, das conjugações
verbais, entre muitas outras."
Uma das mais conceituadas autoras
infantis brasileiras, Tatiana Belinky não conta histórias
sem um livro na mão, mesmo que não o leia. "O
contato direto com as palavras é imprescindível".
A criança percebe como
o livro é mágico e interessante, e se surpreende
com o fato de um pequeno volume poder comportar um mundo de
coisas variadas, de dinossauros e príncipes, de castelos
a naves especiais." Tatiana considera esse o método
mais eficaz de ajudá-la a ver a leitura como uma atividade
prazerosa.
Usar o livro como apoio, fazendo
a "leitura com caras e bocas", como define Tatiana,
evita também que o contador amador gagueje, utilize
repetidamente os vícios de linguagem - termos como
"então" e "né?" - e, assim,
perca a atenção da criança.
"Acompanhando o
ritmo da narrativa, a história parece mais bonita e
o narrador não corre o risco de esquecer algumas palavras-chave
do texto - os complicados nomes dos castelos, locais e personagens,
que têm a missão de evocar a fantasia infantil",
explica Regina.
A força da interpretação
Para quem prefere contar a
história sem lê-la, os contadores aconselham
utilizar o mínimo de recursos extras, além da
própria voz e dos gestos. "A criança deve
imaginar e, se encontrar tudo pronto e mastigado, parte da
graça tende a se perder", diz Regina.
Ela própria usa uma
roupa de cor clara, com poucos detalhes, e objetos abstratos.
O lenço vira o boneco que sai do baú e uma caneta
se torna um avião. Na peça Sherazade, Raquel
Barcha conta dez histórias recorrendo apenas à
iluminação e ao teatro de sombras para ativar
a fantasia da platéia.
O que importa, resumem os especialistas,
é o envolvimento entre contador e ouvinte. "A
criança está acostumada a ouvir a voz da mãe
no mesmo tom, quase sempre dando ordens. Quando ela conta
uma história com voz diferente, imitando bichos, heróis,
anti-heróis, a relação afetiva se enriquece
e se identifica", diz Regina.
(Texto adaptado. Thais de Oliveira.
Revista Cláudia especial de Natal. São Paulo,
dez. 1996. p. 264-268)
Autoridade dos Pais
(Atitudes firmes são
fundamentais na educação dos filhos)
Não restam dúvidas
de que hoje há insegurança sobre a educação
dos filhos. Existem teses, teorias, experiências mais
diversas e que apontam direções, muitas vezes
opostas, que trazem um dilema para os pais: como educar? Qual
é o caminho correto?
Segundo Mary Winn (Children
without childhood. New York, 1993), há poucas décadas
não havia dúvidas para um adulto e para uma
criança ou jovem sobre as atitudes a tomar e o caminho
a seguir. Já estava definido o que e onde estudar.
Havia um consenso sobre o
comportamento desejado e ficava muito claro o que deveria
ser feito e o que devia ser evitado. Educava-se simultaneamente
com amor e rigor, com permissões e proibições,
com prêmios e castigos.
Rejeitados os métodos
antigos e autoritários, surgiram o que a literatura
específica chama de pais progressistas: evitam uma
intervenção autoritária na vida dos filhos,
procuram orientar, dialogar e apelar para um comportamento
racional.
Abrem mão de toda autoridade
e pedem aos filhos compreensão e cooperação.
Em verdade, esse repúdio a uma forma excessivamente
rigorosa de educar levou os pais a uma atitude que muitos
pedagogos consideram como fuga das responsabilidades educacionais.
Muitos pais, hoje, têm
medo de enfrentar os filhos; não têm autoridade
para exigir que os filhos menores não dirijam o carro
ou a moto, que colaborem em determinadas tarefas, que voltem
de seus passeios a certa hora da noite.
A falta de firmeza dos pais
leva, segundo a psicóloga e médica Jirina Prekop
(Der Kleine tyrann "O pequeno tirano". Sttutgart,
1988), a criança a impor a sua vontade. Ela determina
o que vai comer, o que vai vestir, que programa assistir na
TV, como deve ser mobiliado seu quarto.
Acostumados, desde cedo, a
impor sua vontade, a criança e o adolescente não
aceitam ser contrariados. A reação bem conhecida
de todos é espernear, gritar, chorar ou alegar doença.
E acabam por praticar atos mais graves que preocupam toda
a família.
A criança, em verdade,
quer confiar em seus pais; pai e mãe devem ser referências,
devem estabelecer regras e objetivos para que a criança
se sinta abrigada e segura.
Deixá-los proceder como
querem não é um gesto de grandeza, de modernidade
dos pais; é mais uma fuga de suas responsabilidades
e medo de serem chamados de quadrados.
Uma geração que
não acredita que pode moldar o futuro, que é
incapaz de construir com segurança e amor a sua vida
e a dos seus filhos, é uma geração que
nada tem a oferecer às gerações futuras.
É uma geração que deve calar porque não
vê perspectiva para a vida. Isto é o que nos
diz John Holt (Zum Teufel mit der kindheit. Wetz, 1988).
Se os pais não estabelecerem
para as crianças os parâmetros de comportamento,
se não tiverem firmeza em suas atitudes, os filhos
tornar-se-ão inseguros: em lugar de uma orientação
firme, seguem modas, modelos, opiniões adquiridas nas
ruas ou através dos meios de comunicação
e adotam valores, no mínimo, discutíveis.
Atrás de uma criança
que se impõe pela força, pela rebeldia, pelo
grito não raro se esconde uma pessoa insegura e medrosa.
Neill Postman (The disappearance
of childhood. New York, 1988), aponta alguns sintomas que
denomina de sinais doentios da infância e da juventude.
Entre outros, cita:
a) perda da capacidade de autodomínio:
não alcançando seus objetivos, a criança
grita, chora, esperneia e pratica todos os desaforos até
alcançar seu desejo;
b) perda da capacidade de se
expressar de forma correta: a criança utiliza fragmentos
de frases desconexas, gírias e expressões obscenas.
É uma linguagem que desconhece respeito e com ela quer
apenas, muitas vezes de forma cínica, impor sua vontade;
c) perda da capacidade de agradecer
e de ser modesto: tudo o que os pais dão e fazem nada
mais é que obrigação deles. A criança
e o jovem entendem que devem ser atendidos plenamente, enquanto
os demais membros da família tornam-se secundários.
Isso pode resultar em desunião e degradação
da família;
d) perda da obediência
e da consciência que o poder dos pais e do governo são
para manter uma ordem, não para subjugar: o resultado
é uma reação de revolta por parte dos
jovens. Destruir o que se nos opõe, destruir tudo,
o vandalismo é o lema fundamental;
e) perda do sentido de valor
da vida: que é substituído pelo álcool,
por drogas e atitudes violentas e criminosas. O objetivo é
viver o momento, não pensar no futuro. Não há
futuro.
Muitos leitores dirão:
Postman exagerou. Tais atitudes são de poucos jovens.
É possível que hoje ainda sejam minoria. Mas
o que acontecerá amanhã se alguma atitude não
for adotada?
Essa é a responsabilidade
dos pais e, praticamente, só deles (a Escola apenas
colabora): educar os filhos através de atitudes firmes
para termos uma infância e uma juventude sadia para
um futuro que desejamos para todos.
(Adaptado do texto de Helmut
Troppmair. Revista do Professor. Porto Alegre, 12 (46): 47,
abr./jun. 1996)
Brasileiro,
homem do amanhã
Paulo Mendes Campos
Há, em nosso povo, duas
constantes que nos induzem a sustentar que o Brasil é
o único país brasileiro de todo o mundo. Brasileiro
até demais. Colunas da brasilidade, as duas colunas
são: a capacidade de dar um jeito; a capacidade de
adiar.
A primeira é ainda escassamente
conhecida, e nada compreendida, no exterior; a segunda, no
entanto, já anda bastante divulgada lá fora,
sem que, direta ou sistematicamente, o corpo diplomático
contribua para isso.
Aquilo que Oscar Wilde e Mark
Twain diziam apenas por humorismo (nunca se fazer amanhã
aquilo que se pode fazer depois de amanhã), não
é no Brasil uma deliberada norma de conduta, uma diretriz
fundamental.
Não, é mais,
é bem mais forte do que qualquer princípio da
vontade: é um instinto inelutável, uma força
espontânea da estranha e surpreendente raça brasileira.
Para o brasileiro, os atos
fundamentais da existência são: nascimento, reprodução,
procrastinação e morte (esta última,
se possível, também adiada).
Adiamos em virtude dum verdadeiro
e inevitável estímulo inibitório, do
mesmo modo que protegemos os olhos com a mão ao surgir
na nossa frente um foco luminoso intenso. A coisa deu em reflexo
condicionado; proposto qualquer problema a um brasileiro,
ele reage de pronto com as palavras: logo à tarde;
só à noite; amanhã; segunda-feira; depois
do Carnaval; no ano que vem.
Adiamos tudo: o bem e o mal,
o bom e o mau, que não se confundem, mas tantas vezes
se desemparelham. Adiamos o trabalho, o encontro, o almoço,
o telefonema, o dentista, o dentista nos adia, a conversa
séria, o pagamento do imposto de renda, as férias,
a reforma agrária, o seguro de vida, o exame médico,
a visita de pêsames, o conserto do automóvel,
o concerto de Beethoven, o túnel para Niterói,
a festa de aniversário da criança, as relações
com a China, tudo. Até o amor.
Só a morte e a nota
promissória são mais ou menos pontuais entre
nós. Mesmo assim, há remédio para a promissória:
o adiamento bi ou trimestral da reforma, uma instituição
sacrossanta no Brasil.
Quanto à morte, não
devem ser esquecidos dois poemas típicos do Romantismo:
na Cancão do Exílio, Gonçalves Dias roga
a Deus não permitir que ele morra sem que volte para
lá, isto é, para cá.
Já Álvares de
Azevedo tem aquele poema famoso cujo refrão é
sintomaticamente brasileiro: "Se eu morresse amanhã".
Como se vê, nem os românticos aceitavam morrer
hoje, postulando a Deus prazos mais confortáveis.
Assim, adiamos por força
dum incoercível destino nacional, do mesmo modo que,
por obra do fado, o francês poupa dinheiro, o inglês
confia no Times, o português adora bacalhau, o alemão
trabalha com furor disciplinado, o espanhol se excita com
a morte, o japonês esconde o pensamento, o americano
escolhe sempre a gravata mais colorida.
O brasileiro adia; logo existe.
A divulgação
dessa nossa capacidade autóctone para a incessante
delonga transpõe as fronteiras e o Atlântico.
A verdade é que já está nos manuais.
Ainda há pouco, lendo
um livro francês sobre o Brasil, incluído numa
coleção didática de viagens, encontrei
no fim do volume algumas informações essenciais
sobre nós e a nosa terra. Entre endereços de
embaixadas e consulados, estatísticas, induções
culinárias, o autor intercalou o seguinte tópico:
DES MOTS
Hier: ontem
Aujourd'hui: hoje
Demain: amanhã
Le seul important est le dernier.
A única palavra importante
é amanhã. Ora, esse francês astuto agarrou-nos
pela perna. O resto eu adio para a semana que vem.
Caro senhor
ministro da Educação
(Rubem Alves, 63, educador,
escritor e psicanalista, é professor emérito
da Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP. Folha de S.
Paulo, 21/5/1998)
Acho, Paulo Renato, que você
ocupa a posição mais importante do Brasil -
mais que a Presidência. Sobre o presidente paira a maldição
terrível, descrita por Maquiavel em "O Príncipe":
a maldição do poder.
O poder é um demônio
que não dá descanso, não havendo exorcismo
que o resolva. Totalitário, ele se apossa do corpo
e da alma; exige tempo para mais nada. Tal qual São
Jorge, o presidente passa os dias e noites lutando com um
dragão que ressuscita a cada manhã, não
lhe sobrando tempo para dedicar-se às coisas que são
essenciais.
O essencial na vida de um país
é a educação. Se não me falha
a memória, você estudou em colégio de
padres e vai entender o que digo. No Evangelho de João,
está escrito que "no princípio era o Verbo".
"Princípio", em grego, é palavra filosófica,
que não significa só começo no tempo,
mas fundamento - aquilo que é a base do que existe.
Acho que o autor sagrado não
ficaria bravo comigo se eu fizesse uma tradução
livre do seu texto para os tempos modernos: "No princípio
é a educação".
A educação,
em essência, é precisamente isso: o exercício
do Verbo.
Pensa-se que a tarefa de um
político é administrar o país: pôr
a casa em ordem, construir coisas novas, consertar as velhas;
cuidar de finanças, saúde, segurança,
justiça e meios de comunicação; administrar
os meios de escolarização existentes, coisa
sob a responsabilidade do Ministério da Educação.
Discordo. Há uma diferença
qualitativa entre o que fazem os ministérios administrativos
e o que o Ministério da Educação deve
fazer. Os primeiros cuidam do "hardware" do país;
lidam com a "musculatura" nacional.
O Segundo cuida do "software",
da "inteligência" nacional. Seu objetivo é
fazer o povo pensar. Porque um país - ao contrário
do que me ensinaram na escola - não se faz com as coisas
físicas que se encontram no seu território,
mas com os pensamentos do seu povo.
Explico: o que está
no início, o jardim ou o jardineiro? É o segundo.
Havendo um jardineiro, cedo ou tarde, um jardim aparecerá.
Mas um jardim sem jardineiro, cedo ou tarde, desaparecerá.
O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está
cheio de jardins.
O que faz um jardim são
os pensamentos do jardineiro. O que faz um povo são
os pensamentos dos que o compõem.
Os grandes políticos
não foram admistradores de coisas. Foram criadores
de povos. E o que é um povo? Santo Agostinho, 15 séculos
atrás, disse que um povo é "um conjunto
de seres racionais unidos por um mesmo objeto de amor".
Ou seja, pessoas não
partilham de um mesmo sonho. Emile Durkheim percebeu igual.
Os povos, disse, não feitos só "da massa
de indivíduos que os compõem, dos territórios
que ocupam, das coisas que usam, dos movimentos que executam.
Eles são feitos, sobretudo,
com as idéias que os indivíduos têm de
si mesmos".
Foi precisamente isso que Chico
Buarque disse em "A Banda". Cada um estava concentrado
no seu sonhinho: a namorada, o faroleiro, o homem rico, a
moça feia, o homem velho.
Cada um na sua, não
havia povo: tal como nós, do Brasil, país que
não tem povo porque não há sonhos belos
a ser sonhados. Mas aí passou uma banda. E o que tocava
era tão bonito que os sonhos de cada um logo ficaram
pequenos e foram esquecidos.
Esquecidos os sonhinhos individuais,
formou-se a procissão dos que seguiam o sonhão
que a banda tocava. Um povo nasceu. "A Banda" contém
uma teoria política sobre o nascimento de um povo.
Faz uns meses, publiquei nesta
seção uma carta inútil ao Sr. Roberto
Marinho. Usei uma metáfora: o anúncio da Marlboro
que aparece na TV. É lindo, com riachos cristalinos,
raios de sol, bosques de pinheiros, cavalos sevalgens. Eu,
que não fumo, vendo o comercial, fico encantado.
A beleza seduz, me faz sonhar.
Quero estar lá.
Após curto feitiço,
aparece a advertência do Ministério da Saúde:
"Fumo produz câncer". É conhecimento
científico. Frase verdadeira. E morta. Não conheço
ninguém que tenha deixado de fumar por causa das verdades
que o conhecimento científico anuncia. Conheço
muitas que vieram a fumar por causa da sedução
da beleza.
Nossas escolas têm se
dedicado a ensinar o conhecimento científico, com todos
os esforços para que isso aconteça de forma
competente. Isso é muito bom. A ciência é
indispensável para que os sonhos se realizem. Sem ela,
não se pode plantar nem cuidar do jardim.
Mas há algo que a ciência
não pode fazer. Ela não é capaz de fazer
os homens desejarem plantar jardins. Ela não tem o
poder para fazer sonhar. Não tem, portanto, o poder
para criar um povo.
Porque o desejo não
é engravidado pela verdade. A verdade não tem
o poder de gerar sonhos. É a beleza que engravida o
desejo. São os sonhos de beleza que têm o poder
de transformar indivíduos isolados num povo.
As escolas se dedicam a ensinar
os saberes científicos, visto que sua ideologia científica
lhes proíbe lidar com os sonhos (coisa romântica!).
Assombra-me a incapacidade das escolas para criar sonhos.
Enquanto isso, os meios de comunicação (principalmente
a TV), que conhecem melhor os caminhos dos seres humanos,
vão seduzindo as pessoas com seus sonhos pequenos,
freqüentemente grotescos.
Assombra-se a capacidade desses
meios para criar sonhos. Mas de sonhos pequenos e grotescos
só pode surgir um povo de idéias pequenas e
grotescas.
Se o Ministério da Educação
for só um gerenciador dos meios escolares, será
difícil ter esperança. Pensei, então
que o ministério talvez tivesse poder e imaginação
para integrar os meios de comunicação num projeto
nacional: semear os sonhos de beleza que se encontram no nascedouro
de um povo. Assim, realizaria a sua vocação
política de criar um povo.
Por isso, Paulo Renato, considero
sua posição de ministro da Educação
a mais importante na vida política do Brasil. Da Educação
pode nascer um povo.
Ciência
do cérebro altera visão do ensino (parte I)
A promoção pelo
presidente e pela primeira-dama dos Estados Unidos da América,
Bill e Hillary Clinton, da Conferência da Casa Branca
sobre desenvolvimento e aprendizagem na infância: o
que as novas pesquisas do cérebro dizem sobre nossas
crianças mais jovens revela falhas na reforma do ensino
brasileiro.
O que essas pesquisas dizem
é que o cérebro se forma na relação
da criança com o ambiente, e que isso ocorre principalmente
dos 0 aos 10 anos - e de forma ainda mais acentuada dos 0
aos 3.
Crianças que têm
pouco estímulo na fase inicial da vida deixam de formar
certos "circuitos" no cérebro. Exemplo clássico
é o da criança que nasce com catarata ("mancha"
no olho que impede a visão).
Se a catarata não é
removida até os 2 anos, a criança será
cega para sempre - porque faltou estímulo para formar
os "circuitos" que levam impulsos do olho ao cérebro.
Embora extremo, esse exemplo
tem paralelo com a capacidade de falar, ler, cantar, tocar
instrumentos, dançar, falar outras línguas,
enfim, com tudo que se aprende.
A Conferência de Washington,
transmitida via satélite para mais de cem cidades,
pretendeu dar um impulso para melhorar a qualidade e a acessibilidade
dos serviços de atendimento infantil nos Estados Unidos
da América, segundo o presidente Clinton.
A questão para o Brasil
é que praticamente todas as reformas do ensino em andamento
- do governo federal aos nove Estados do Nordeste, passando
por São Paulo - priorizam o Ensino Fundamental (7 a
14 anos), em detrimento da Educação Infantil
(0 a 6 anos).
O Fundão, que vai vigorar
de 1998 a 2007, põe 60% do dinheiro da educação
no Ensino Fundamental - o que para muitos municípios
significa menos dinheiro para Pré-Escola.
A secretária de Educação
de São Paulo, Rose Neubauer, quer fechar a última
Pré-Escola do Estado, a Experimental da Lapa.
O antes razoável sistema
de Creches da Prefeitura de São Paulo passou por uma
série de crises financeiras durante a administração
Paulo Maluf (1993-1996).
O principal argumento que vem
sendo utilizado pelos governos é que, com o dinheiro
disponível, é necessário priorizar determinadas
áreas da educação.
O que a Conferência mostra
é que a priorização de recursos para
o Ensino Fundamental no Brasil pode estar pegando crianças
em uma fase já tardia de sua formação.
Por exemplo: ao entrar em uma
Escola só aos 7 anos, os filhos dos 20 milhões
de analfabetos do país vão, quase fatalmente,
ter dificuldade para aprender a ler e escrever.
Fernando Rossetti. Folha
de S.Paulo. 3º Caderno (Cotidiano). São Paulo,
21 abr. 1997. p.3.10
Ciência
do cérebro altera visão do ensino (parte II)
Estímulo deve seguir
bom senso
A educação até
os 6 anos de idade exige, mais do que qualquer coisa, bom
senso. Não precisa ensinar o alfabeto a uma criança
de 3 anos, diz Patricia Kuhl, titular em Ciência da
Fala e Aprendizagem na Universidade de Washington.
As principais dicas da Conferência
são simples: leia e conte histórias para os
filhos desde pequenos, tenha livros em casa, cante, toque
músicas, pinte, passeie.
Tudo isso estimula a formação
de determinados "circuitos" no cérebro. A
professora de neurobiologia da Universidade da Califórnia,
Carla Shatz, compara o desenvolvimento cerebral à instalação
de uma rede telefônica.
O cérebro tem mais de
um trilhão de células nervosas (neurônios).
Cada uma é como um telefone que se comunica com outras
células por sinais eletroquímicos.
Esses sinais são transmitidos
por axônios - que são como linhas telefônicas,
emitidas pelo neurônio.
Durante o desenvolvimento,
o cérebro tem que formar cerca de 100 trilhões
de conexões entre os neurônios. Nenhuma dessas
conexões está lá desde o início.
Há dois fatores determinantes
na formação dessas conexões. O primeiro
é genético: os genes dos pais determinam parte
da estrutura cerebral da criança.
O segundo fator é ambiental:
os estímulos que a criança recebe determinam
a emissão de axônios e a formação
- ou não - de uma conexão. Isso ocorre durante
toda a vida, mais é muito mais intenso e rápido
até os 10 anos de idade.
As implicações
para a educação
Linguagem - quanto mais a criança
for exposta à linguagem (falada, escrita, lida, cantada),
maior será o seu repertório; o Estado só
prioriza o ensino após os 7 anos, mas antes disso há
uma fase fundamental; língua estrangeira - dos 0 aos
10 anos, o cérebro está formando os "circuitos"
da linguagem: mas, nos currículos brasileiros, as crianças
só começam a aprender uma segunda língua
depois disso;
castigo - a criança
aprende a administrar as emoções na relação
com seu ambiente; um ambiente agressivo, principalmente dos
0 a 3 anos, tende a deixar "circuitos" no cérebro
que resultam em mais ansiedade; creches - o ambiente tem de
ser estimulante, e os educadores bem formados para desenvolver
os potenciais da criança, caso contrário do
que ocorre na maioria das creches do país;
deficiências - quanto
mais cedo se diagnostica deficiências de aprendizagem,
mais simples se torna a recuperação; no Brasil,
em geral, só se tem contato com uma instituição
capaz desse diagnóstico aos 7 anos.
Bom senso - a criança
se incumbe em seu papel de aprender quando o ambiente é
estruturado, afetivo e estimulante; não precisa "afogar"
a criança de atividades, basta ser sensível
à sua natural curiosidade.
Fernando Rossetti. Folha de
S.Paulo. 3º Caderno (Cotidiano). São Paulo, 21
abr. 1997. p.3.10
A difícil arte de criar filhos
Impossível negar: mesmo
nos anos 90 - ou, talvez, principalmente neste final de século
- criar os filhos continua sendo uma tarefa difícil.
Que o digam Sandra e Dan Gookin, que resolveram colocar as
dúvidas e algumas dicas aprendidas a partir de sua
própria experiência num livro.
Filhos para leigos, da Editora
Mandarim, não é propriamente um guia. Mas pode
ajudar pais de primeira viagem a lidar com algumas situações
cotidianas.
Para começar, os autores
advertem na primeira página: Admita, você não
está no comando. Seus filhos é que estão.
Tanto você quanto eles sabem disso. A partir daí,
o que se busca é uma solução mútua
que satisfaça a todos neste jogo complicado que é
a criação dos filhos.
E de preferência de
uma forma que provoque o menor estresse possível para
todos os envolvidos.
A autora analisa as situações
sempre de forma bem-humorada. Até porque, já
que neste jogo não há vitórias completas
e a função de pai e mãe é o único
emprego em que não é possível demitir-se,
o melhor a fazer é relaxar e entrar no espírito.
Sandra avisa que nem sempre
é possível fazer tudo corretamente. E com certeza
haverá ocasiões em que mesmo os pais mais bem-intencionados
perdem a calma, gritam e agem ao contrário do que aconselham
os manuais de psicologia.
Mas como o objetivo aqui é
o de criar crianças que se tornem adultos bem ajustados,
brigas ocasionais não são o fim do mundo. O
importante é que, no geral, as coisas corram de modo
razoável. Ou seja, corrigir o erro, aprender com ele
e tentar novamente.
Para Sandra Gookin, as únicas
regras fixas para os pais são manter a coerência,
ser firme nas decisões tomadas e passar mensagens positivas
para os filhos.
O mais é persistência.
Por isso mesmo, a autora descreve situações
bem corriqueiras e as diversas formas de enfrentá-las.
Como a menina de três anos, que derramou todo um vidro
de perfume francês, sujou de batom o vestido mais caro
da mãe e quebrou o salto de seu sapato de festa.
Entre ficar lívida
e enfiar a menina no banho; concordar que a filha está
realmente linda, mais que da próxima vez é melhor
pedir ajuda para se arrumar; e olhar aquilo tudo para simplesmente
dar as costas e sair, a resposta é óbvia.
As dicas são muitas.
Mas talvez as mais importantes sejam aquelas que falam sobre
como despertar independência, autoconfiança e
auto-estima.
O processo é longo,
diário, e inclui desde incumbir as crianças
de pequenas responsabilidades a cada dia, como dizer-lhes
que são capazes de fazer qualquer coisa, desde que
queiram. E não é preciso um resultado perfeito.
Destacar as coisas positivas
que fizeram é a melhor maneira de desenvolver nelas
essas qualidades. Afinal, se tudo isto vale para qualquer
pessoa, porque seria diferente com as crianças?
Nas 400 páginas do livro,
fala-se em alimentação ou mesmo sobre o fato
de que a criação dos filhos é uma tarefa
de equipe, para ser dividida entre pai e mãe.
E entre as sugestões
práticas, há desde formas de tratar assaduras
até vantagens e desvantagens de deixar que os filhos
durmam com os pais. Os autores também avaliam alguns
tipos de punição para traquinagens freqüentes,
sempre lembrando que, principalmente nesta hora, não
se pode deixar de lado o afeto, a firmeza nem a coerência.
10 mandamentos dos pais
1. Amar seus filhos sobre todas
as coisas.
2. Ter muita paciência,
especialmente em períodos estressantes.
3. Alimentá-los de forma
saudável e nutritiva.
4. Acalentá-los.
5. Esforçar-se para
mantê-los protegidos.
6. Comunicar-se aberta e honestamente
com eles.
7. Ser um bom exemplo, em qualquer
situação.
8. Tratá-los com respeito.
9. Não maltratá-los
nem machucá-los fisicamente.
10. Ser um bom amigo e dar
apoio ao companheiro na criação dos filhos.
(Adaptado do texto de Vilma
Homero. Encarte Saúde da Revista Manchete. Rio de Janeiro,
Manchete, 18 jan.1997. p. 15.)
Disciplina escolar:
aspectos neurológicos
A palavra disciplina é
comumente utilizada como "punição",
ou "ensino que corrige e fortalece". Propõe-se
a disciplina na base do diálogo e da participação,
gerando produtividade do grupo.
A disciplina não deve
ser imposta e sim construída paulatinamente com o aluno.
A disciplina consciente e interiorizada,
que não se confunde com o silêncio absoluto,
obediência cega e passividade.
Esta disciplina vai ser atingida
conforme a maturação do Sistema Neurológico
como um todo.
Liberdade é ponte para
a disciplina.
As crianças devem exercitar
a sua independência através do lazer espontâneo,
experimentar situações e emoções,
para conseguirem ser pessoas maduras e equilibradas, usando
o bom-senso e a autodisciplina.
Escola X Professores.
É mais fácil
"impor" a disciplina do que "ajudar" os
estudantes a desenvolvê-la por si mesmos.
O propósito do ensino
deve ser o de capacitar o indivíduo a promover a sua
própria "orientação e controle",
adquirindo maturidade, autodisciplina.
Este processo é dinâmico
e evolutivo, portanto, a criança deve ser respeitada
como indivíduo, conforme a faixa etária e momento
de vida.
"A escola deve ter os
seus padrões disciplinares plenamente definidos e deve
persegui-los incansavelmente através dos métodos
em que acredita, para que o seu liberalismo não seja
confundido com permissividade, nem seu endurecimento seja
confundido com arbitrariedade", diz Henry Clay Lindgren.
Autodisciplina. É adquirida
através de certo controle e direção,
devem ser estipuladas as regras e os limites para ser obtida.
É variável conforme
a situação em que a criança se encontra,
e o seu nível de maturidade.
Não pode ser atingida
com controle e orientação permanentes, isto
é, as crianças não devem ficar na dependência
dos adultos a todo momento para tomar as suas próprias
decisões.
Precisamos lembrar que as necessidades
dos indivíduos são por vezes contraditórias,
dependente da sua faixa etária, como exemplo temos
a adolescência.
Aprendizagem X Ansiedade. Aprendizagem
significa mudança, pressupõe abandonar os velhos
costumes, gerando certa ansiedade, que em dose mínima
se torna favorável ao processo, mas se em dose excessiva,
ocasiona hostilidade, agressividade e desorganização.
Cada espécie de tarefa
tem a sua própria disciplina.
Causa de indisciplina X Procura
do Neuropediatra. Dificuldades de aprendizado; distúrbio
de comporta-mento [hiperatividade, drogas, fuga escolar, agressividade];
deficiência intelectual e neurossensorial; doenças
neurológicas: epilepsia, infecciosas, degenerativas,
traumatismos, tumores, tiques, cefaléia; distúrbios
psiquiátricos.
A hiperatividade, por exemplo,
causa descontrole: o indivíduo tem capacidade intelectual
normal, porém, há distúrbio básico
na concentração e atenção.
O tratamento é psicoterápico
e pedagógico, canalizando a agressividade e hiperatividade
para a atividade produtiva, atingindo o autocontrole.
Estabelecer limites. Adultos
muito condescendentes, tolerantes, não colocam limites
no comportamento de seus filhos. A liberdade em excesso em
vez de causar sensação de alegria à crianças,
gera um sentimento de abandono.
Liberdade com compreensão
traz segurança. Um momento difícil na relação
familiar causa solidão na criança. Devemos sempre
nos lembrar que os filhos estão acima do "bem"
e do "mal" entre os casais separados.
O elo indis-solúvel
dos pais são os seus filhos. Mas, diz Gibran, "os
filhos não são nossos e sim do mundo".
Superpais sufocantes, rígidos,
geram comportamento ambíguo. Os filhos são comportados
diante de seus pais e se tornam liberados longe deles, pois
não sabem fazer uso adequado da sua liberdade, por
vezes tomando atitudes anti-sociais e até delinquentes.
Portanto a repressão
é danosa. As crianças devem experimentar para
construirem as suas próprias respostas. Hoje em dia,
por conforto e segurança dos adultos, o lazer dos menores
é programado e as atividades de lazer espontâneo
restritas.
Pais permissivos, omissos e
ausentes, levam à carência afetiva. A relação
entre a quantidade e a qualidade do tempo partilhado com os
filhos é que causa o equilíbrio do relacionamento
familiar. Filhos à deriva, sem modelos, limites, parâmetros,
sentem-se abandonados e rejeitados.
Cometem furtos, mentiras para
chamar a atenção. Os filhos são de responsabilidade
dos seus progenitores.
Pais consumistas e perdulários,
gerando valores distorcidos do sentido de "ter",
onde o dinheito pode com-prar tudo: as amizades, os professores,
as notas e inclusive a própria escola!
Pais excessivamente econômicos,
geram egoísmo, falta de solidariedade e inconformismo
nos filhos.
(Tema apresentado na Mesa Redonda
sobre Disciplina pela Neuropediatra Taísa Razera Simões
de Assis-ABPP-Seção Paraná, na PUC, em
15/6/1996. Jornal Psicopedagogia da Associação
Brasileira de Psicopedagogia-Seção Goiás.
Goiânia, abr./maio 1997)
Disciplina escolar: por que pais
e Professores se sentem perdidos?
Os grandes responsáveis
pela educação dos jovens, a família e
a escola, não estão sabendo cumprir o seu papel.
O que se observa hoje é a falência da autoridade
dos pais em casa, do professor em sala de aula, do orientador
na escola.
Discussões homéricas
surgem nas famílias por causa da indisciplina, dificultando
bastante a convivência. Mães ficam mal-humoradas
porque as crianças bagunçam o quarto e pais
se exasperam porque elas se esquecem de apagar a luz. Porém,
o pior ocorre quando um filho responde mal. Isso lhes estraga
o dia.
Muitos alunos não respeitam
seus professores, e essa indisciplina prejudica o ensino e
a aprendizagem. Professores e orientadores têm dificuldade
em estabelecer limites na sala de aula e não sabem
até que ponto intervir nos comportamentos adotados
nos pátios escolares.
Onde foi que os educadores
se perderam?
Antes de responder a pergunta,
é preciso levar em conta que essa geração
viveu a questão da disciplina de um modo peculiar e
sofrido. Para facilitar a compreensão, vou chamar de
primeira a geração dos avós, de segunda,
a geração dos pais e professores, e de terceira,
a geração dos jovens.
Pois bem, a primeira educou
seus filhos de maneira patriarcal, com a autoridade vertical,
isto é, o pai no ápice da linha e os filhos
na base dela. A base era obrigada a cumprir tudo o que o ápice
determinava. Com isso, a segunda geração foi
massacrada pelo autoritarismo dos pais. E decidiu refutar
esse sistema educacional na educação dos filhos.
Na tentativa de proporcionar
a eles o que nunca tiveram, os pais da segunda geração
acabaram caindo no extremo oposto da primeira: a permissividade.
A psicologia contribuiu muito
para isso, ao divulgar frases como: "Não reprima
seu filho", "Seja amigo dos seus filhos", "Liberdade
sem medo". Boa parte dos adultos quis aderir ao modelo
horizontal, em que pais e filhos têm os mesmos direitos,
evitando neuroticamente o uso da autoridade, por confundi-la
com autoritarismo.
As intensas mudanças
vividas, de maneira muito rápida, pela segunda geração
tiveram um custo na educação da terceira, cujo
preço, provavelmente alto, ainda não podemos
estimar.
Esses jovens ficaram sem noção
de padrões de comportamentos e limites, formando uma
geração de "príncipes" e "princesas",
com mais direitos do que deveres, mais liberdade do que responsabilidade,
mais "receber" do que "dar" ou "retribuir".
Tais "príncipes
domésticos" querem ser, também, "príncipes
sociais", mas acabam se dando mal, pois as regras da
sociedade são outras, muito diferentes das válidas
na família.
As instituições
de ensino, que têm a tarefa de introduzi-los nessas
normas, muitas vezes se omitem. O professor foi outro que
perdeu a autoridade inerente à sua função.
Ao admitir um "príncipe escolar", em vez
de ajudar o aluno a viver em sociedade, ele prejudica seu
crescimento.
Recuperar a autoridade fisiológica
não significa ser autoritário, cheio de desmandos,
injustiças e inadequações.
Autoridade é algo natural
que deve existir sem descargas de adrenalina, seja para se
impor ou se submeter, pois é reconhecida espontaneamente
por ambas as partes. Assim, o relacionamento se desenvolve
sem atropelos. O autoritarismo, ao contrário, é
uma imposição que não respeita as características
alheias, provocando submissão e mal-estar, tanto na
adrenalina do que impõe, quanto na depressão
do que se submete.
A disciplina é essencial
à educação. E, para haver disciplina,
é necessária a presença de uma autoridade
saudável. O segredo que difere o autoritarismo do comportamento
autoritário adotado para que a outra pessoa (no caso,
filhos ou alunos) torne-se mais educada ou disciplinada é
o respeito à auto-estima.
Este livro pretende ajudá-lo
a exercer a sua autoridade - sem culpas, com segurança
e bom-senso. Filhos precisam de pais para serem educados;
alunos, de professores para serem ensinados.
Estes até podem ser
amigos, porém não mais amigos do que pais; não
mais amigos do que professores [grifo nosso]. Afinal, como
educador, você não pode se esquivar à
tarefa de apontar os limites necessários para que os
jovens se desenvolvam bem e consigam se situar no mundo.
(Içami Tiba. Psiquiatra,
psicodramatista e psicoterapeuta de jovens e famílias
há 26 anos. Disciplina: limite na medida certa. Introdução.
São Paulo: Editora Gente, 1996.)
Disciplina: um desafio para pais
e educadores
Profª Vilma de Lima Chaves
Todo ser humano, ao chegar
ao mundo, precisa conviver com outras pessoas para "vir
a ser" alguém. Isso quer dizer que nenhum indivíduo
se forma sozinho, mas precisa da interação com
outros seres humanospara aprender um comportamento social
aceito.
Precisa do reconhecimento
de que deve ter limites para sua atuação, precisa
reconhecer que tem direitos e deveres para obter uma efetiva
e boa convivência social.
Um dos grandes dilemas da atualidade
para os que se dedicam à educação sejam
eles pais ou professores, é o estabelecimento destes
limites, de modo que não venham ser eles elementos
restritivos à liberdade e à personalidade individual.
Outra questão que tem
influído para aumentar as dificuldades dos pais e educadores,
diz respeito às várias teorias sobre a educação,
cujas propostas vão desde a total permissividade a
um autoritarismo rigoroso, que acabam impedindo a formação
de uma disciplina autônoma e cria muita insegurança
e dúvidas em todos os envolvidos.
Numa análise histórica
do tempo, podemos verificar que "modismos" educacionais
permearam todo o trabalho educativo e provocaram diferentes
comportamentos nas gerações de pais e de filhos,
quando confrontados perante essa tarefa tão importante
que é educar.
Também temos que creditar
alguns dos problemas educacionais, aos meios de comunicação
que, contrariamente a seu potencial educativo, têm contribuído
para fixar nas crianças padrões de comportamento
inadequados à convivência social. Refiro-me a
images da violência, costumes aéticos, estímulo
ao consumo de bebidas e drogas, permissividade confundida
com liberdade etc.
Quando analisamos o comportamento
humano na sua dimensão disciplinar, verificamos que,
inicialmente, a aquisição de regras acontece
porque a criança faz aquilo que o outro quer dela,
evoluindo depois para uma atitude de desejar ter um comportamento
oriundo do próprio pensamento. Em matéria de
educação da disciplina, a criança evolui
de uma condição heterônoma (dirigida pela
vontade exterior) para uma condição autônoma
(dirigida pela sua vontade interior).
Todos esses fatores, associados
às dúvidas dos pais e professores sobre a melhor
maneira de educar os mais jovens, têm gerado a necessidade
de uma maior reflexão sobre a importância de
se impor limites ao comportamento. Refiro-me aos comportamentos
de respeito às normas e às pessoas, de solidariedade
e de compromisso com a melhora da qualidade das relações
e da vida social.
Os pais têm dificuldades
em saber até onde uma criança deve ser limitada,
preocupando-se com a sua individualidade.
Correto, mas é necessário
também perceber que ninguém vive sozinho, que
viver é estar compromissado com o outro. Portanto,
é melhor ter regras que poderão não ser
as mais adequadas do que não ter nenhuma. As situações
de anomia, onde a criança nunca sabe até aonde
pode ir, são geradoras de ansiedade e de sofrimento
para ela.
Sempre é necessário
oferecer aos filhos e aos alunos as normas vigentes e permitir
que eles as questionem para aceitá-las, para reconhecer
nelas o freio que permite parar antes de um acidente fatal.
Saber exatamente a razão de uma norma ou regra é
o meio mais fácil de obter sua aceitação.
Crianças que têm
regras em casa aprendem desde pequenos a respeitar e a exigir
ser respeitado. Sentem-se seguros e aos poucos vão
ganhando uma disciplina autônoma, diferente daquela
imposta pelos pais ou professores.
Quando calamos sobre um mau
comportamento, quando apoiamos uma criança num ato
errado ou quando deixamos a criança entregue às
suas próprias decisões estamos fazendo com que,
no futuro, este adulto seja um indivíduo sem valores,
sem emoções e sem sensibilidade. Acima de tudo,
facilitamos para que ele se torne uma criatura inconseqüente
e com grandes dificuldades para a vida social.
O conhecimento desses fatos
nos remete à conclusão bastante lógica
de que a disciplina se constrói a partir da relação
da criança com os adultos e com outras crianças.
É no convívio
diário que a criança se "apossa das leis
e das normas" , da ética e da moral, e isto implica
grande responsabilidade para pais e professores. É
nesse cotidiano que se aprendem os valores, e esses só
são apreendidos pela vivência.
De nada adianta dizermos que
certos costumes não devem ser adquiridos, que certas
atitudes não devem ser tomadas se, na prática,
na vivência diária, eles não são
vividos conforme o desejamos. Só há uma forma
de aprender valores: vivenciando-os. E o aprendizado de valores
está intimamente relacionado à aquisição
da disciplina interior, da disciplina autônoma.
Existe um velho ditado que
diz: "mais vale um gesto do que mil palavras..."
e isso é verdade! Uma atitude (ou a ausência
dela também) ensina muito mais do que mil discursos.
Isso nos remete a uma constatação
preocupante, pois vivemos numa sociedade que não valoriza
o cumprimento da lei, onde burlá-la ou infringi-la
é sinônimo de esperteza, onde as pessoas estão
achando que sempre é possível "dar um jeitinho".
Isso é extremamente deseducativo.
O pai que ultrapassa o sinal
vermelho está ensinando o filho que a lei não
é para ser cumprida. Como cobrar dele depois o horário
de voltar para casa, o compromisso responsável e cuidadoso
do uso do carro, a responsabilidade com os estudos, com o
namoro? Fica difícil realmente... fica difícil!
Como podemos ver não
é fácil educar nem é fácil escolher
entre os caminhos possíveis. Uma coisa, porém,
devemos ter claro : não é possível educar
sem normas e sem impor limites, se quisermos ter adultos responsáveis,
compromissados, sensíveis e conscientes. Temos que
lutar por isso!
A dívida
de Bradley
(Texto adaptado de Hugh T.
Kerr. In: O livro das virtudes II - o compasso moral, de William
J. Bennett)
Era uma vez um menino chamado
Bradley. Quando Brad tinha uma determinada idade, adquiriu
o hábito de considerar tudo em termos de dinheiro.
Queria saber o preço de tudo o que via e, se não
custasse grande coisa, não parecia ter valor algum.
Mas há muitas e muitas
coisas que o dinheiro não compra. E algumas são
as melhores do mundo.
Certa manhã, quando
Brad desceu para o café, colocou sobre os pratos de
Papai e de Mamãe um papelzinho cuidadosamente dobrado.
Eles abriram e quase não acreditaram no que Brad escrevera:
Papai e Mamãe devem
para Bradley:
Por levar recados
3 reais
Por tirar o lixo
2 reais
Por varrer o chão
2 reais
Extras
1 real
Total que Papai e Mamãe devem a Bradley
8 reais
Eles sorriram ao ler aquilo,
mas nada disseram.
Na hora do almoço, eles
devolveram a conta sobre o prato de Brad, junto com os 8 reais.
Os seus olhos faiscaram quando viram o dinheiro. Enfiou-o
depressa no bolso, já sonhando com as coisas que ia
comprar com a sua recompensa.
No mesmo momento, Brad viu
um outro pedaço de papel ao lado do seu prato, cuidadosamente
dobrado, igualzinho ao que escrevera. Quando abriu, percebeu
que era uma conta do Papai e da Mamãe:
Bradley deve a Papai e a Mamãe:
Por serem bons para ele
nada
Por cuidarem da sua catapora
nada
Pelas camisas, sapatos e brinquedos
nada
Pelas refeições e pelo lindo quarto
nada
Total que Bradley deve a Papai e a Mamãe
nada
Brad ficou sentado, olhando
para a sua nova conta, sem dizer nenhuma palavra. Minutos
depois, levantou-se e puxou os 8 reais do bolso, colocando-os
nas mãos de Papai e de Mamãe.
E depois disso passou a ajudar
a seus Pais por amor.
Embarque e desembarque
de alunos na portaria da Escola: medidas de segurança
Uma instituição
educacional deve ser vista como um todo. Um todo constituído
por partes igualmente importantes. E todas estas partes devem
concorrer para a boa formação do educando, entendida
a boa formação como o desenvolvimento da habilidade
de entender o ambiente em que se está inserido, situar-se
nele e agir sobre ele, além da capacitação
para o prosseguimento dos estudos.
A constatação
de que o ambiente é um todo social fixa, para nós,
obrigações que se descumpridas comprometem a
qualidade de vida de todos nós. Um exemplo de bem social
do nosso interesse é o trânsito urbano. Especialmente
nas proximidades da Escola, sobretudo o trânsito gerado
pelo embarque e desembarque diário dos alunos.
A Escola está o tempo
todo sensível à questão. Buscando sempre
alternativas para agilizar o fluxo do tráfego, sem
jamais abrir mão de qualquer medida de segurança.
Alguns procedimentos, se adotados
pelos pais no dia-a-dia, contribuirão em muito para
a formação integral do educando:
- esteja atento quanto aos
redutores de velocidade ("tartarugas") fixados nas
pistas que dão acesso à Escola. Evite riscos
de acidentes, toda cautela em locais de movimentação
de crianças é pouca. A vida é o bem mais
precioso deste mundo;
- esteja atento para a sinalização
das ruas (vertical e horizontal): placas e faixas para pedrestes.
O cruzamento entre a Gabriel Ferreira e a Benjamin Constant
tem provocado acidentes por desatenção dos motoristas,
especialmente pelo desrespeito às vias preferenciais;
- esteja atento para os locais
reservados exclusivamente nos horários de pique para
estacionamento e manobras dos veículos destinados ao
transporte escolar (peruas e micro-ônibus). O transporte
escolar deve ter prioridade. É um importante serviço:
amanhã, Você pode ter que recorrer a ele;
- não buzine: a área
escolar é considerada como zona de silêncio -
seu filho não pode ser perturbado em sala de aula;
- não trafegue em alta
velocidade nas proximidades da Escola: a área contígua
à Escola é considerada como de segurança
- seu filho não pode ser atropelado;
- não fique se despedindo
indefinidamente do seu filho dentro do carro, ou entregando
no último momento o dinheiro do lanche, ou ainda retirando
as mochilas do bagageiro, enquanto se forma uma enorme fila
de carros, por sua vez conduzindo pessoas com "os mesmos
direitos de fazer as mesmas coisas" e com as quais Você
não concorda no caso delas estarem fazendo isso à
sua frente;
É importante, por estas
e outras razões, compreender a necessidade de escoar
rapidamente o tráfego nas proximidades da Escola. Todos
querem e precisam, da mesma forma, desembarcar ou embarcar
suas crianças. A paciência de cada um de nós
deve ser permanentemente estimulada: caso lhe falte paciência
por Você mesmo, procure desenvolvê-la em favor
da educação das crianças. Isso fará
um bem incalculável para a formação delas.
Podem acreditar.
No entanto, cumpre esclarecer
que o Instituto Dom Barreto encontra-se empenhado no constante
estudo de melhores soluções para facilitar a
movimentação das crianças (entrada/saída)
no ambiente escolar. Colabore. Ofereça sugestões.
Venha conversar conosco. Obrigado pela atenção.
Paz e Bem.
Marcílio Flávio
Rangel de Farias - Diretor
Lidar com
perdas
perder... a palavra desperta,
de imediato, reações negativas: vivemos numa
sociedade onde a noção de "perda"
está muito carregada de conotações adversas.
Perda evoca prejuízo financeiro, morte, derrota, vergonha.
Ninguém quer perder,
ser um perdedor.
No entanto, se examinarmos
o aspecto puramente psicológico da perda, podemos,
de imediato, afirmar que uma perda é, apenas, a ruptura
de um laço, de uma ligação afetiva -
um vínculo, como dizemos. Esse vínculo, no entanto,
é normal e necessário.
Sabe-se, desde o início
do Século, que toda uma série de síndromes,
de doenças que atacam o bebê resultam do abandono
materno, da não-aceitação pela mãe,
e, de forma geral, da privação de interesse,
atenção e toque físico por parte de outro
ser humano. "Sem o vínculo psico-físico,
o ser humano sequer consegue sobreviver".
Assim, se a formação
do vínculo com o "outro" é indispensável
até para se sobreviver, a própria sobrevivência
e o desenvolvimento subentendem um processo de ruptura de
vínculos, perdas e crises. Com base nesse enfoque,
podemos dizer, mesmo, que se começa a "perder"
um filho desde o seu nascimento, e que desde o nascimento
se inicia para cada um, o processo de perdas.
A vida neste mundo começa
com uma ruptura, uma separação, uma perda. Rompe-se
a "bolsa d’água", ocorre o nascimento,
o novo ser humano se separa daquele outro, a mãe, que
por nove meses o abrigou; perde o conforto, a segurança
do útero materno.
Há quem considere,
mesmo, que se trata de um trauma, o chamado "trauma do
nascimento". Mas, impossível entrar neste universo
sem passar por essa perda.
Também, à medida
que o indivíduo cresce, se desenvolve, avança
em sua trajetória, a perda vai acompanhá-lo,
marcando e possibilitando o seu crescimento.
De fato, para "avançar"
é preciso "deixar para trás". Seguir
pela vida significa romper vínculos - sofrer perdas
- justamente para poder estabelecer outros vínculos
novos, e assim por diante. Todo o processo de crescimento
psicofísico pode ser visto - e bem visto - sob esse
ângulo.
A separação física,
a ruptura do cordão umbilical, marca esse início
do processo de surgimento de uma "outra" pessoa
- a princípio, muito indefesa, com grande grau de dependência
em relação a esse primeiro ser do qual acaba
de se separar.
O bebê necessita da
mãe, do corpo da mãe, inclusive quanto ao alimento
- o seu melhor alimento, o que lhe dá mais chances
de viver, mais garantias de defesas orgânicas no novo
meio: o leite materno.
Mas, como já apontamos,
não é apenas uma questão de alimento:
é através do vínculo, não só
físico como psíquico que o recém-chegado
começa a fazer contato com o desconhecido, com esse
estranho mundo em que acaba de ingressar e isso ocorre em
etapas, em fases marcantes.
O crescimento nada mais é
do que a história dessa caminhada, dessa sucessiva
formação e quebra de vínculos - conquistas
e perdas - que marcam a trajetória do ser humano. Uma
história que começa com a perda do útero
e prossegue com a perda do seio, no desmame; com a perda da
imagem da mãe, quando a criança percebe que
há "estranhos", aqueles que não são
a mãe e passa a perceber a ausência materna.
A formação do
novo ser segue paralela ao processo de separação,
de perda, que possibilita o ganho, o avanço.
A chamada "crise normativa"
- aquela que é esperada, que é normal e dá
norma, e de cuja superação depende o bom avanço
e o desempenho na superação da crise seguinte.
É impossível evitar tais crises, pois é
ao vivê-las bem, ao superá-las, que o indivíduo
vai fortalecer o seu ego, se constituir e se integrar socialmente.
Tratar corretamente a criança,
pois é a base para um sentimento de identidade que
mais tarde se combinará com um sentimento de "ser
aceitável", de ser ela mesma e de que pode converter-se
naquilo em que os demais confiam que ela chegará a
ser.
A questão é indagar
se estamos realmente preparados para lidar com as perdas.
Quem vem se desenvolvendo
bem ao longo de sua vida, faz e desfaz vínculos de
uma maneira que não hesitaríamos de chamar de
"saudável".
Se a separação
é necessária, é indispensável,
impedi-la ou retardá-la seria mais que negativo.
O apego indevido e excessivo,
o vínculo enrijecido impede uma separação,
um nascimento para o mundo, impede que esse ser humano termine
de se desenvolver, de estabelecer sua própria individualidade.
Aqui é preciso saber perder o filho - para que ele
possa se "ganhar". O adulto tem dificuldade de aceitar
o crescimento e colocar-se diante de uma nova relação.
Seria interessante que, diante
uma perda afetiva, especialmente a decorrente de afastamento,
algumas questões fossem consideradas:
- examine sua perda, se ela
é necessária ou não;
- examine as suas exigências,
se o que você quer é conveniente para o seu filho,
se implica abrir mão de algo;
- examine a sua situação,
qual a natureza do vínculo com o seu filho, se tal
vínculo permite que ele desenvolva sua liberdade e
sua autonomia;
- examine sua flexibilidade,
o que mudar para suportar melhor essa perda.
Toda a experiência, por
mais dolorosa, nos ensina algo: aquilo que se aprendeu de
positivo. É preciso lidar com as perdas para que, superando-as
construtivamente, cada ser humano possa alcançar o
mundo e viver a vida plenamente.
(Texto condensado de Perdendo
filhos, da psicóloga Vanda L. P. Vasconcellos. In:
Brasil Rotário, set. 1996).
Mãe, filha, avó e neta
Ah, mãe! Sentar-me para
escrever sobre nós foi uma longa viagem de volta até
onde consigo lembrar. Meu primeiro dia de aula no primeiro
período da Irmã Seráfia, lembra? A senhora
ansiosa, esperando meu choro e eu, na fila, tão empertigada
quanta uma menina de 4 anos pode ser, viro para trás
e digo: Pode ir embora, mamãe!
De antes, há lembranças
meio esfumaçadas, peças soltas.
É engraçado
como cada fase da vida adulta nos remete a uma época
específica da infância. Já passei, com
meus filhos, pela fase da fralda e da mamadeira.
Hoje atravesso a vida entre
cadernos, pesquisas para quarta-feira (hoje é terça
à noite...), coleguinhas, reunião de pais, reuniões
no serviço, passeios no shopping, fitas de videogame."Mãe,
pega o Felipe pra passar o dia aqui". Hora-extra para
terminar o trabalho encomendado pelo chefe."Não
esquece de devolver a fita na locadora"."Amanhã
é aniversário da Letícia", tenho
que comprar presente e não vai dar tempo na hora do
almoço...
Agora, sim, estão aí
todos os elementos (quase todos; só não havia
shopping e videogame) que me transportam a outro tempo, a
outra mãe, a outra profissional - e nossa história
começa a ficar parecida, a se misturar.
Responde, mãe: como
é que a senhora nunca faltava as reuniões de
pais, as festinhas do Dia das Mães, a todos "programas
de mãe"?
Até algum tempo atrás,
até acontecer comigo, eu não havia me dado conta
dessa difícil conciliação. Trabalhar
fora, três crianças, casa, marido, festas juninas,
vestidos de anjo, aniversários... e lá estava
a senhora, sempre alegre e sorridente.
As lembranças me fazer
voar de marcha a ré. A mãe que sou, briga com
o terrível plástico de encapar caderno; a filha
que fui pula de alegria ao ver a beleza do material novinho.
A mãe de hoje se descabela para descobrir uma merenda
que não volte sem ser tocada.
A filha de ontem adora o cheirinho
do plástico da merendeira. A mãe de agora sabe
que esperar acordada o filho chegar da festa é pior
que não dormir por causa da dor de barriga do nenê
- e reconhece os temores e angústias que apertavam
o coração da mãe do passado...
A filha de ontem nunca vai
esquecer a canjica com amendoim do aniversário dela
em junho. A mãe de hoje não consegue "inventar"
um aniversário em que a criançada se afaste
do videogame.
A filha que fui lembra com
carinho dos vestidos de organdi e tiras bordadas, feitos com
capricho e carinho. A mãe que sou não pode entender
- só achar graça - a filhota que detesta vestido;
prefere bermuda, tênis e boné.
Desse passado tão misturado
com o presente guardo na memória, mãe, uma de
minhas melhores lembranças: a senhora me ensinando
a dançar ao som dos 78 rotações de Al
Johnson, Edith Piaf, Glenn Miller, Ivon Curi. Meu gosto pela
música nasceu desses momentos.
E neste meu presente tão
atribulado, às vezes sou obrigada a lhe pedir coisas
que, tenho certeza, levam-na de volta ao passado: recortar
figuras de revistas, fazer pesquisas sobre o cupim (aquela
mesma, que é pra amanhã!), costurar remendos
nos jeans para a festa junina, procurar no jornal algum artigo
sobre a camada de ozônio; essas coisas de mãe-avó.
Sabe, mãe, são
por essas e outras que experimento o gostinho bom de ser -
ainda hoje, confesso, mais filha do que mãe.
E, na tentativa de reencontrar
a menina de um dia, a mulher que sou tantas vezes, preciso
de colo, carinho e cafuné, sabendo que ser mãe
ou filha é questão de circunstância, há
um tempo em que os papéis se mesclam, se confundem,
se invertem, para recomeçar tudo de novo com a menininha
que por enquanto é apenas filha e neta.
(Adaptado do texto de Maria
Carmem Gomes Silveira. Revista Cláudia, maio 1995.
p. 14)
Namoro: é preciso recriar
o amor
Ao receber o convite para refletir,
pensei que já sou velho. Mas outro juízo se
contrapôs ao precedente: dentro de mim existe, convivendo
simultaneamente, o velho e o jovem. Então a reflexão
sobre o namoro traz à tona a juventude e a velhice.
O velho, que desponta atualmente
em mim, se preocupa com o tempo de hoje: o assim chamado pós-moderno.Uma
das características da pós-modernidade é
notada pela destruição de tudo quanto é
valor e limite.
Destruição da
estrutura familiar, ética, social e religiosa. Não
sobra nada. Não existem mais tradições,
nem modelos. O tempo presente não se inspira mais no
passado, não existem mais certezas nem verdades, muito
menos caminhos. Não se cultiva mais a amizade, o amor,
o respeito, a fidelidade e a partilha.
A educação humanista,
há tempo, perdeu sua cátedra. O ápice
da pós-modernidade se constitui no caos. Estamos vivendo,
hoje, como dentro de um navio que afunda em alto mar: salve-se
quem puder. O homem perdeu seu nome e a humanidade, a sua
identidade.
Quando o inconsciente rompe
no consciente, a pessoa perde o controle de si mesma e enlouquece.
Poder-se-ia dizer que a humanidade
enlouqueceu, perdendo todo e qualquer referencial humano,
vivendo embrutecida e tragicamente violenta. Pode ser que
eu erre, mas, psicologicamente falando, arriscaria um diagnóstico
provisório para a doença do mundo atual: o homem
tornou-se um narcisista patológico, cuja característica
principal é a onipotência ou a ousadia de considerar-se
Deus.
O namoro. Dentro deste contexto,
aparentemente pessimista e com raras e dignas exceções,
coloco o namoro, que não é mais um caminho do
amor, mas do impulso ou do irracional.
O namoro como relação
afetiva perdeu para a relação com a morte como
valor. Por incrível que pareça, hoje, cultua-se
a morte.
Para afastar risos e descrédito
quero tentar explicar-me: não havendo mais nada que
segure o jovem, percebendo-se como o umbigo do mundo, julgando-se
todo-poderoso, caminha a passos largos para o nada ou para
a morte.
Perdeu-se o outro, então
namora-se a morte como valor. Erotiza-se a agulha, a droga,
o perigo, o trágico, a velocidade, o acidente e o crime.
Enfim, ama-se o que é sádico, destruidor, exótico
e paradoxal.
Então, não se
namora mais porque a relação trocou de objeto.
O jovem não erotiza mais a menina, mas a si mesmo,
sádico, projetado nos objetos ou em situações
altamente perigosas.
O narcisista patológico
não se relaciona, mas ama-se a si mesmo com toda a
alma e entendimento. A onipotência, como deificação
de si mesmo, constitui uma defesa contra uma fraqueza brutal.
Ninguém é tão fraco como aquele que se
considera Deus.
A política, a economia,
a ciência e a sociedade, mais do que nunca, criam deuses.
A pobreza de afeto, de sentimento, de ausência de valorização
do outro, são-lhes características marcantes.
O pavor de depender de alguém torna-os independentes
e supremos.
Se a essência do amor
é dom e entrega, então a juventude atual precisa
converter-se para poder amar. Hoje, falar de namoro como preparação
para o casamento, e isso é motivo de piada. A reflexão
sobre a necessidade de construir um lar sobre bases sólidas
torna-se conversa mole com jeito de padre, freira ou gente
beata.
Toda e qualquer natureza que
é mutilada nos seus valores vitais, se vinga, mais
cedo ou mais tarde.Quando o amor é crucificado, os
céus clamam e a terra estremece.
Quando os valores humanos fundamentais
e perenes são abolidos da face da terra, então
tudo perde o sentido. Banido o amor, a humanidade embrutece
e enlouquece. Pela observação dos sinais, pelo
que se vê e ouve, têm-se a impressão de
que a razão humana desgovernou-se e conduz a humanidade
para o caos.
Jovens de todo mundo, amai!
O eu da gente se estrutura ao redor de valores.
O homem adoece mentalmente
quando perde os valores e se embrutece quando não se
reconhece mais como criatura ou um ser relativo em relação
ao absoluto.
Perdoem-me os educadores e
a sociedade para o que vou afirmar: no meio deste mundo cão,
é necessário construir um mundo novo; reconstruir
a família para abolir a violência e o crime;
trazer de volta a relação, centrada no conhecimento
e na amizade para recuperar a saúde; recriar o amor
para o curar o homem da loucura; estruturar um eu forte, permeado
de valores, para evitar a erupção do caos.
Depois disso, arrisco-me em
falar de namoro como um projeto promissor para o casamento:
prelúdio encantador de uma sinfonia que extasia o casal
pela vida a fora.
Quem namorou, casou e é
fiel até que a morte os separe, descobriu que a dialética
do amor é morte e ressurreição.
A única experiência
de felicidade verdadeira é fruto ou conseqüência
da morte-ressurreição e doação
total de si mesmo. E a saúde mental passa por ai.
(Natal Fachini, jornalista
e psicanalista. Texto publicado in Mundo Jovem. Porto Alegre,
jun. 1997. p. 11)
Nossos filhos
terão emprego?
A grande maioria das mães
de adolescentes e pré-adolescentes se preocupa, com
razão, com as perspectivas de emprego de seus filhos
e filhas. As notícias sobre o fim do emprego, terceirização,
globalização, níveis de desemprego são
alarmantes para quem pretende iniciar uma carreira daqui a
alguns poucos anos.
Quais são os fatos concretos?
1. As 500 maiores empresas
brasileiras não acrescentaram um único emprego
novo nos últimos dez anos. Pelo contrário, retiraram
do mercado 400.000 postos de trabalho, passando a empregar
somente 1,6 milhão de funcionários, o que representa
insignificantes 2,3% dos trabalhadores brasileiros.
2. A globalização
está dizimando não somente empresas brasileiras,
mas setores inteiros.
3. O crescimento das importações
não gera apenas um problemático déficit
comercial, mas cria empregos no exterior em detrimento do
emprego interno.
Sem querer dar a impressão
de um mar de rosas, existem algumas considerações
que amenizam esse quadro. Dificuldades os jovens terão,
mas os argumentos abaixo serão úteis quando
o pânico empregatício surgir novamente:
1. O crescimento das importações
não durará para sempre no nível atual
e nunca chegará a 90% do PIB, desempregando todo mundo,
como uma simples extrapolação poderia sugerir.
Provavelmente estabilizaremos
em torno de 15% as importações, como na Índia
e nos Estados Unidos. Oitenta e cinco por cento do PIB será
feito por brasileiros para brasileiros.
2. O grande gerador de emprego
no mundo inteiro não é a grande empresa, e sim
a pequena e a média. Quem emprega 97,3% da força
de trabalho hoje em dia são a pequena e a média
empresa, bastante esquecidas ultimamente nas prioridades econômicas
do governo.
O governo FHC tem priorizado
as grandes empresas, seja nas grandes privatizações,
na busca de grandes investidores internacionais ou nas grandes
reformas. A pequena e a média empresa mal figuram no
discurso presidencial.
Elas ainda não figuram
prioritariamente no discurso econômico, uma importante
razão desse aumento do desemprego. Mais dia menos dia,
alguém alertará FHC para o fato de que não
se fomentarão os empregos de que precisamos somente
baixando os juros.
3. Mas o principal argumento
para acalmar mães aflitas é que o povo brasileiro
ainda não consome seu primeiro e segundo televisores,
como ocorre no Primeiro Mundo, nem seu quinto par de sapatos
ou sua viagem a Fortaleza.
Enquanto esses desejos existirem,
nossos filhos terão oportunidades incríveis
para produzir os itens necessários para satisfazê-los.
O mercado brasileiro é
incrível em termos de potencial e nosso problema hoje
é exclusivamente de produção, não
de mercado nem econômico.
Preocupadas, deveriam estar
as mães alemãs, suíças e francesas,
porque nesses países as pessoas já têm
cinco pares de sapatos, três televisores em cada casa,
um mercado saturado.
Nenhum europeu vai querer
dois televisores em cada quarto nem dez pares de sapatos,
pois não são a Imelda Marcos. Na Europa, não
há mais emprego porque o consumismo europeu está
chegando à saturação.
4. Se seu filho e sua filha
souberem adquirir competência e conhecimentos práticos
que sejam requeridos por esse novo mercado emergente, não
terão dificuldades.
Quem não estiver minimamente
preocupado com seu futuro profissional ou estiver freqüentando
uma escola mais preocupada em ensinar o que era importante
no passado do que o que será importante no futuro vai
ficar sem ter o que fazer.
Não querendo deixar
a impressão de que tudo será fácil nem
de que estamos no caminho certo, quem decifrar o seguinte
enigma não terá de se preocupar: no futuro faltarão
empregos, mas não faltará trabalho.
Stephen Kanitz.Veja, Março
1998
Oh, devolvei,
devolvamos os contos de fadas para as crianças
Que me permitam, a próposito
de contos, narrar aqui uma pequena história.
Meu amigo Jacques entrou um
dia numa padaria para comprar um pãozinho que chamara
sua atenção. Pretendia levar o pão para
um menino que havia perdido o apetite e só concordava
em comer alguma coisa quando o distraíam. Pareceu a
meu amigo que um pão tão bonito deveria apetecer
até mesmo a um enfermo.
Enquanto esperava o troco,
entrou na padaria um meninozinho de sete ou oito anos, pobremente
vestido, mas muito limpo.
- Dona - disse ele à
padeira - Mamãe me mandou buscar um pão...
A padeira subiu ao balcão
(o caso se passou numa cidadezinha do interior) e tirou da
vitrina das bisnagas de quatro libras o melhor pão
que encontrou ali e o depositou nos braços do meninozinho.
Meu amigo Jacques reparou então
na figura franzina e enfezada do pequeno comprador, que contrastava
com o aspecto viçoso e rechonchudo do enorme pão,
cujo peso ele mal parecia agüentar.
- Você trouxe o dinheiro?
- indagou a padeira.
Os olhos do menino anuviaram.
- Não, senhora - respondeu,
apertando a bisnaga contra o peito - Mamãe disse que
vem falar com a senhora amanhã.
- Está bem - disse a
padeira bondosamente - pode levar o pão, meu filho.
- Obrigado, dona - falou o
meninozinho.
Meu amigo Jacques recebeu o
seu troco, meteu sua compra no bolso e se preparava para sair
quanto notou, parado às suas costas, o menino do pão,
que ele julgava já estar longe.
- Que é que você
está fazendo aí? - perguntou a padeira ao menino,
que ela também imaginava já ter ido embora.
- Não ficou satisfeito com o seu pão?
- Oh, fiquei sim - falou o
garotinho.
- Pois então vá
levá-lo para a sua mamãe, meu pequeno. Se você
demorar, ela vai pensar que ficou brincando pelo caminho e
vai ralhar com você.
O menino não pareceu
ter ouvido. Alguma coisa parecia atrair toda a sua atenção.
A padeira aproximou-se e deu-lhe um tapinha carinhoso no rosto.
- Em que é que você
está pensando, em vez de ir embora? - falou ela.
- Que é isso que está
cantando aqui? - perguntou o meninozinho.
- Ninguém está
cantando aqui - respondeu a padeira.
- Está sim - insistiu
o menino. - Ouça: Cuic, cuic, cuic, cuic...
- A padeira e o meu amigo Jacques
apuraram o ouvido, mas nada ouviram a não ser o refrão
de alguns grilos, hóspedes costumeiros das casas onde
é feito o pão.
- Será um passarinho
- indagou o garoto - ou é o pão que canta quando
está assando, como as maçãs?
- Não é nada
disso, meu tolinho - falou a padeira. - São os grilos.
Eles cantam onde está sendo feito o pão porque
o forno acaba de ser aceso, e a vista das labaredas os deixa
contentes.
- Os grilos! - exclamou o meninozinho.
- Eles são o que a gente costuma chamar de cri-cri?
- Isso mesmo - respondeu pacientemente
a padeira.
O rosto do menino se iluminou.
- Dona - falou ele, corando
diante da ousadia de seu pedido - eu ia ficar muito contente
se a senhora me desse um cri-cri...
- Um cri-cri? - sorriu a padeira.
- Que é que você vai fazer com um cri-cri, benzinho?
Está bem, se eu puder dar a você todos os que
andam aqui pela casa, farei isso agora.
- Oh, basta que me dê
só um, se a senhora puder! - falou o menino juntando
as mãozinhas pálidas acima do seu enorme pão.
- Ouvi dizer que os cri-cris trazem felicidade para as casas.
Quem sabe se nossa casa tivesse um, a Mamãe, que tem
tanta tristeza, nunca mais chorasse...
Meu amigo Jacques olhou para
a padeira. Era um bela mulher, de rosadas faces. Ela enxugou
os olhos com a ponta do avental, e se o meu amigo Jacques
também estivesse usando um, teria feito o mesmo.
- E por que a sua pobre mamãe
chora tanto? - indagou o meu amigo Jacques, que não
pôde evitar de se meter na conversa.
- Por causa das contas, senhor
- falou o garotinho. - Meu pai morreu, e por mais que a Mamãe
trabalhe, nós nunca conseguimos pagar todas as contas.
Meu amigo Jacques levantou
em seus braços o menino, e junto com ele o pão
e creio que abraçou os dois.
Enquanto isso a padeira, que
não tinha coragem de pegar ela própria os grilos,
desceu até a sala de fazer pão e pediu ao marido
que recolhesse uns quatro, os quais foram colocados numa caixa
com alguns buracos na tampa, para que eles pudessem respirar;
em seguida entregou a caixa ao meninozinho, que foi embora
todo contente.
Quando ele partiu, a padeira
e meu amigo Jacques apertaram-se as mãos calorosamente.
- Pobre criança! - falaram
os dois juntos.
A padeira apanhou então
o seu livro de contas, abriu-o na página onde estavam
anotadas as dívidas da mãe do meninozinho e
traçou um grande risco atravessando a página,
porque as contas eram muitas, escrevendo embaixo: pago.
Enquanto isso o meu amigo Jacques
havia colocado sobre uma folha de papel, para não perder
tempo, todo o dinheiro que trazia nos bolsos - que, por sorte,
era bastante naquele dia - e pediu à padeira que o
enviasse o mais rápido possível à mamãe
do menino dos cri-cris, junto com a nota de quitação
de suas contas e um bilhete dizendo que ela possuía
um filho que um dia seria a sua alegria e o seu consolo. Entregaram
tudo a um padeirinho de longas pernas, recomendando-lhe que
se desincumbisse com toda a presteza da missão.
O menino, com o seu enorme
pão, seus quatros grilos e suas curtas pernas, não
pôde andar tão depressa quanto o padeirinho;
de forma que, ao chegar em casa encontrou a sua mamãe,
pela primeira vez em muito tempo, com os olhos afastados do
trabalho e um sorriso de paz e felicidade em seus lábios.
Ele acreditou que foi a chegada
dos seus quatro bichinhos escuros que tinha feito o milagre,
e na minha opinião ele não estava errado. Será
que sem os cri-cris e o seu bom coração teria
ocorrido aquela feliz mudança no humilde destino de
sua mãe?
Para que servirá esta
historieta? Servirá para responder por um fato - por
insignificante que seja - a essa categoria de espíritos
positivos demais que pretendem hoje, em nome da razão,
banir o maravilhoso do repertório da infância.
Nada, absolutamente nada podereis
revelar às crianças, se pretendeis ocultar-lhes
o maravilhoso, o inexplicado, o inexplicável, o impossível,
que são encontrados no real tanto quanto no imaginário.
Oh, devolvei, devolvamos os
contos de fadas para as crianças, se não formos
bastante puros para voltarmos nós próprios a
eles.
(Texto adaptado. P. J. Stahl.
A respeito dos contos de fadas. Introdução.
Charles Perrault. Contos de Perrault. Belo Horizonte : Villa
Rica, 1992. p. 15-21.)
Para que serve
o roteiro de estudos?
O Roteiro de Estudos é
um instrumento facilitador do Plano de Estudos da criança.
Se prestarmos atenção bem direitinho, vamos
verificar que ele já foi desdobrado através
da Agenda Diária.
Daí, interpretá-lo
como orientação só no período
de avaliações é deixar de entender o
estudo como processo.
Estudar é um trabalho
sistemático, diário, contínuo. Incorre-se
em erro pensar que se deve aguardar o Roteiro de Estudos,
e só depois de tê-lo em mãos estudar "para
as avaliações". Mesmo porque não
se estuda para isso e sim para a vida.
Então para que serve
o Roteiro de Estudos? É para oferecer ao educando uma
visão de conjunto dos conteúdos até então
desenvolvidos.
A Escola entende que a reapresentação
dos conteúdos de maneira agrupada (lembre-se do seu
desdobramento na Agenda Diária) pode também
ajudar na sua compreensão global, contribuindo para
visualizar as relações entre eles.
É uma maneira de construir
uma concepção de mundo com base na organização,
na sistematização, na inter-relação
- potencializando oportunidades para o raciocínio se
desenvolver.
O objetivo não é
só facilitar os estudos no "período de
avaliação". É preciso que a família
compreenda que a Escola não recomenda ênfase
nos estudos episódicos. Estudar é uma obrigação
diária. Se o aluno encarar o ato de estudar como processo,
a revisão torna-se proveitosa. O Roteiro de Estudos
cumpre a sua finalidade.
Na verdade, não existe
"um período de avaliações"
na Escola. As demais atividades da Escola continuam - não
havendo porque, por parte da família, criar um clima
especial para a semana em que se realizam, também,
as avaliações.
É contra-educativo qualquer
ânimo que enseje tensão, ansiedade, para o educando
nesta ou em qualquer outra etapa do calendário escolar.
Esperamos que o Roteiro de
Estudos seja bem compreendido e utilizado pela família
e pelo educando. Só assim todos nós, família
e Escola, podemos afirmar que a nossa única preocupação
é com o crescimento do aluno.
Bons estudos para todos! Sucesso!
Paz e Bem.
Marcílio Flávio
Rangel de Farias - Diretor
O pataxó
e o bacalhau
NINGUÉM da minha geração
passou pela infância sem bom tapa na bunda por recusar
óleo de fígado de bacalhau.
Garanto, todos se lembram
do gosto intragável daquele verdadeiro purgante que,
segundo a propaganda, garantiria saúde na juventude
e pela vida inteira.
Da memória não
sai, também, a imagem do pescador carregando o enorme
bacalhau. Azar o nosso, meu e dos sete irmãos. Papai,
farmacêutico, garantia estoque inesgotável, mesmo
que o mais ousado desse sumiço no vidro de plantão.
Se todos têm trauma do
homem do bacalhau, me julgo no direito de trauma maior. E
só por causa de uma tarde de sexta-feira.
Um desgraçado peixeiro
passou pela farmácia, onde eu era o titular da faxina
e da entrega, e convenceu papai das qualidades de um surubim,
recém-chegado das águas de Três Marias.
Já pensando no domingo,
no próprio e no almoço da turma, o velho fechou
o negócio. O problema é que o danado do peixe
não ficava bem na farmácia e, tampouco, fora
da geladeira.
Prático nas coisas
da roça - e como falta roça na vida de hoje!
- o velho fez um buraco na boca do peixe, passou laçada
forte de barbante, pediu-me que estendesse o dedo indicador
da mão direita e fez o que sempre fazia: deu a ordem,
taxativa, irrevogável.
O problema é mamãe
estava a 10 quilômetros de distância e não
ficava bem, para um garotão de 13 a 14 anos, desfilar
pela rua Padre Eustáquio, a mais movimentada do Carlos
Prates, com um peixe daquele nas costas. Inadmissível
o risco de cruzar com alguma das muitas namoradas que ele
imaginava ter fisgado na última "hora dançante",
ao som de Roberto, Erasmo, Wanderléia...
Não, definitivamente,
não dava para encarar suprema humilhação.
Resistir é preciso, pensei, até porque vivíamos
a época da resistência. Encarei o velho. Decidi
que era a hora de romper com o autoritarismo. Era preciso,
como se diz hoje, chutar o pau da barraca.
Faltou foi tempo para executar
o decidido. Para tamanha ousadia, só uma conseqüência:
um baita de um catiripapo na orelha e, com ela quente e vermelha,
chorando, nariz escorrendo, surubim às costas, tomei
o rumo de casa para levar o maravilhoso, eternamente maravilhoso,
almoço dominical da Dona Adélia.
Hoje o Brasil continua falando
dos garotos de Brasília. Daqueles que pirotecnisaram
Galdino, o Pataxó. Meus filhos também são
daqui. São jovens. Acabaram de ir para cama.
Segunda-feira, escola. O corre-corre
de sempre. Paciência, diálogo, psicologia...
Angústia, questionamento, dúvidas. Alegrias,
emoções. Obrigações, trabalho.
Sou pai, sou filho do velho Humberto, o marido de Dona Adélia.
Sofremos o supremo radicalismo dele.
Quem conheceu se lembra, simplesmente
exagerado. Mas, nos dias de hoje, me pergunto: eu, tu, ele,
nós... estamos todos, em Brasília, em Belô,
em qualquer lugar, agindo certo com a moçada?
Estamos sabendo impor limites?
Estamos dosando certo as liberdades que nunca tivemos ou estamos
usando nossos filhos para resistir a um modelo de sociedade
que não resiste a mais nada?
O velho Humberto estava certo?
Aí me assalta a pior das dúvidas: não
está faltando passar na farmácia para comprar
óleo de fígado de bacalhau?
Uma certeza eu tenho: óleo
e catiripapo, na juventude, fazem muito bem à saúde.
(Leonel da Mata. Jornalista.
Jornal O Dia. Teresina, 3 mai. 1997. p. 4)
Do QI às
múltiplas inteligências: quase um século
de história
Para localizarmos a origem
desta história, teremos que nos reportar ao início
do século, mais precisamente em 1905, quando foi solicitado
ao psicólogo francês Alfred Binet uma bateria
de testes para verificar como se sairiam as crianças
francesas, nos bancos escolares.
Binet elabora então
uma avaliação que não pretendia mensurar
e rotular numericamente o sujeito em questão, até
por preocupações de indiretamente traçar
o seu futuro.
Na realidade, Binet simplesmente
comparava o padrão médio de resultados mentais
de uma faixa etária, com o resultado do indivíduo
analisado, e este por sua vez à idade cronológica,
desta forma, simplesmente por comparação, identificaria
o sujeito acima ou abaixo da média padrão daquela
idade.
Alguns anos mais tarde, W.
Stern divide a idade mental (IM) pela cronológica (IC)
multiplicando este coeficiente por 100, dando então
origem ao QI.
Deste momento em diante os
indivíduos, passaram a ser mensurados e numericamente
rotulados com QIs de 100, 90, 120 etc e, desta forma, tendo
seu futuro pré-estabelecido na sociedade em função
do seu QI.
Aproximadamente 70 anos perpetuaram
o QI como fator decisório no sucesso de um indivíduo
na sociedade em que este vivesse, até que o psicólogo
americano Howard Gardner e sua equipe começassem a
desenvolver um trabalho de pequisa mais profunda, nos testes
de QI, nos sujeitos de "pouca inteligência"
e finalmente naquilo que a escola se preocupava em destacar
como o mais importante para desenvolver a Inteligência
de seus alunos.
Gardner começa a notar
então que o teste de QI e seus similares privilegiam
apenas as áreas lógico-matemática e lingüística,
e que por sua vez estas eram as áreas de maior, se
não total, atuação nas escolas.
É óbvio então
concluir que um sujeito de alto QI, ao entrar na escola ou
universidade se sairá muito bem, pois os dois encaminham
seu processo para as mesmas áreas, ou seja a lógico-matemática
e a lingüística.
Mas alguns sujeitos foram rotulados
como "pouco inteligentes", e de alguma forma tiveram
sucesso na sociedade, pois são excelentes profissionais
em suas áreas de atuação. Mas como isto
poderia acontecer se eles possuem baixo QI?
Na realidade, eles possuem
inteligências não desenvolvidas nas áreas
privilegiadas pelo teste de QI, porém se tiveram sucesso
é porque com certeza devem possuir outras inteligências
desenvolvidas, de tal sorte a solucionar seus problemas diários
e conquistarem o sucesso na sociedade em que vivem.
Com base nesta linha de análise,
Gardner estabelece então que a INTELIGÊNCIA é
a capacidade de resolver problemas, de qualquer forma ou espécie,
e que portanto um sujeito não possui uma única
inteligência, como algo fechado e imutável, mas
sim possui Múltiplas Inteligências que podem
e devem ser desenvolvidas, de tal forma a resolver qualquer
espécie de problema.
Desta forma as Inteligências
são encaradas como multifacetadas, como um espectro
de competências, que por estímulos poderão
se desenvolver mais ou menos.
Gardner e sua equipe estudam
algumas áreas da inteligência e definem então
sete inteligências:
Inteligência lógico-matemática
- Capacidade que um sujeito tem de lidar bem com os números,
cálculos e com a lógica de forma geral.
Inteligência lingüística
- Capacidade que um sujeito tem de se comunicar muito bem
verbalmente ou por escrito, característica esta notada
nos políticos, oradores, escritores, poetas.
Inteligência musical
- Capacidade que tem um sujeito tem de ler, escrever e interpretar
uma música, ou até mesmo de comunicar se por
ela.
Inteligência espacial
- Capacidade que um sujeito possui de visualizar, entender
no plano algo de caráter espacial. Como um arquiteto
que desenha uma planta de um prédio de 40 andares,
com seus respectivos detalhes internos e externos, ou ainda
um navegador que se localiza num mapa de navegação.
Inteligência corporal-cinestésica
- Capacidade que um sujeito possui de, com o seu corpo e o
movimento provocado por ele, resolver um problema, fato este
constatado nos atletas principalmente.
Inteligência interpessoal
- Capacidade que um sujeito tem de comunicar-se e relacionar-se
muito bem com um grupo, entendendo a individudalização
de cada membro, de tal maneira a conduzi-los se necessário
a um determinado objetivo.
Inteligência intrapessoal
- Capacidade que um sujeito tem de conhecer a si próprio,reconhecendo
desta forma suas limitações e desta forma encontrar
caminhos e mecanismos para romper suas barreiras.
Em maior destaque, propaga-se
a Inteligência Emocional, que está diretamente
relacionada às Inteligências Pessoais (inter
e intra). Tal destaque deve-se principalmente pelo marketing
executado ao seu redor, colocando esta área de inteligência
como "salvadora" de todos os problemas sócio-econômicos
da humanidade.
É óbvio sua importância,
principalmente no desenvolvimento das crianças, porém
é necessário precaver-se do "comércio"
instalado ao seu redor, que apresenta hoje à sociedade
formas de se medir o emocional de de um sujeito, como se isto
fosse a coisa mais simples do mundo.
Não podemos esquecer
que levamos quase um século para iniciarmos o processo
de "jogar pela janela" o QI, que ao mensurar o indivíduo,
já estabelecia o seu futuro, e agora estamos prestes
a comprar o QE, que irá estabelecer numericamente o
emocional de uma pessoa.
Acreditamos que um sujeito
não pode, e nem deve ser rotulado por um número,
pois enquanto aprendiz ele poderá se desenvolver mais
ou menos nas diferentes áreas, dependendo inclusive
do educador, que como mediador, agora não poderá
encarar seu aluno como possuidor ou não de Inteligência,
e sim como um indivíduo carente e sedento de estímulos,
para como um cristal, ter suas inteligências lapidadas
e multifacetadas.
(Nilbo Ribeiro Nogueira. Psicopedagogo.
Escola On Line. Informativo da Futurekids para o Professor.
Maio. 1997)
Qualidade
da educação e eficiência econômica
(Doutor Moacir Gadotti, Professor
Titular da USP, Diretor do Instituto Paulo Freire e palestrante
de renome nacional)
A qualidade da educação
é condição da eficiência economica.
Esta é uma tese cada vez mais defendida tanto por empresários
quanto por educadores. Contudo, essa tem sido também
uma tese compreendida de muitas maneiras.
No passado, alguns sustentatam
que todas as escolas deveriam formar para o trabalho através
da obrigatoriedade do ensino técnico-profissionalizante.
Estava na Lei 5.692/71. E demorou muito para se perceber o
equívoco. Só em 1984 é que uma lei complementar
tornou facultativo o ensino profissionalizante nas escolas
de segundo grau.
Outros, em contrapartida, sugeriram
a criaçãode uma formação politécnica,
numa época em que a diversidade profissional exige
especializações e atualizações
permanentes. A idéia não seria ruim se essa
politecnia não fosse entendida como formação
de generalistas.
Hoje fala-se de uma educação
para a competividade, entendendo-se que as pessoas para serem
competentes, devem ser competitivas. Outro equívoco.
As pessoas não são competentes porque são
competitivas, mas porque são capazes de responder a
problemas concretos a elas apresentados.
Uma empresa de qualidade hoje
exige de seus funcionários autonomia intelectual, capacidade
de pensar, de ser cidadão.
A qualidade do trabalhador
não se mede mais pela resposta a estímulos momentâneos
e conjunturais, mas pela sua capacidade de tomar decisões.
O trabalhador deve ser hoje polivalente? Sim. Mas não
como um generalista.
Ele deve ser polivalente no
sentido de que possui uma boa base de cultura geral que lhe
permite compreender o sentido do que está fazendo.
E isso pode ser oferecido por todas as escolas.
O sistema produtivo é
também uma vítima da má qualidade da
educação. A julgar pelos investimentos que os
empresários brasileiros estão fazendo na educação,
essa ainda não é uma tese tão difundida
quanto a primeira. O setor produtivo investe relativamente
pouco em educação básica e profissional,
em comparação com outros países.
O empresariado alemão,
por exemplo, investe hoje em educação básica
o equivalente ao que a Alemanha investe nas suas escolas públicas.
Uma única Universidade norte-americana, a Universidade
da Califórnia, Los Angeles (UCLA), recebeu, no ano
passado, da empresa privada, 300 milhões de dólares
na forma de doação e convênios.
A educação é
um dever do Estado? Sim. Mas é também responsabilidade
da sociedade, da família e, supletivamente, da empresa.
Este é um enorme campo aberto à criatividade
social para o qual são chamados hoje a colaborar tanto
intelectuais e educadores quanto empresários e políticos.
Saída antecipada do aluno
da sala de aula: contra-indicações pedagógicas
O Brasil é um país
que malversa o calendário letivo de maneira impiedosa.
Além dos feriados oficiais (federais, estaduais e municipais),
dos dias santificados, dos feriados culturalmente impostos,
dos pontos facultativos, dos finais de semana esticados, das
férias, dos sábados e domingos - as famílias,
que fazem um sacrifício incomensurável para
colocar os filhos na
Escola, ainda exercem pressão
para que eles sejam liberados antes de se terminar a jornada
diária de estudos. Um paradoxo de difícil entendimento.
A família, quando pressiona
a Escola para liberar os filhos antecipadamente, abre um leque
de riscos para as atividades escolares sistemáticas:
- primeiro, coloca em questão
a sua própria autoridade, ao incompreensivelmente impor
aos próprios filhos um caminho que diz não desejar;
- segundo, coloca em dúvida
a eficácia do processo disciplinador para a vida e
de amplo alcance no plano da cidadania, que a Escola trabalha
de maneira coerente;
- terceiro, produz uma série
de conseqüências de caráter epistemológico:
o educando, ao perder a seqüência dos conteúdos
sistematizados, provoca lacunas de superação
sensível e passa a ter dificuldades para acompanhar
as exposições do Professor; o educando, ao mesmo
tempo, compromete o nível da sua Turma; o educando,
finalmente, começa a ficar na dependência de
atividades suplementares que, por mais que o Professor se
empenhe, nunca mais terão o mesmo efeito pela desconexão
com um ambiente que se encontra mais à frente.
A família, por outro
lado, ao optar pela proposta pedagógica que esta Escola
oferece à sociedade piauiense, o fez livre e soberamente
e com pleno conhecimento de suas implicações
no cotidiano familiar.
Dessa forma, a Escola não
pode aceitar a ruptura unilateral, por parte da família,
do pacto firmado com o propósito exclusivo de promover
o educando - não só para bem prosseguir os estudos
mas, essencialmente, para transformá-lo num cidadão
consciente das suas responsabilidades perante a sociedade.
A Escola, não pode aceitar
igualmente um alunado com esta característica que foge
totalmente ao direcionamento estabelecido pela linha filosófica
que norteia as suas atividades. Esta tipologia de alunado
coloca em risco a proposta da Escola.
Todas as pessoas que contam
com a presença (em qualquer tipo de evento) de um aluno
que foi retirado de maneira inconveniente da sala de aula,
com certeza ficam constrangidas e profundamente envergonhadas
com tal presença. Esteja ela na terra ou no céu.
Dessa forma, solicitamos encarecidamente
às familias dos nossos educandos: não pressionem
a Escola para liberar os alunos antes do término das
aulas.
Não criem feriados
fictícios comprometedores do sucesso escolar deles.
Não retirem o sentido da Escola: a Escola só
tem sentido se o aluno freqüentá-la sistematicamente.
Não contribuam para
agravar as estatísticas educacionais deprimentes que
envergonham o nosso país. Jamais sugiram aos educandos
oportunidades para não virem à Escola ou para
saírem da sala de aula antecipadamente, qualquer que
seja o motivo, qualquer que seja a razão.
Vamos todos, juntos e solidariamente,
evitar que o aluno falte às aulas, a qualquer título.
Paz e Bem.
Marcílio Flávio
Rangel de Farias - Diretor
Segurança
na hora de saída do aluno após o término
das aulas diárias
O Instituto Dom Barreto, ano
a ano, mantém-se vigilante diante das questões
relacionadas com a segurança do aluno.
Com esse propósito,
busca ampliar os locais de saída/entrada de alunos
(Portarias) para agilizar o escoamento do tráfego,
busca exercer uma fiscalização mais rigorosa
do trânsito nas imediações da Escola e
busca, sobretudo, controlar a saída dos alunos após
o término diário das aulas.
O Crachá de Controle
de Saída de Alunos, ora entregue, é um instrumento
criado com o objetivo de oferecer, a cada família,
segurança na hora da saída diária do
aluno após o término das aulas.
É importante que cada
família estimule o seu uso correto diariamente. Ajude
o seu filho a compreender a importância do Crachá.
Eis algumas sugestões para essa orientação:
- Todo dia, ao sair da Escola,
o Crachá deverá estar afixado no bolso da roupa,
ou na mochila ou, ainda, ser apresentado à pessoa responsável
pela Portaria;
- O Crachá deve ser
guardado na mochila (ou na pasta), após o aluno sair
da Escola para evitar perda ou extravio. (Lembre-se: o Crachá
é um documento de segurança de interesse pessoal
da família);
- Nos casos emergenciais, em
que a criança deva ser apanhada por uma pessoa cujo
nome não conste do Crachá, a família
deve mandar um bilhete à Escola (de preferência,
mandar através do próprio aluno, para sua maior
segurança) ou telefonar avisando quem vem pegar a criança;
- No caso de perda ou extravio
do Crachá, comunicar imediatamente à Escola.
E no caso de alterações de nomes de pessoas
responsáveis para apanhar a criança na hora
da saída, solicitar por escrito.
Contando com a colaboração
de cada pai e de cada mãe em benefício da criança,
ao ensejo renovamos nossas manifestações de
apreço.
Paz e Bem.
Marcílio Flávio
Rangel de Farias - Diretor
Senhores Pais:
as tarefas escolares são um exercício de cidadania
Sabendo que o ser humano é
incluído na sociedade através do conhecimento,
através da aprendizagem e que a Escola é participante
neste processo, pergunta-se: se a criança passa grande
parte de sua vida na
Escola e nela faz uma série
de tarefas, como seria a relação Professor/Aluno/Tarefas?
Em que essas tarefas contribuiriam na formação
desse aluno como cidadão? Possibilitariam a autoria
do pensamento?
Vê-se, então,
a importante relação existente entre Tarefas/Escola/Cidadania.
Será que a Escola, como ensinante, permite um espaço
de autoria para seus alunos, proporcionando-lhes a construção
da autonomia? Essas tarefas escolares exercitam o pensamento
desses alunos, despertando e desenvolvendo a curiosidade e
a criatividade?
Cabe à família,
escola, nação... criarem oportunidades para
que a criança possa exercer o pensamento, tornando-se
assim, cidadão livre, com capacidade de reflexão,
de discernimento, atuante no mundo, explorando-o, transfor-mando-o
e vivendo neste mundo, dignamente, como ser humano que é.
Refletindo sobre estes aspectos
observa-se que num país onde o número de analfabetos
é relevante, parece não ser a preocupação
dos governantes desenvolver propostas pedagógicas que
estimulem o pensamento crítico, a autoria, a autonomia,
a politização do sujeito permitindo que esse
sujeito ocupe o lugar que lhe compete na sociedade por direito.
Saindo dessa queixa repetitiva,
buscando uma escuta psicopedagógica para uma atuação
pedagógica, pode-se pensar em como e onde fazer mudanças
e, então, vê-se a necessidade de observar alguns
fatores.
Entre eles, res-saltamos o
Desenvolvimento cognitivo (objetividade) e Desenvolvimento
afetivo (subjetividade), por entendermos que o ser humano
não é apenas biológico. Suas emoções,
seus valores, seus conhecimentos, seus pensamentos devem ser
considerados.
Acreditando na interferência
desses fatores na vida da criança, do aluno, do professor,
sabe-se que é somente através da compreensão
deles é que é possível proporcionar ao
aluno meios de se desenvolver e se tornar um sujeito ativo,
atuante no mundo onde vive, um agente transformador, logo
as ações do aluno interagindo no meio serão
rico material para a assimilação e acomodação,
proporcionando o exercício das estruturas mentais,
tornando-se, assim, capaz de lidar melhor com o seu mundo
interno e com o seu mundo externo.
Podemos dizer que o ser humano
aprende não só com base num conceito, mas também
fundado na sua vivência e lembrança, ou seja,
através da sua experiência, que um conhecimento
não é só o seu conteúdo, mas também
a significação que esse conteúdo possa
ter.
Podemos pensar estar aí
a necessidade de considerarmos a triangulação
Professor/Aluno/Tarefas.
Um vínculo saudável,
uma relação harmoniosa entre os elementos dessa
triangulação, que é de suma importância
para a aprendizagem, logo para a inclusão do ser humano
no mundo enquanto pessoa, enquanto emoção, enquanto
profissional...
Isso quer dizer que o professor
precisa, inicialmente, formar um vínculo (em dupla)
com esse aluno. Quando esse vínculo estiver estabelecido
o professor deve dirigir o olhar para o terceiro elemento
da relação (tarefas).
Pensamos que dessa forma, a
tarefa vista como algo bom, que pode ser introduzido como
positivo, possibilite ao aluno um desejo de incluí-la
em seu cotidiano de uma forma prazerosa. Ao lidar com as tarefas
de uma maneira não prazerosa, estas podem ser geradoras
de angústia.
As tarefas escolares, não
raro, são as primeiras tarefas atribuídas à
criança.
A forma como ela se relaciona
com essas tarefas, parece ser a forma da sua relação
com as tarefas pessoas como cidadão, posteriormente.
É como ela vai lidar
com o tempo em relação as essas tarefas, com
a responsabilidade no cumprimento delas, com a assiduidade,
com as angústias, com o prazer e o desprazer que essas
tarefas podem proporcionar ou não.
Todo esse movimento de fazer
das Tarefas um momento para os sonhos, um convite para o novo,
à criação, ao prazer de ser "ensinante"
e "aprendente" é um constante exercício
de cidadania para com o ser humano, logo para com a sociedade.
(Cláudia Maia. Psicopedagoga.
Jornal Psicopedagogia da Associação Brasileira
de Psicopedagogia-Seção Goiás. Goiânia,
abr./maio 1997)
Sete coisas que
os pais inteligentes calam
Observações assim,
tão comuns, podem magoar fundo seus filhos e minar
a autoconfiança
Minha mão tremia quando
olhei para a longa lista de notas 2 e 1 na caderneta de meu
filho, aluno do 9 grau. "Não lhe avisei que isso
ia acontecer?", perguntei acusadoramente.
De pé, de costas voltadas
para mim, ele se mantinha silencioso. Insisti. "Seu problema
é ser pura e simplesmente um preguiçoso."
Depois, enfurecida por seu
silêncio, continuei: "Nem sequer vale a pena tentar
falar com você. Não vai jamais chegar a ser coisa
nenhuma!".
Tinha acabado de atacar meu
filho com três tipos de observação que,
segundo os especialistas, são dos mais prejudiciais
para eles; uma afirmação onipotente do tipo
"Eu não lhe disse?", um rótulo negativo
e uma condenação cega de seu futuro. Envolvida
em minha própria zanga e frustração,
rebaixei-o e malquistei-me com ele, fazendo que uma situação
já por si ruim se tornasse ainda pior.
De vez em quando, qualquer
um diz coisas infelizes aos filhos, e eles normalmente sobrevivem
intatos. Mas um padrão persistente de observações
desse gênero pode provocar danos para toda a vida. "É
em casa que as crianças aprendem a maior parte de suas
aptidões de comunicação", alerta
Michael Beatty, professor de Comunicação da
Universidade de Estadual de Cleveland, em Ohio.
"As que são alvos
crônicos de insultos e crítica transformam-se
em adultos com tendência para recorrerem à mesma
linguagem negativa." Isso pode provocar-lhes dificuldades
no emprego e com seus cônjuges e filhos.
Psicólogos, educadores
e outros especialistas identificaram os comentários
mais destrutivos que os pais podem dirigir a seus filhos.
Se você costuma fazer esse tipo de comentário
que aparentemente não são tão prejudiciais,
pode estar minando a sensação de bem estar dele,
tanto hoje como no futuro. Eis aqui sete das coisas mais comuns
e destrutivas que os pais podem dizer aos seus filhos:
Você devia tê-lo
feito desta forma. Em seu livro The Self-Confident Child (A
Criança Auto-confiante), a Dra. Jean Yoder e William
Proctor descrevem uma criança em idade pré-escolar
que, depois de muito esforço, aprende a dar o nó
nos cordões de seus sapatos.
Orgulhosa, ela exibe seu feito
ao pai. "Ótimo", responde ele. "Mas
você devia antes ter visto se os sapatos estavam calçados
nos pés certos."
Kevin Leman, psicólogo
de Tucson, Arizona, e um dos apresentadores de "Parent
Talk" (Conversa com os Pais), um programa nacional de
rádio, avisa que nunca se deve usar esses "você
devia" ao dirigir-se a uma criança. "Não
fique sempre corrigindo-a", ensina ele.
Quando os elogios são
misturados com críticas, os mais jovens tendem a se
concentrar no lado negativo.
"Se sua filha de 5 anos
fizer a cama e você imediatamente ajeitar melhor o travesseiro,
ao mesmo tempo que lhe diz que a cama está muito bem
feita, ela pensará: 'A mamãe está me
dizendo que fiz bem a cama, mas eu acho que podia ter feito
melhor.' "
Um pai de cinco filhos, em
Lowell, Massachussetts, recorda um incidente passado quando
estava treinando o time de beisebol de seu filho de 12 anos.
"Perto do fim do jogo, estando o escore muito aproximado,
tocou a meu filho ser o rebatedor", conta o pai.
"Ele falhou. Não
parei de falar enquanto ele voltava a banco. Mostrei-lhe como
é que devia ter segurado o bastão. Disse também:
'Uma criança de 9 anos teria conseguido acertar aquela
bola.' "O menino se sentiu arrasado.
Magoado pela constante depreciação
do pai, ele passou a andar taciturno e a se dar pouco com
os outros. Por fim, o homem percebeu que a culpa era das palavras
duras que lhe dirigia. "Aprendi que, em vez de engrossar,
faz mais sentido conversar com o filho sobre o que se passou
de errado e como agir para ele não voltar a repetir
o erro."
Até as críticas
construtivas podem magoar se enunciadas no momento errado.
Por exemplo, logo a seguir a uma criança ter estragado
algo em que ela trabalhava.
É nesse momento que
ela está mais vulnerável. Como nem você
nem ela podem alterar um resultado desanimador, por vezes
é melhor evitar discutir logo o assunto.
"Mais tarde, empenhe-se
em discutir os sentimentos dela e em encontrarem juntos formas
de melhorar seu desempenho", sugere Anita Vangelisti,
assistente de Comunicação Oral na Universidade
do Texas, em Austin.
Isso aí na sua cabeça
é cabelo ou esfregão de assoalho? A zombaria
dos pais é a mais dolorosa de todas, avisa a Dra. Carole
Lieberman, psiquiatra de Beverly Hills, Califórnia.
"As crianças olham para os pais como para um espelho
que lhes diz quem são neste mundo", explica ela.
A troça cria insegurança, porque a criança
nunca sabe se os pais estão falando a sério
ou não.
E é freqüente
essa insegurança persistir depois. "Eu era uma
criança gordinha" recorda Vangelisti, "e
mamãe passava a vida me dizendo que eu tinha a constituição
de uma sólida casinha de tijolo.
Eu sabia que ela não
estava tentando me magoar. Estava era dizendo: 'Esta é
a nossa filhinha robusta e saudável'. Apesar disso,
aquilo me feria. Só adulta foi que perdi a sensibilidade
à troça."
Num estudo clínico levado
a efeito no Centro Yale de Doenças Alimentares e do
Peso, em New Haven, Connecticut, com 40 mulheres com excesso
de peso, os pesquisadores examinaram as relações
entre o amor-próprio e o fato de ser objeto de gozação
por causa de excesso de peso ou do volume que se tem.
As analisandas que reportaram
uma freqüência maior da troça em motivo
de seu peso quando estavam em idade de crescimento tinham
uma idéia mais negativa de sua aparência quando
adultas.
Você não está
falando a sério! Mãe e educadora, Adele Faber,
co-autora de How To Talk So Kids Can Learn at Home and at
School (Como Falar com Crianças de Modo que Possam
Aprender em Casa e na Escola), recorda o dia em que sua filha
anunciou: "Odeio a vovó".
Instintivamente, Adele começou
a defendê-la. "Isso é uma coisa terrível
de dizer. Você não está falando a sério!"
Depois, deu-se conta de que
tinha afirmado à sua filha que seus sentimentos não
eram tomados em consideração. Quando se nega
constantemente seus sentimentos, nossos filhos depreendem
que o melhor é não exprimi-los. Pensam que devem
guardar a zanga e outras emoções dentro de si.
Uma higienista dental de San
Antonio ainda hoje se sente aterrorizada por um método
que adotava freqüentemente quando estava educando seus
três filhos. "Eu tinha uma solução
para cada problema", recorda ela.
"Quando minha filha
não entrou para o grupo de animadoras da torcida, eu
lhe disse: 'Podia ser pior.
A outra menina provavelmente
precisava muito mais disso que você.'
Quando uma garota desmarcou
um encontro com um de meus filhos, eu disse para ele: 'Provavelmente,
ela teve de sair com a família.' "
Pensando sobre o assunto, ela
percebe que não deveria ter tentado minimizar os desapontamentos
dos filhos, dando a entender que seus sentimentos não
eram importantes.
"Quando seu filho
exprimir um desapontamento intenso ou uma emoção
negativa", aconselha Adele, "não o contradiga.
Em vez disso, ouça o que ele tem para contar e acate
com respeito seu sentimento."
"Depois da aflição
de uma criança ser reconhecida e aceita, é-lhe
mais fácil lidar com seus sentimentos, e talvez até
encontrar uma solução para eles", esclarece
Adele. A higienista poderia ter respondido à filha:
"Custa muito quando se é rejeitado numa coisa
que se queria realmente fazer." E ao filho poderia ter
dito: "Pode ser mesmo terrível quando alguém
desmarca um encontro conosco."
É o desenho mais bonito
que já vi! Marilyn Gootman, professora de Educação
da Universidade de Geórgia, em Athens, especializada
em maternal e autora do livro The Loving Parents Guide to
Discipline (O Guia de Disciplina dos Pais Carinhosos), relembra
um dos comentários favoritos de seu pai quando ela
estava crescendo: "Você é tão inteligente,
tão esperta".
Sua efusividade era tanta nos
elogios que Marilyn acabou por deixar de acreditar nele.
As crianças que são
alvo de um fluxo constante de elogios paternais são
capazes de sentir um enorme abandono quando entram num mundo
mais vasto. "Quando eu era uma jovem adulta, tive dificuldades
em aceitar elogios feitos em minha presença",
conta Marilyn.
"Por um lado, estava sempre
à espera de aplausos, e ficava preocupada quando não
os recebia. Por outro, mantinha uma atitude cética
quando era elogiada, por ter-me habituado a não confiar
em todo o incenso que havia recebido em criança."
Embora os jovens necessitem
de reações positivas quando fazem coisas bem
feitas, os pais devem temperar os elogios com honestidade.
Quando uma menina ouve sempre
em casa que ela é "a mais linda princesinha de
todo o mundo", mas os meninos da escola a gozam por seu
nariz, ela identifica imediatamente a inconsistência
da coisa. As crianças que são constantemente
elogiadas "não raro concluem que seus pais estão
fora da realidade e que não as compreendem", explica
Michael Beatty.
Ou, pior ainda, podem se convencer
que os pais realmente não esperam grande coisa delas.
Evite escorregadelas do gênero:
"Finalmente você executou esse trecho musical bem"
ou "Nunca pensei que você fosse capaz de aprender
este jogo". A primeira afirmação transmite
a mensagem de que a criança foi lenta na aprendizagem.
A segunda comunica-lhe que você desconfia de suas capacidades.
Seja como for, perdeu uma oportunidade de realçar a
capacidade da criança.
Você é um autêntico
selvagem. Janet Christie, assistente social de Boca Raton,
na Flórida, recorda-se de uma pessoa conhecida que
se referia constantemente a seu filho de 2 anos, um menino
cheio de energia, como "um verdadeiro capeta".
"Ele se comportava como
qualquer outra criança normal de 2 anos, correndo de
um lado para o outro e mexendo em tudo", recorda Janet.
Quando o menino atingiu a idade escolar, seu comportamento
não evoluiu. Continuou a adotar sempre o mesmo proceder,
tentando viver de acordo com o rótulo que a mãe
lhe tinha posto.
"A maior parte dos filhos
acredita no que os pais lhe dizem", alerta Michael Beatty.
"Se um pai chama seu filho de fracassado, ele se vê
como um fracassado. Se lhe acontecem coisas más, ele
afirmará para si próprio que as merece por ser
um fracassado. Quando as coisas boas acontecem", acrescenta,
"pensa que teve sorte".
Pam Ancowitz, diretora da Parents
Place, Inc., em White Plains, Nova York, caiu nessa armadilha
dos rótulos. Lembra-se bem de ter posto um em seu filho
do meio quando ele tinha 4 anos. "Abri a geladeira e
vi que ele havia dado uma dentada em cada um de seis sorvetes",
conta ela. "Perguntei-lhe se o tinha feito, e ele, sentindo-se
subitamente ameaçado, disse que não. Chamei-o
de mentiroso."
Ela sabe agora que, ao enfrentar
o filho daquela maneira, o tinha pressionado a dizer uma mentira
sem importância, e que depois ainda havia coroado o
incidente insultando-o. Preferia mil vezes ter-lhe dito: "Você
mordeu os sorvetes. Não quero que volte a fazer isso,
senão ninguém vai poder comê-los. Da próxima
vez, escolha um só."
Para que expressem sua zanga
sem magoarem, Janet Christie sugere aos pais que critiquem
o comportamento da criança em vez de criticarem a própria
criança. Não diga: "Você é
um desmazelado". Tente antes: "Seu quarto está
uma bagunça. Você tem de apanhar a roupa suja
do chão."
Evite igualmente rótulos
que tenham que ver como sexo. Por exemplo chamar de "bebê
chorão" ou de "mariquinhas" um garoto
reforça estereótipos sexuais prejudiciais. Ele
aprende que não é apropriado exprimir sua zanga
e agressividade e que deve suprimir sentimentos de tristeza
ou de medo. "Um padrão constante de aplicação
de estereótipos sexuais pode tornar difícil
aos meninos virem a lidar com sua intimidade mais tarde",
avisa ela.
Cuidado, você está
pedindo um castigo. Fran Litman, diretora do Centro de Estudos
sobre Pais, do Wheelock College, de Boston, recorda um pai
de dois meninos, um de 3 e outro de 5 anos, nos workshops
por ela dirigidos sobre aquele tema.
"Ele admitiu afirmar constantemente
coisas como: 'Se você não puser isso imediatamente
no lugar, apanha' ", conta ela. "Mas sabia que nunca
cumpriria a ameaça."
Os filhos provavelmente também
o sabiam. Tal como os falsos elogios, as falsas ameaças
também podem minar a credibilidade dos pais.
Tente substituir a ameaça
por uma p
romessa. Em vez de ameaçar
deixar seu filho para trás quando ele se perde em admiração
pelas prateleiras do supermercado, diga-lhe, de preferência:
"Vamos andar rápido, para ainda termos tempo de
brincar em casa."
A idéia é criar
uma motivação e encorajar o comportamento desejado.
Dar bastante ênfase aos
aspectos positivos, oferecendo à criança uma
razão lógica para fazer qualquer coisa, é
um ótimo esquema que pode funcionar com as crianças
de praticamente todas as idades.
Agora não. Laura Stafford,
professora-associada de Comunicação da Universidade
Estadual de Ohio, lembra-se de que, sempre que ia buscar seus
três filhos no jardim da infância, "via pais
enfiando os seus apressadamente nos carros para conseguirem
fugir ao trânsito e chegar mais cedo em casa."
Como era normal, cada criança
saudava a mãe com sua peça de arte orgulhosamente
na mão. "Mamãe", diriam por exemplo,
"olha o que eu fiz na escola hoje". E a resposta
da mãe era: "Agora não. Eu vejo quando
chegarmos em casa". Isso, para a criança eqüivale
a: "Você e seu trabalho não merecem que
eu perca tempo."
É óbvio que na
vida dura dos pais há momentos em que qualquer um tem
que dizer ao filho para esperar até mais tarde. O padrão
persistente de adiamentos é que pode ter impacto duradouro.
Ao tentarmos decidir quais
as observações que magoam nossos filhos, será
proveitoso não nos esquecermos do conselho de Shirley
Gould, psicoterapeuta aposentada e autora do livro How to
Raise an Independent Child (Como Criar uma Criança
Independente): "As crianças respondem melhor aos
atos e palavras que reconhecem como sendo de encorajamento,
reagindo pior aos castigos e comentários degradantes,
que os desencorajam.
O encorajamento torna-os mais
capazes. O desencorajamento, menos."
(Texto Divulgado in Seleções
do Reader’s Digest, junho de 1996)
Seu filho tem de
ser melhor que você
Por muitas razões as
competências que há uma geração
eram raras e admiradas estão se tornando requisitos
mínimos para um emprego
Se você é pai
ou mãe, deve estar preocupado com o futuro dos seus
filhos, especialmente se eles são adolescentes e estão
sofrendo a angústia de decidir o que querem ser como
pessoas e como profissionais.
Seu filho está preparado
para viver no século XXI? Está preparado para
trabalhar nesse século? Pois bem, as evidências
indicam que seu filho vai ter que ser muito melhor do que
você foi para ter um grau de sucesso semelhante ao que
você teve.
A aceleração
da inovação tecnológica, a globalização
dos mercados e a redução do papel do estado
na sociedade formam um conjunto de fenômenos que têm
por conseqüência um aumento geral da concorrência
em todos os mercados. Para as empresas, isso implica a demanda
por mão-de-obra cada vez mais qualificada para a inovação
contínua e para o crescimento da produtividade e da
qualidade.
As empresas estarão
buscando esses recursos humanos onde puderem encontrá-los,
inclusive no exterior.
O recrutamento internacional
tenderá a crescer, mesmo com as pressões nacionalistas
em contrário.
Qual será o perfil das
pessoas que as empresas estarão buscando? Bem, em primeiro
lugar, essas pessoas deverão ter competências
concretas. O mero diploma não será mais suficiente.
Mesmo o diploma de escolas
reputadas só será valorizado na medida em que
essas escolas continuem a preparar pessoas de forma adequada.
Competências que há uma geração
eram raras e admiradas, como dominar o inglês e o espanhol
e ter agilidade no uso de computadores, estão se tornando
requisitos mínimos para um emprego diferenciado.
Os tipos de trabalho bem remunerados
do futuro exigirão capacidade de adaptação
a novos ambientes e novas situações, mobilidade
entre países e culturas e disposição
para o aprendizado contínuo.
Exigirão também
a capacidade de comunicação oral e escrita,
inclusive as capacidades de ouvir, de preparar relatórios
e de fazer apresentações. As habilidades interpessoais,
a capacidade de trabalhar em equipe e a capacidade de assumir
papéis de liderança e de tomar decisões
também serão altamente valorizadas.
Para poder trabalhar com eficácia
em ambientes de redes eletrônicas, qualquer profissional
deverá ter a capacidade de participar de esforços
cooperativos, incluindo participantes que estarão a
centenas ou milhares de quilômetros de distância.
A iniciativa, a criatividade
e a capacidade empreendedora serão cada vez mais características
distintivas dos profissionais de sucesso. A cultura geral
continuará a ser um ativo pessoal importante. Mas também
a atitude profissional, a postura ética e a responsabilidade
social terão um reconhecimento crescente.
Todas estas são qualidades
que serão valorizadas nas melhores ocupações.
Evidentemente, o profissional deverá também
dominar aqueles conhecimentos e técnicas que são
específicos do seu trabalho. Como sempre, o médico
terá que conhecer medicina, o advogado, as leis e os
processos.
O administrador terá
que dominar conhecimentos de administração geral,
mas também de psicologia, sociologia, finanças,
marketing, operações e economia, entre outros.
Antes de mais nada, ele deve
ser um generalista no âmbito desses conhecimentos e
ter confiança para tratar com problemas e tomar decisões
em um mundo diversificado, complexo e interdependente.
Entre os administradores incluem-se
profissionais de diferentes áreas, como engenheiros,
médicos, advogados, que em decorrência de sua
participação em organizações freqüentemente
passam a assumir funções de administração.
A preocupação
com a eficácia e com os resultados práticos
pode sugerir uma ênfase nos conhecimentos derivados
da experiência, em detrimento da teoria. Aqui é
necessário buscar um equilíbrio e convém
lembrar o valor da teoria para o conhecimento humano.
Como dizia Kurt Lewin, não
há nada mais prático do que uma boa teoria.
E poderia se acrescentar: aqueles que se recusam a utilizar
qualquer teoria em geral acabam, sem saber, usando uma teoria
ruim.
O valor das teorias para ajudar
a unificar e dar sentido à crescente complexidade do
mundo contemporâneo é indiscutível. Evidentemente,
o jovem deve ser exposto às boas teorias.
Todas estas demandas sobre
os futuros administradores impõem uma enorme pauta
de inovações para as escolas de administração.
Os processos de ensino deverão sofrer profundas transformações.
O aprendizado será
cada vez mais ativo, preparando os alunos para assumir mais
responsabilidade, ter mais iniciativa, conseguir administrar
a si próprios, redefinir constantemente a forma de
criar valor e aperfeiçoar suas habilidades e seu conhecimento.
A filosofia do action learning
transformará os alunos de "pacientes" em
"aprendizes".
O aprendizado ativo combina
com uma concepção abrangente da educação,
que passa a ser vista não apenas como transferência
de conhecimento (como se o conhecimento fosse uma mercadoria)
mas também como a construção coletiva
do conhecimento, na qual se reconhece que o aluno tem um papel
ativo e que novo conhecimento pode surgir na interação
aluno-professor-objeto de estudo.
A necessidade do aprendizado
contínuo, durante toda a vida, estimulará o
crescimento do mercado para a educação continuada,
que se tornará imenso e muito competitivo. Esse mercado
continuará a crescer e a educação continuada
se tornará o modo predominante de aprendizado, superando
a educação profissional de nível de graduação
universitária. Isso implicará novas concepções
destas duas modalidades de educação.
À medida que o educando
passe a ter maior responsabilidade e flexibilidade na gestão
do seu aprendizado e que boa parte deste ocorrerá nas
empresas e em outros âmbitos de trabalho, a escola deverá
rever seu papel, passando a ser menos uma instituição
encerrada em limites bem estabelecidos e cada vez mais uma
instituição aberta, ágil e integrada
com a sociedade, com os cidadãos e com as empresas.
Mas não serão
apenas as escolas que deverão assumir a responsabilidade
pela formação dos futuros profissionais.
Os pais também enfrentarão
o desafio crescente de educar seus filhos nos valores mais
fundamentais do ser humano, através do diálogo
e do exemplo. Acredito que as próximas gerações
só estarão adequadamente preparadas se o esforço
de renovação na escola estiver fundamentado
no empenho e na dedicação dos pais.
Os dois esforços são
complementares e indispensáveis.
Alain Florent Stempfer. Diretor
da Escola de Administração de Empresas da Fundação
Getúlio Vargas (SP)
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