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O IDB estimula, valoriza - e pratica - o constante estreitamento das relações entre pais e mestres. Para isso, estruturou um conjunto de mecanismos, a começar pelo sistema de direção aberta.

 

A Diretoria, a Secretaria, a Recepção, as Coordenações, as Supervisões, o Corpo Docente e os diversos Setores da Escola são orientados para bem servir.

 

Nenhum titular de obrigações no IDB dispõe de Agenda para marcar contatos, ao contrário, trabalha em ambiente aberto (inclusive a metade de cima das portas são de vidro transparente), recebe a todos sem qualquer entrave burocrático e a qualquer tempo.

 

Não há necessidade de intermediários para facilitar contatos. Os pais podem e devem tratar dos assuntos diretamente com os responsáveis, quem quer que seja ele.

 

De preferência, pede-se apenas que assuntos sejam trazidos nos respectivos turnos de estudos dos alunos, por uma razão de ordem prática: facilita o fluxo de informações e o correspondente encaminhamento das soluções.

 

Busca-se e vê-se, com muita alegria, a presença dos pais na Escola quer seja solicitando informações, discutindo soluções, deixando os filhos (para o início das aulas) ou aguardando o seu término (para levá-los de volta) ou, ainda, participando do conjunto de atividades promovidas ao longo do ano letivo.

 

Apenas um pedido é feito aos pais no período em que aguardam os filhos antes do término das aulas: evitar aglomeração nas proximidades ou nas portas das salas de aula e, sim, aguardar a saída dos filhos nas diversas áreas cobertas preparadas com muito carinho para essa finalidade.

 

Isso para não tirar a concentração dos alunos e, assim, o professor possa bem finalizar as atividades em curso.

 

 

A Escola organizou e mantém instalações sanitárias especiais para pais e visitantes.

 

 

 

Escola de Pais

 

Proposta de aprimoramento das relações entre a Família e a Escola, envolvendo múltiplas atividades interativas (reflexões, plantões escolares, distribuição de textos, reuniões específicas inclusive com professores ou profissionais especialmente convidados pela Escola, programação de eventos, debates).

 

A Família é estimulada a incluir a Escola no seu roteiro de vida, buscando-se a instalação de um pacto de lealdade entre as partes norteado pelo respeito e por uma postura eminentemente ética.

 

A "Escola de Pais" quer refletir sobre a essencialidade do comprometimento do pai, do comprometimento da mãe, do comprometimento de ambos, em conjunto, com o processo educacional dos seus filhos.

 

A Educação é dimensão mais abrangente do que o trabalho da Escola, portanto conclama as partes a um entendimento capaz de promover o alcance de objetivos comuns.

 

 

Associação de Pais e Mestres

 

Com o objetivo de estreitar as relações entre pais e mestres, a Escola conta com uma Associação de Pais e Mestres (APM).

 

 

Reuniões/ contatos diretos com os pais

 

A Escola, mesmo consciente do alto teor de improdutividade das reuniões massivas, busca promover reuniões gerais ou específicas com os pais.

 

No entanto, dá preferência para os contatos diretos com cada interessado, solicitando por todos os meios (carta, telegrama, telefonema, circulares e comunicados) a sua presença na Escola para tratar de questões relacionadas à vida escolar dos filhos.

 

 

 

Plantão escolar

 

A cada bimestre, o IDB coloca à disposição dos pais o Plantão Escolar. A iniciativa visa a promover o encontro entre os pais e cada professor de seus filhos para troca de informações sobre o aluno, o professor, a Escola e a Família.

 

O encontro se dá no turno de aula do aluno que, no dia, pode vir a ser dispensado para que haja maior proximidade entre os interlocutores.

 

 

 

Circular externa

 

Ao longo do ano letivo, além dos já mencionados contatos e do acompanhamento dos resultados das avaliações (mediante instrumento denominado Envelope de Avaliações), os pais são informados sobre o dia a dia escolar por meio de Circulares e Comunicados.

 

As Circulares são de caráter genérico, envolvem os alunos como um todo, ou por série, ou por turma. A média de Circulares alcança o patamar de 1,5 por dia letivo.

 

É obrigatório o recebimento das Circulares e a devolução do canhoto no prazo estipulado ou no primeiro dia útil após o seu recebimento, caso não haja referência de prazo.

 

IDB confere o autógrafo do responsável.

 

 

 

Comunicados

 

Os Comunicados (emitidos por computador), de caráter restrito, envolvem os alunos individualmente. São utilizados para tratar de questões relativas à Folha de Ocorrência, ou seja, medidas disciplinares.

 

O IDB estimula uma relação de mútua confiança entre todos os membros da comunidade escolar, sobretudo entre pais e filhos. O aluno deve ser continuamente encorajado a tratar da sua vida escolar com os pais e não a subtrair-lhes a entrega dos Comunicados e com isso provocar desdobramentos constrangedores.

 

É obrigatório o recebimento dos Comunicados e a sua devolução no prazo estipulado ou no primeiro dia útil posterior ao seu recebimento, caso não haja referência a prazo.O IDB confere o autógrafo do responsável.

 

 

 

Devolução de documentos (por parte dos pais)

 

A devolução de documentos em geral nos prazos estipulados é um procedimento indispensável, uma vez que calendário de atividades da Escola ser rigorosamente planejado e, portanto, não dispõe de folga para tolerar atrasos, por comprometer os fluxos de processamento de informações, retardando relatórios e paralisando o processo decisório.

 

O cumprimento de prazos é um elemento valorizado pela Escola por sua natureza formadora. O IDB nunca estipula prazos que não possam ser cumpridos.

 

 

 

Seu filho está se preparando para o vestibular?

 

Como ajudar seus filhos

 

Quem tem filhos ou irmão fazendo vestibular já sabe. A casa inteira acaba se envolvendo na prova. Pai e mãe entram em tamanha aflição que até parece que eles é que são os candidatos a uma vaga na faculdade.

 

Calma! O nervosismo dos mais velhos atrapalha. Aumenta a tensão, o medo, a expectativa - como se a cobrança que o vestibulando faz dele mesmo já não fosse suficiente para tornar sua vida um inferno. Abaixo, alguns conselhos que ajudarão os pais a não aumentar a ansiedade dos filhos:

 

Nada de marcação. Os pais tendem a liberar sua ansiedade por meio de censura ou cobrança. De nada adianta ficar martelando que o rapaz ou a moça deveria estudar mais.

 

O interesse pelos estudos é uma coisa complexa que se desenvolve com base em muitos fatores, entre os quais o próprio exemplo dos pais, o ambiente da escola, as pressões exercidas pelo grupo social, o temperamento e a ambição de cada um. É um equívoco imaginar que alguém possa transformar e em um aluno esforçado só porque papai e mamãe, tomados por súbita ansiedade, começam a agir como sargento.

 

Evite perguntar a todo momento se o jovem está comendo bem, se está dormindo o bastante. Pode até parecer demonstração de afeto, mas só enerva.

 

Não se meta a professor. Não há nada mais irritante para um candidato do que ficar sendo submetido a testes fora de hora. Os pais devem evitar fazer a checagem do conhecimento dos filhos. Também é contraproducente tentar ensinar, na última hora, aquilo que o filho não conseguiu ou não quis aprender em meses de preparação para o vestibular.

 

É mais útil tornar o ambiente doméstico um lugar acolhedor. O momento é de proteção.

 

Mude de assunto. Se todos na faculdade estão envolvidos com os exames, é natural que esse seja o assunto dominante em casa. Nem poderia ser diferente. Mas tenha a sensibilidade de falar sobre outros assuntos de interesse de seu filho ou filha.

 

Leve-o para passear. Uma boa idéia é surpreender o filho candidato com um convite para jantar fora ou ir ao cinema. É uma forma de mostrar que ele tem aliados dentro de casa.

 

Não se faça de vítima. Muitos pais não resistem a dão um jeito de lembrar que se sacrificaram financeiramente para dar boa escola ao filho e, agora, esperam a retribuição de seu esforço com a vitória no vestibular. Alguns adolescentes entram em pânico.

 

Os pais colocam os filhos na escola porque sabem que esse é o seu dever. Culturalmente, não está estabelecido que os jovens devem pagar o investimento em algum momento de sua vida. A exigência, nesse sentido, é um fardo a mais para o jovem.

 

Não chantageie seu filho. O velho discurso de "se você entrar na faculdade ganha um carro ou uma viagem para o exterior" é dos mais catastróficos. O que deveria servir de incentivo se transforma em fonte inesgotável de nervosismo.

 

Respeite os limites do seu filho. Quando o candidato é reprovado, isso já é punição suficiente. Não aumente o martírio do seu filho com bobagens tipo "Eu não falei?" Nenhuma reação negativa de sua parte mudará o passado, mas pode ser determinante para o futuro. Tente analisar com o ele o que houve de errado. (Karina Pastore. Veja, 12/11/1997).

 

 

 

Um amor inteligente

 

Peço em minha oração que vossa caridade se enriqueça cada vez mais em conhecimento e em sensibilidade, a fim de poderdes discernir o que mais lhe convém (Fl 1, 9-10)

 

Uma das primeiras coisas que Paulo pede ao Senhor, dirigindo-se aos filipenses, é um progressivo crescimento no amor. Trata-se evidentemente do amor que eles receberam de Deus no Batismo e que os leva a colocar, em prática, o ensinamento de Cristo, principalmente, o amor ao próximo.

 

O apóstolo pede para os filipenses um amor cada vez mais rico de conhecimento e de luz, de modo que saibam perceber claramente, em cada circunstância, aquilo que é melhor e que mais agrada ao Senhor.

 

O "conhecimento" do qual fala o apóstolo parece referir-se aos princípios fundamentais do comportamento cristão, ou seja, àquela vontade de Deus que se exprime nos seus mandamentos e que Jesus continuamente nos explica e nos ensina a atuar através da sua Igreja.

 

Na vida de todos os dias o cristão tem que enfrentar muitos problemas. São problemas pessoais, da vida de casal e de família, da vida profissional e de relacionamento com os outros, são decisões sobre os uso dos bens etc. Às vezes são problemas complexos e delicados.

 

Compreende-se, então, por que para o apóstolo Paulo o amor do cristão deve ser constantemente iluminado e compenetrado pela palavra de Deus.

Por outro lado, falando de "discernimento", o apóstolo parece referir-se aos problemas e às situações concretas, consideradas nos seus vários aspectos e implicações, dando uma atenção toda especial às pessoas envolvidas.

 

O discernimento, então, deve ser aquele amor cheio de inteligência prática - isto é, de sabedoria, de prudência, de delicadeza, de compreensão, de tato etc. - capaz de entender, à luz da Palavra de Deus, o que é melhor, o que é mais conveniente numa determinada situação.

 

Como viveremos então a Palavra da Vida deste mês? Esforçando-nos para que também o nosso amor pelo próximo seja cada vez mais iluminado, a fim de sabermos escolher aquilo que mais agrada ao Senhor.

 

Trata-se, sem dúvida, de uma graça especial de Deus, que devemos pedir em primeiro lugar através da oração, como o próprio Paulo nos dá a entender.

 

Mas é também uma questão de esforço pessoal.

Por um lado, quando tivermos que tomar uma decisão ou assumir determinada postura, se tratará de conhecer melhor a Palavra de Deus e o ensinamento da Igreja a esse respeito.

 

É o próprio amor por Cristo que nos leva a isso. Porque uma característica do amor é querer aprofundar os ensinamentos de Jesus para poder corresponder sempre melhor a tudo o que Deus quer de nós.

 

Por outro lado, ao enfrentar concretamente uma situação, o nosso amor para com o próximo deverá se revestir de uma ou de outra virtude: paciência, humildade, disponibilidade, desapego de nós mesmos etc.

 

Procuremos, então, descobrir e exercitar esta virtude particular.

Conquistaremos assim aquele amor cada vez mais iluminado e rico de discernimento, descrito por Paulo, e aprenderemos a amar o próximo segundo o coração de Deus.(Adaptado do texto de Chiara Lubich. Palavra da Vida. Dezembro de 1994)

 

 

 

A arte de contar histórias

 

Ouvindo histórias, a criança reforça seus laços afetivos com os pais, os avós, os professores, desenvolve sua própria fantasia e aprende a lidar com a realidade de forma divertida.

 

Era uma vez uma mãe (ou um pai) que, pouco antes de o filho dormir, reservava alguns minutos para lhe contar uma história. Entretida e dedicada, gesticulava e usava vozes diferentes para interpretar os personagens. A criança acompanhava, encantada, imaginando os castelos, as bruxas, os magos e os heróis da aventura.

 

O final era igual ao dos contos de fadas: mãe/pai e filho dormiam felizes para sempre. Ela/ele, por sentir que estava contribuindo para a educação do menino; ele, por tido a chance de sonhar acordado.

 

O hábito de contar histórias, uma das mais antigas tradições praticadas em família ou nas pequenas comunidades, ainda é essencial e insubstituível para o desenvolvimento emocional e a aquisição de conhecimento da criança acerca da sua própria cultura.

 

Por meio de uma simples fábula infantil, relatada com emoção e carinho, os pequenos ouvintes assimilam conceitos éticos, políticos, filosóficos e religiosos, aprendem a lidar com a realidade de forma divertida e desenvolvem a sua própria fantasia.

 

"Durante uma sessão de contos, mãe [pai] e filho, avó [avô]e neto, professor[a] e aluno reforçam imensamente seus laços afetivos", explica Regina Machado, professora do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes-ECA da Universidade de São Paulo-USP. "Nesse momento, a criança sente os pais como parte de sua realidade e percebem que os adultos são capazes de sentir e de pensar como ela".

 

Dedicar alguns minutos do dia atribulado a essa prática, duas, três, quatro vezes por semana, deve se tornar uma rotina na vida dos pais. Não importa qual seja a história que se conte - acontecimentos do dia-a-dia e lembranças familiares, tradições dos ascendentes, histórias bíblicas, fábulas, contos de fadas tradicionais. Esses relatos sempre cumprem o seu papel: dar exemplos para que a criança comece a entender o que parece inexplicável.

 

"A história é a forma comum, simples e direta, adotada por todos os povos, em diversas etapas da civilização, para mostrar, por meio de seus mitos e heróis, como encaram o amor, a vida, a morte, e repassar sua visão da honestidade, das boas atitudes do ser humano", lembra Raquel Barcha, atriz e autora de livros infantis.

 

Durante quatro anos, ela interpretou Sherazade - famosa contadora de histórias e narradora de "As mil e uma noites", uma coletânea de contos árabes - no programa X-Tudo, da TV Cultura, de São Paulo. Hoje atua na peça infantil Sherazade em um teatro paulistano e está prestes a estrear um programa na Rede Bandeirantes, em que volta a contar histórias.

 

Quando escuta um conto, a criança tende a se introduzir no enredo, como ela própria ou pela identificação com um dos personagens. Incorpora o herói, a princesa, a fada, a bruxa. Usando a imaginação, torna-se a agente da ação e passa a "interpretar" mentalmente o que ouve.

 

Cada história promove um aprendizado diferente e induz o ouvinte a encarar seus erros, a lidar com a traição, o amor, e pode ajudá-lo a transpor os momentos difíceis.

 

O americano Nan Gregory, contador de histórias profissional e autor de livros infantis premiados, lembra-se de um menino com dificuldades para se adaptar à nova Escola porque sentia saudades dos antigos colegas.

 

Sua mãe contou-lhe a história de um balão preto, desprezado pelos coloridos, encontrado, certo dia, por uma criança solitária que se tornou sua amiga. O menino pedia à mãe, que repetisse a história várias vezes, até conseguir fazer novas amizade.

 

Ler ou contar?

Não há uma forma correta de contar histórias, nem um local adequado para isso, dizem os contadores profissionais, que promovem sessões de leitura ou relatos nas escolas e bibliotecas.

 

Ler ou interpretar, não importa. O que vale é a dedicação, a boa vontade e o interesse demonstrado pelo adulto - mãe, pai, avô, avó ou empregada. É preciso adotar uma postura relaxada, entrar no mundo infantil. Na prática, significa ajoelhar-se, sentar-se no chão com os pequenos. Falar a mesma língua deles, tentar superar as barreiras e os preconceitos.

 

"O único requisito é curtir, se enturmar, ser espontâneo. Todo mundo tem a capacidade de imaginar, é só uma questão de treino", garante a "Sherazade" Raquel, que usa sempre uma história para ilustrar o que diz.

Uma sessão de contos não precisa se tornar um espetáculo teatral. Se você não se sente à vontade interpretando uma história, simplesmente leia um livro. Mas procure evitar a leitura mecânica - a criança perceberá a sua "ausência".

 

"Vale muito estabelecer nesse momento uma relação de alta qualidade com o ouvinte", diz Regina Machado. "Pois é essa interação que torna insubstituível o relato oral". Em sua tese de mestrado sobre essa tradição, Regina comprova que a história contada é um instrumento importante também no aprendizado da estrutura narrativa.

 

"É uma experiência viva do significado do adjetivo, das conjugações verbais, entre muitas outras."

 

Uma das mais conceituadas autoras infantis brasileiras, Tatiana Belinky não conta histórias sem um livro na mão, mesmo que não o leia. "O contato direto com as palavras é imprescindível".

 

A criança percebe como o livro é mágico e interessante, e se surpreende com o fato de um pequeno volume poder comportar um mundo de coisas variadas, de dinossauros e príncipes, de castelos a naves especiais." Tatiana considera esse o método mais eficaz de ajudá-la a ver a leitura como uma atividade prazerosa.

 

Usar o livro como apoio, fazendo a "leitura com caras e bocas", como define Tatiana, evita também que o contador amador gagueje, utilize repetidamente os vícios de linguagem - termos como "então" e "né?" - e, assim, perca a atenção da criança.

 

"Acompanhando o ritmo da narrativa, a história parece mais bonita e o narrador não corre o risco de esquecer algumas palavras-chave do texto - os complicados nomes dos castelos, locais e personagens, que têm a missão de evocar a fantasia infantil", explica Regina.

 

A força da interpretação

 

Para quem prefere contar a história sem lê-la, os contadores aconselham utilizar o mínimo de recursos extras, além da própria voz e dos gestos. "A criança deve imaginar e, se encontrar tudo pronto e mastigado, parte da graça tende a se perder", diz Regina.

 

Ela própria usa uma roupa de cor clara, com poucos detalhes, e objetos abstratos. O lenço vira o boneco que sai do baú e uma caneta se torna um avião. Na peça Sherazade, Raquel Barcha conta dez histórias recorrendo apenas à iluminação e ao teatro de sombras para ativar a fantasia da platéia.

 

O que importa, resumem os especialistas, é o envolvimento entre contador e ouvinte. "A criança está acostumada a ouvir a voz da mãe no mesmo tom, quase sempre dando ordens. Quando ela conta uma história com voz diferente, imitando bichos, heróis, anti-heróis, a relação afetiva se enriquece e se identifica", diz Regina.

 

(Texto adaptado. Thais de Oliveira. Revista Cláudia especial de Natal. São Paulo, dez. 1996. p. 264-268)

 

Autoridade dos Pais

 

(Atitudes firmes são fundamentais na educação dos filhos)

Não restam dúvidas de que hoje há insegurança sobre a educação dos filhos. Existem teses, teorias, experiências mais diversas e que apontam direções, muitas vezes opostas, que trazem um dilema para os pais: como educar? Qual é o caminho correto?

 

Segundo Mary Winn (Children without childhood. New York, 1993), há poucas décadas não havia dúvidas para um adulto e para uma criança ou jovem sobre as atitudes a tomar e o caminho a seguir. Já estava definido o que e onde estudar.

 

Havia um consenso sobre o comportamento desejado e ficava muito claro o que deveria ser feito e o que devia ser evitado. Educava-se simultaneamente com amor e rigor, com permissões e proibições, com prêmios e castigos.

 

Rejeitados os métodos antigos e autoritários, surgiram o que a literatura específica chama de pais progressistas: evitam uma intervenção autoritária na vida dos filhos, procuram orientar, dialogar e apelar para um comportamento racional.

 

Abrem mão de toda autoridade e pedem aos filhos compreensão e cooperação. Em verdade, esse repúdio a uma forma excessivamente rigorosa de educar levou os pais a uma atitude que muitos pedagogos consideram como fuga das responsabilidades educacionais.

 

Muitos pais, hoje, têm medo de enfrentar os filhos; não têm autoridade para exigir que os filhos menores não dirijam o carro ou a moto, que colaborem em determinadas tarefas, que voltem de seus passeios a certa hora da noite.

 

A falta de firmeza dos pais leva, segundo a psicóloga e médica Jirina Prekop (Der Kleine tyrann "O pequeno tirano". Sttutgart, 1988), a criança a impor a sua vontade. Ela determina o que vai comer, o que vai vestir, que programa assistir na TV, como deve ser mobiliado seu quarto.

 

Acostumados, desde cedo, a impor sua vontade, a criança e o adolescente não aceitam ser contrariados. A reação bem conhecida de todos é espernear, gritar, chorar ou alegar doença. E acabam por praticar atos mais graves que preocupam toda a família.

 

A criança, em verdade, quer confiar em seus pais; pai e mãe devem ser referências, devem estabelecer regras e objetivos para que a criança se sinta abrigada e segura.

 

Deixá-los proceder como querem não é um gesto de grandeza, de modernidade dos pais; é mais uma fuga de suas responsabilidades e medo de serem chamados de quadrados.

 

Uma geração que não acredita que pode moldar o futuro, que é incapaz de construir com segurança e amor a sua vida e a dos seus filhos, é uma geração que nada tem a oferecer às gerações futuras. É uma geração que deve calar porque não vê perspectiva para a vida. Isto é o que nos diz John Holt (Zum Teufel mit der kindheit. Wetz, 1988).

 

Se os pais não estabelecerem para as crianças os parâmetros de comportamento, se não tiverem firmeza em suas atitudes, os filhos tornar-se-ão inseguros: em lugar de uma orientação firme, seguem modas, modelos, opiniões adquiridas nas ruas ou através dos meios de comunicação e adotam valores, no mínimo, discutíveis.

 

Atrás de uma criança que se impõe pela força, pela rebeldia, pelo grito não raro se esconde uma pessoa insegura e medrosa.

 

Neill Postman (The disappearance of childhood. New York, 1988), aponta alguns sintomas que denomina de sinais doentios da infância e da juventude. Entre outros, cita:

 

a) perda da capacidade de autodomínio: não alcançando seus objetivos, a criança grita, chora, esperneia e pratica todos os desaforos até alcançar seu desejo;

 

b) perda da capacidade de se expressar de forma correta: a criança utiliza fragmentos de frases desconexas, gírias e expressões obscenas. É uma linguagem que desconhece respeito e com ela quer apenas, muitas vezes de forma cínica, impor sua vontade;

 

c) perda da capacidade de agradecer e de ser modesto: tudo o que os pais dão e fazem nada mais é que obrigação deles. A criança e o jovem entendem que devem ser atendidos plenamente, enquanto os demais membros da família tornam-se secundários. Isso pode resultar em desunião e degradação da família;

 

d) perda da obediência e da consciência que o poder dos pais e do governo são para manter uma ordem, não para subjugar: o resultado é uma reação de revolta por parte dos jovens. Destruir o que se nos opõe, destruir tudo, o vandalismo é o lema fundamental;

 

e) perda do sentido de valor da vida: que é substituído pelo álcool, por drogas e atitudes violentas e criminosas. O objetivo é viver o momento, não pensar no futuro. Não há futuro.

 

Muitos leitores dirão: Postman exagerou. Tais atitudes são de poucos jovens. É possível que hoje ainda sejam minoria. Mas o que acontecerá amanhã se alguma atitude não for adotada?

Essa é a responsabilidade dos pais e, praticamente, só deles (a Escola apenas colabora): educar os filhos através de atitudes firmes para termos uma infância e uma juventude sadia para um futuro que desejamos para todos.

(Adaptado do texto de Helmut Troppmair. Revista do Professor. Porto Alegre, 12 (46): 47, abr./jun. 1996)

 

 

 

Brasileiro, homem do amanhã

 

Paulo Mendes Campos

 

Há, em nosso povo, duas constantes que nos induzem a sustentar que o Brasil é o único país brasileiro de todo o mundo. Brasileiro até demais. Colunas da brasilidade, as duas colunas são: a capacidade de dar um jeito; a capacidade de adiar.

 

A primeira é ainda escassamente conhecida, e nada compreendida, no exterior; a segunda, no entanto, já anda bastante divulgada lá fora, sem que, direta ou sistematicamente, o corpo diplomático contribua para isso.

 

Aquilo que Oscar Wilde e Mark Twain diziam apenas por humorismo (nunca se fazer amanhã aquilo que se pode fazer depois de amanhã), não é no Brasil uma deliberada norma de conduta, uma diretriz fundamental.

 

Não, é mais, é bem mais forte do que qualquer princípio da vontade: é um instinto inelutável, uma força espontânea da estranha e surpreendente raça brasileira.

 

Para o brasileiro, os atos fundamentais da existência são: nascimento, reprodução, procrastinação e morte (esta última, se possível, também adiada).

 

Adiamos em virtude dum verdadeiro e inevitável estímulo inibitório, do mesmo modo que protegemos os olhos com a mão ao surgir na nossa frente um foco luminoso intenso. A coisa deu em reflexo condicionado; proposto qualquer problema a um brasileiro, ele reage de pronto com as palavras: logo à tarde; só à noite; amanhã; segunda-feira; depois do Carnaval; no ano que vem.

 

Adiamos tudo: o bem e o mal, o bom e o mau, que não se confundem, mas tantas vezes se desemparelham. Adiamos o trabalho, o encontro, o almoço, o telefonema, o dentista, o dentista nos adia, a conversa séria, o pagamento do imposto de renda, as férias, a reforma agrária, o seguro de vida, o exame médico, a visita de pêsames, o conserto do automóvel, o concerto de Beethoven, o túnel para Niterói, a festa de aniversário da criança, as relações com a China, tudo. Até o amor.

 

Só a morte e a nota promissória são mais ou menos pontuais entre nós. Mesmo assim, há remédio para a promissória: o adiamento bi ou trimestral da reforma, uma instituição sacrossanta no Brasil.

 

Quanto à morte, não devem ser esquecidos dois poemas típicos do Romantismo: na Cancão do Exílio, Gonçalves Dias roga a Deus não permitir que ele morra sem que volte para lá, isto é, para cá.

 

Já Álvares de Azevedo tem aquele poema famoso cujo refrão é sintomaticamente brasileiro: "Se eu morresse amanhã". Como se vê, nem os românticos aceitavam morrer hoje, postulando a Deus prazos mais confortáveis.

 

Assim, adiamos por força dum incoercível destino nacional, do mesmo modo que, por obra do fado, o francês poupa dinheiro, o inglês confia no Times, o português adora bacalhau, o alemão trabalha com furor disciplinado, o espanhol se excita com a morte, o japonês esconde o pensamento, o americano escolhe sempre a gravata mais colorida.

 

O brasileiro adia; logo existe.

 

A divulgação dessa nossa capacidade autóctone para a incessante delonga transpõe as fronteiras e o Atlântico. A verdade é que já está nos manuais.

 

Ainda há pouco, lendo um livro francês sobre o Brasil, incluído numa coleção didática de viagens, encontrei no fim do volume algumas informações essenciais sobre nós e a nosa terra. Entre endereços de embaixadas e consulados, estatísticas, induções culinárias, o autor intercalou o seguinte tópico:

 

DES MOTS

 

Hier: ontem

Aujourd'hui: hoje

Demain: amanhã

Le seul important est le dernier.

 

A única palavra importante é amanhã. Ora, esse francês astuto agarrou-nos pela perna. O resto eu adio para a semana que vem.

 

 

 

Caro senhor ministro da Educação

 

(Rubem Alves, 63, educador, escritor e psicanalista, é professor emérito da Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP. Folha de S. Paulo, 21/5/1998)

 

Acho, Paulo Renato, que você ocupa a posição mais importante do Brasil - mais que a Presidência. Sobre o presidente paira a maldição terrível, descrita por Maquiavel em "O Príncipe": a maldição do poder.

 

O poder é um demônio que não dá descanso, não havendo exorcismo que o resolva. Totalitário, ele se apossa do corpo e da alma; exige tempo para mais nada. Tal qual São Jorge, o presidente passa os dias e noites lutando com um dragão que ressuscita a cada manhã, não lhe sobrando tempo para dedicar-se às coisas que são essenciais.

 

O essencial na vida de um país é a educação. Se não me falha a memória, você estudou em colégio de padres e vai entender o que digo. No Evangelho de João, está escrito que "no princípio era o Verbo". "Princípio", em grego, é palavra filosófica, que não significa só começo no tempo, mas fundamento - aquilo que é a base do que existe.

 

Acho que o autor sagrado não ficaria bravo comigo se eu fizesse uma tradução livre do seu texto para os tempos modernos: "No princípio é a educação".

 

A educação, em essência, é precisamente isso: o exercício do Verbo.

Pensa-se que a tarefa de um político é administrar o país: pôr a casa em ordem, construir coisas novas, consertar as velhas; cuidar de finanças, saúde, segurança, justiça e meios de comunicação; administrar os meios de escolarização existentes, coisa sob a responsabilidade do Ministério da Educação.

 

Discordo. Há uma diferença qualitativa entre o que fazem os ministérios administrativos e o que o Ministério da Educação deve fazer. Os primeiros cuidam do "hardware" do país; lidam com a "musculatura" nacional.

 

O Segundo cuida do "software", da "inteligência" nacional. Seu objetivo é fazer o povo pensar. Porque um país - ao contrário do que me ensinaram na escola - não se faz com as coisas físicas que se encontram no seu território, mas com os pensamentos do seu povo.

 

Explico: o que está no início, o jardim ou o jardineiro? É o segundo. Havendo um jardineiro, cedo ou tarde, um jardim aparecerá. Mas um jardim sem jardineiro, cedo ou tarde, desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins.

 

O que faz um jardim são os pensamentos do jardineiro. O que faz um povo são os pensamentos dos que o compõem.

 

Os grandes políticos não foram admistradores de coisas. Foram criadores de povos. E o que é um povo? Santo Agostinho, 15 séculos atrás, disse que um povo é "um conjunto de seres racionais unidos por um mesmo objeto de amor".

 

Ou seja, pessoas não partilham de um mesmo sonho. Emile Durkheim percebeu igual. Os povos, disse, não feitos só "da massa de indivíduos que os compõem, dos territórios que ocupam, das coisas que usam, dos movimentos que executam.

 

Eles são feitos, sobretudo, com as idéias que os indivíduos têm de si mesmos".

 

Foi precisamente isso que Chico Buarque disse em "A Banda". Cada um estava concentrado no seu sonhinho: a namorada, o faroleiro, o homem rico, a moça feia, o homem velho.

 

Cada um na sua, não havia povo: tal como nós, do Brasil, país que não tem povo porque não há sonhos belos a ser sonhados. Mas aí passou uma banda. E o que tocava era tão bonito que os sonhos de cada um logo ficaram pequenos e foram esquecidos.

 

Esquecidos os sonhinhos individuais, formou-se a procissão dos que seguiam o sonhão que a banda tocava. Um povo nasceu. "A Banda" contém uma teoria política sobre o nascimento de um povo.

 

Faz uns meses, publiquei nesta seção uma carta inútil ao Sr. Roberto Marinho. Usei uma metáfora: o anúncio da Marlboro que aparece na TV. É lindo, com riachos cristalinos, raios de sol, bosques de pinheiros, cavalos sevalgens. Eu, que não fumo, vendo o comercial, fico encantado.

 

A beleza seduz, me faz sonhar. Quero estar lá.

 

Após curto feitiço, aparece a advertência do Ministério da Saúde: "Fumo produz câncer". É conhecimento científico. Frase verdadeira. E morta. Não conheço ninguém que tenha deixado de fumar por causa das verdades que o conhecimento científico anuncia. Conheço muitas que vieram a fumar por causa da sedução da beleza.

 

Nossas escolas têm se dedicado a ensinar o conhecimento científico, com todos os esforços para que isso aconteça de forma competente. Isso é muito bom. A ciência é indispensável para que os sonhos se realizem. Sem ela, não se pode plantar nem cuidar do jardim.

 

Mas há algo que a ciência não pode fazer. Ela não é capaz de fazer os homens desejarem plantar jardins. Ela não tem o poder para fazer sonhar. Não tem, portanto, o poder para criar um povo.

 

Porque o desejo não é engravidado pela verdade. A verdade não tem o poder de gerar sonhos. É a beleza que engravida o desejo. São os sonhos de beleza que têm o poder de transformar indivíduos isolados num povo.

 

As escolas se dedicam a ensinar os saberes científicos, visto que sua ideologia científica lhes proíbe lidar com os sonhos (coisa romântica!). Assombra-me a incapacidade das escolas para criar sonhos. Enquanto isso, os meios de comunicação (principalmente a TV), que conhecem melhor os caminhos dos seres humanos, vão seduzindo as pessoas com seus sonhos pequenos, freqüentemente grotescos.

 

Assombra-se a capacidade desses meios para criar sonhos. Mas de sonhos pequenos e grotescos só pode surgir um povo de idéias pequenas e grotescas.

 

Se o Ministério da Educação for só um gerenciador dos meios escolares, será difícil ter esperança. Pensei, então que o ministério talvez tivesse poder e imaginação para integrar os meios de comunicação num projeto nacional: semear os sonhos de beleza que se encontram no nascedouro de um povo. Assim, realizaria a sua vocação política de criar um povo.

 

Por isso, Paulo Renato, considero sua posição de ministro da Educação a mais importante na vida política do Brasil. Da Educação pode nascer um povo.

 

 

 

Ciência do cérebro altera visão do ensino (parte I)

 

A promoção pelo presidente e pela primeira-dama dos Estados Unidos da América, Bill e Hillary Clinton, da Conferência da Casa Branca sobre desenvolvimento e aprendizagem na infância: o que as novas pesquisas do cérebro dizem sobre nossas crianças mais jovens revela falhas na reforma do ensino brasileiro.

 

O que essas pesquisas dizem é que o cérebro se forma na relação da criança com o ambiente, e que isso ocorre principalmente dos 0 aos 10 anos - e de forma ainda mais acentuada dos 0 aos 3.

 

Crianças que têm pouco estímulo na fase inicial da vida deixam de formar certos "circuitos" no cérebro. Exemplo clássico é o da criança que nasce com catarata ("mancha" no olho que impede a visão).

 

Se a catarata não é removida até os 2 anos, a criança será cega para sempre - porque faltou estímulo para formar os "circuitos" que levam impulsos do olho ao cérebro.

 

Embora extremo, esse exemplo tem paralelo com a capacidade de falar, ler, cantar, tocar instrumentos, dançar, falar outras línguas, enfim, com tudo que se aprende.

 

A Conferência de Washington, transmitida via satélite para mais de cem cidades, pretendeu dar um impulso para melhorar a qualidade e a acessibilidade dos serviços de atendimento infantil nos Estados Unidos da América, segundo o presidente Clinton.

 

A questão para o Brasil é que praticamente todas as reformas do ensino em andamento - do governo federal aos nove Estados do Nordeste, passando por São Paulo - priorizam o Ensino Fundamental (7 a 14 anos), em detrimento da Educação Infantil (0 a 6 anos).

 

O Fundão, que vai vigorar de 1998 a 2007, põe 60% do dinheiro da educação no Ensino Fundamental - o que para muitos municípios significa menos dinheiro para Pré-Escola.

 

A secretária de Educação de São Paulo, Rose Neubauer, quer fechar a última Pré-Escola do Estado, a Experimental da Lapa.

 

O antes razoável sistema de Creches da Prefeitura de São Paulo passou por uma série de crises financeiras durante a administração Paulo Maluf (1993-1996).

 

O principal argumento que vem sendo utilizado pelos governos é que, com o dinheiro disponível, é necessário priorizar determinadas áreas da educação.

O que a Conferência mostra é que a priorização de recursos para o Ensino Fundamental no Brasil pode estar pegando crianças em uma fase já tardia de sua formação.

 

Por exemplo: ao entrar em uma Escola só aos 7 anos, os filhos dos 20 milhões de analfabetos do país vão, quase fatalmente, ter dificuldade para aprender a ler e escrever.

 

Fernando Rossetti. Folha de S.Paulo. 3º Caderno (Cotidiano). São Paulo, 21 abr. 1997. p.3.10

 

 

 

Ciência do cérebro altera visão do ensino (parte II)

 

Estímulo deve seguir bom senso

A educação até os 6 anos de idade exige, mais do que qualquer coisa, bom senso. Não precisa ensinar o alfabeto a uma criança de 3 anos, diz Patricia Kuhl, titular em Ciência da Fala e Aprendizagem na Universidade de Washington.

 

As principais dicas da Conferência são simples: leia e conte histórias para os filhos desde pequenos, tenha livros em casa, cante, toque músicas, pinte, passeie.

 

Tudo isso estimula a formação de determinados "circuitos" no cérebro. A professora de neurobiologia da Universidade da Califórnia, Carla Shatz, compara o desenvolvimento cerebral à instalação de uma rede telefônica.

 

O cérebro tem mais de um trilhão de células nervosas (neurônios). Cada uma é como um telefone que se comunica com outras células por sinais eletroquímicos.

 

Esses sinais são transmitidos por axônios - que são como linhas telefônicas, emitidas pelo neurônio.

 

Durante o desenvolvimento, o cérebro tem que formar cerca de 100 trilhões de conexões entre os neurônios. Nenhuma dessas conexões está lá desde o início.

 

Há dois fatores determinantes na formação dessas conexões. O primeiro é genético: os genes dos pais determinam parte da estrutura cerebral da criança.

 

O segundo fator é ambiental: os estímulos que a criança recebe determinam a emissão de axônios e a formação - ou não - de uma conexão. Isso ocorre durante toda a vida, mais é muito mais intenso e rápido até os 10 anos de idade.

 

As implicações para a educação

 

Linguagem - quanto mais a criança for exposta à linguagem (falada, escrita, lida, cantada), maior será o seu repertório; o Estado só prioriza o ensino após os 7 anos, mas antes disso há uma fase fundamental; língua estrangeira - dos 0 aos 10 anos, o cérebro está formando os "circuitos" da linguagem: mas, nos currículos brasileiros, as crianças só começam a aprender uma segunda língua depois disso;

 

castigo - a criança aprende a administrar as emoções na relação com seu ambiente; um ambiente agressivo, principalmente dos 0 a 3 anos, tende a deixar "circuitos" no cérebro que resultam em mais ansiedade; creches - o ambiente tem de ser estimulante, e os educadores bem formados para desenvolver os potenciais da criança, caso contrário do que ocorre na maioria das creches do país;

 

deficiências - quanto mais cedo se diagnostica deficiências de aprendizagem, mais simples se torna a recuperação; no Brasil, em geral, só se tem contato com uma instituição capaz desse diagnóstico aos 7 anos.

 

Bom senso - a criança se incumbe em seu papel de aprender quando o ambiente é estruturado, afetivo e estimulante; não precisa "afogar" a criança de atividades, basta ser sensível à sua natural curiosidade.

 

Fernando Rossetti. Folha de S.Paulo. 3º Caderno (Cotidiano). São Paulo, 21 abr. 1997. p.3.10

 

 

 

A difícil arte de criar filhos

 

Impossível negar: mesmo nos anos 90 - ou, talvez, principalmente neste final de século - criar os filhos continua sendo uma tarefa difícil. Que o digam Sandra e Dan Gookin, que resolveram colocar as dúvidas e algumas dicas aprendidas a partir de sua própria experiência num livro.

 

Filhos para leigos, da Editora Mandarim, não é propriamente um guia. Mas pode ajudar pais de primeira viagem a lidar com algumas situações cotidianas.

 

Para começar, os autores advertem na primeira página: Admita, você não está no comando. Seus filhos é que estão. Tanto você quanto eles sabem disso. A partir daí, o que se busca é uma solução mútua que satisfaça a todos neste jogo complicado que é a criação dos filhos.

 

E de preferência de uma forma que provoque o menor estresse possível para todos os envolvidos.

 

A autora analisa as situações sempre de forma bem-humorada. Até porque, já que neste jogo não há vitórias completas e a função de pai e mãe é o único emprego em que não é possível demitir-se, o melhor a fazer é relaxar e entrar no espírito.

 

Sandra avisa que nem sempre é possível fazer tudo corretamente. E com certeza haverá ocasiões em que mesmo os pais mais bem-intencionados perdem a calma, gritam e agem ao contrário do que aconselham os manuais de psicologia.

 

Mas como o objetivo aqui é o de criar crianças que se tornem adultos bem ajustados, brigas ocasionais não são o fim do mundo. O importante é que, no geral, as coisas corram de modo razoável. Ou seja, corrigir o erro, aprender com ele e tentar novamente.

 

Para Sandra Gookin, as únicas regras fixas para os pais são manter a coerência, ser firme nas decisões tomadas e passar mensagens positivas para os filhos.

 

O mais é persistência. Por isso mesmo, a autora descreve situações bem corriqueiras e as diversas formas de enfrentá-las. Como a menina de três anos, que derramou todo um vidro de perfume francês, sujou de batom o vestido mais caro da mãe e quebrou o salto de seu sapato de festa.

 

Entre ficar lívida e enfiar a menina no banho; concordar que a filha está realmente linda, mais que da próxima vez é melhor pedir ajuda para se arrumar; e olhar aquilo tudo para simplesmente dar as costas e sair, a resposta é óbvia.

 

As dicas são muitas. Mas talvez as mais importantes sejam aquelas que falam sobre como despertar independência, autoconfiança e auto-estima.

 

O processo é longo, diário, e inclui desde incumbir as crianças de pequenas responsabilidades a cada dia, como dizer-lhes que são capazes de fazer qualquer coisa, desde que queiram. E não é preciso um resultado perfeito.

 

Destacar as coisas positivas que fizeram é a melhor maneira de desenvolver nelas essas qualidades. Afinal, se tudo isto vale para qualquer pessoa, porque seria diferente com as crianças?

 

Nas 400 páginas do livro, fala-se em alimentação ou mesmo sobre o fato de que a criação dos filhos é uma tarefa de equipe, para ser dividida entre pai e mãe.

 

E entre as sugestões práticas, há desde formas de tratar assaduras até vantagens e desvantagens de deixar que os filhos durmam com os pais. Os autores também avaliam alguns tipos de punição para traquinagens freqüentes, sempre lembrando que, principalmente nesta hora, não se pode deixar de lado o afeto, a firmeza nem a coerência.

 

10 mandamentos dos pais

 

1. Amar seus filhos sobre todas as coisas.

2. Ter muita paciência, especialmente em períodos estressantes.

3. Alimentá-los de forma saudável e nutritiva.

4. Acalentá-los.

5. Esforçar-se para mantê-los protegidos.

6. Comunicar-se aberta e honestamente com eles.

7. Ser um bom exemplo, em qualquer situação.

8. Tratá-los com respeito.

9. Não maltratá-los nem machucá-los fisicamente.

10. Ser um bom amigo e dar apoio ao companheiro na criação dos filhos.

 

(Adaptado do texto de Vilma Homero. Encarte Saúde da Revista Manchete. Rio de Janeiro, Manchete, 18 jan.1997. p. 15.)

 

 

 

Disciplina escolar: aspectos neurológicos

 

A palavra disciplina é comumente utilizada como "punição", ou "ensino que corrige e fortalece". Propõe-se a disciplina na base do diálogo e da participação, gerando produtividade do grupo.

 

A disciplina não deve ser imposta e sim construída paulatinamente com o aluno.

 

A disciplina consciente e interiorizada, que não se confunde com o silêncio absoluto, obediência cega e passividade.

 

Esta disciplina vai ser atingida conforme a maturação do Sistema Neurológico como um todo.

 

Liberdade é ponte para a disciplina.

 

As crianças devem exercitar a sua independência através do lazer espontâneo, experimentar situações e emoções, para conseguirem ser pessoas maduras e equilibradas, usando o bom-senso e a autodisciplina.

Escola X Professores.

 

É mais fácil "impor" a disciplina do que "ajudar" os estudantes a desenvolvê-la por si mesmos.

 

O propósito do ensino deve ser o de capacitar o indivíduo a promover a sua própria "orientação e controle", adquirindo maturidade, autodisciplina.

Este processo é dinâmico e evolutivo, portanto, a criança deve ser respeitada como indivíduo, conforme a faixa etária e momento de vida.

 

"A escola deve ter os seus padrões disciplinares plenamente definidos e deve persegui-los incansavelmente através dos métodos em que acredita, para que o seu liberalismo não seja confundido com permissividade, nem seu endurecimento seja confundido com arbitrariedade", diz Henry Clay Lindgren.

 

Autodisciplina. É adquirida através de certo controle e direção, devem ser estipuladas as regras e os limites para ser obtida.

 

É variável conforme a situação em que a criança se encontra, e o seu nível de maturidade.

 

Não pode ser atingida com controle e orientação permanentes, isto é, as crianças não devem ficar na dependência dos adultos a todo momento para tomar as suas próprias decisões.

 

Precisamos lembrar que as necessidades dos indivíduos são por vezes contraditórias, dependente da sua faixa etária, como exemplo temos a adolescência.

 

Aprendizagem X Ansiedade. Aprendizagem significa mudança, pressupõe abandonar os velhos costumes, gerando certa ansiedade, que em dose mínima se torna favorável ao processo, mas se em dose excessiva, ocasiona hostilidade, agressividade e desorganização.

 

Cada espécie de tarefa tem a sua própria disciplina.

 

Causa de indisciplina X Procura do Neuropediatra. Dificuldades de aprendizado; distúrbio de comporta-mento [hiperatividade, drogas, fuga escolar, agressividade]; deficiência intelectual e neurossensorial; doenças neurológicas: epilepsia, infecciosas, degenerativas, traumatismos, tumores, tiques, cefaléia; distúrbios psiquiátricos.

 

A hiperatividade, por exemplo, causa descontrole: o indivíduo tem capacidade intelectual normal, porém, há distúrbio básico na concentração e atenção.

 

O tratamento é psicoterápico e pedagógico, canalizando a agressividade e hiperatividade para a atividade produtiva, atingindo o autocontrole.

 

Estabelecer limites. Adultos muito condescendentes, tolerantes, não colocam limites no comportamento de seus filhos. A liberdade em excesso em vez de causar sensação de alegria à crianças, gera um sentimento de abandono.

 

Liberdade com compreensão traz segurança. Um momento difícil na relação familiar causa solidão na criança. Devemos sempre nos lembrar que os filhos estão acima do "bem" e do "mal" entre os casais separados.

 

O elo indis-solúvel dos pais são os seus filhos. Mas, diz Gibran, "os filhos não são nossos e sim do mundo".

 

Superpais sufocantes, rígidos, geram comportamento ambíguo. Os filhos são comportados diante de seus pais e se tornam liberados longe deles, pois não sabem fazer uso adequado da sua liberdade, por vezes tomando atitudes anti-sociais e até delinquentes.

 

Portanto a repressão é danosa. As crianças devem experimentar para construirem as suas próprias respostas. Hoje em dia, por conforto e segurança dos adultos, o lazer dos menores é programado e as atividades de lazer espontâneo restritas.

 

Pais permissivos, omissos e ausentes, levam à carência afetiva. A relação entre a quantidade e a qualidade do tempo partilhado com os filhos é que causa o equilíbrio do relacionamento familiar. Filhos à deriva, sem modelos, limites, parâmetros, sentem-se abandonados e rejeitados.

 

Cometem furtos, mentiras para chamar a atenção. Os filhos são de responsabilidade dos seus progenitores.

 

Pais consumistas e perdulários, gerando valores distorcidos do sentido de "ter", onde o dinheito pode com-prar tudo: as amizades, os professores, as notas e inclusive a própria escola!

 

Pais excessivamente econômicos, geram egoísmo, falta de solidariedade e inconformismo nos filhos.

 

(Tema apresentado na Mesa Redonda sobre Disciplina pela Neuropediatra Taísa Razera Simões de Assis-ABPP-Seção Paraná, na PUC, em 15/6/1996. Jornal Psicopedagogia da Associação Brasileira de Psicopedagogia-Seção Goiás. Goiânia, abr./maio 1997)

 

 

 

Disciplina escolar: por que pais e Professores se sentem perdidos?

 

Os grandes responsáveis pela educação dos jovens, a família e a escola, não estão sabendo cumprir o seu papel. O que se observa hoje é a falência da autoridade dos pais em casa, do professor em sala de aula, do orientador na escola.

 

Discussões homéricas surgem nas famílias por causa da indisciplina, dificultando bastante a convivência. Mães ficam mal-humoradas porque as crianças bagunçam o quarto e pais se exasperam porque elas se esquecem de apagar a luz. Porém, o pior ocorre quando um filho responde mal. Isso lhes estraga o dia.

 

Muitos alunos não respeitam seus professores, e essa indisciplina prejudica o ensino e a aprendizagem. Professores e orientadores têm dificuldade em estabelecer limites na sala de aula e não sabem até que ponto intervir nos comportamentos adotados nos pátios escolares.

Onde foi que os educadores se perderam?

 

Antes de responder a pergunta, é preciso levar em conta que essa geração viveu a questão da disciplina de um modo peculiar e sofrido. Para facilitar a compreensão, vou chamar de primeira a geração dos avós, de segunda, a geração dos pais e professores, e de terceira, a geração dos jovens.

 

Pois bem, a primeira educou seus filhos de maneira patriarcal, com a autoridade vertical, isto é, o pai no ápice da linha e os filhos na base dela. A base era obrigada a cumprir tudo o que o ápice determinava. Com isso, a segunda geração foi massacrada pelo autoritarismo dos pais. E decidiu refutar esse sistema educacional na educação dos filhos.

 

Na tentativa de proporcionar a eles o que nunca tiveram, os pais da segunda geração acabaram caindo no extremo oposto da primeira: a permissividade.

 

A psicologia contribuiu muito para isso, ao divulgar frases como: "Não reprima seu filho", "Seja amigo dos seus filhos", "Liberdade sem medo". Boa parte dos adultos quis aderir ao modelo horizontal, em que pais e filhos têm os mesmos direitos, evitando neuroticamente o uso da autoridade, por confundi-la com autoritarismo.

 

As intensas mudanças vividas, de maneira muito rápida, pela segunda geração tiveram um custo na educação da terceira, cujo preço, provavelmente alto, ainda não podemos estimar.

 

Esses jovens ficaram sem noção de padrões de comportamentos e limites, formando uma geração de "príncipes" e "princesas", com mais direitos do que deveres, mais liberdade do que responsabilidade, mais "receber" do que "dar" ou "retribuir".

Tais "príncipes domésticos" querem ser, também, "príncipes sociais", mas acabam se dando mal, pois as regras da sociedade são outras, muito diferentes das válidas na família.

 

As instituições de ensino, que têm a tarefa de introduzi-los nessas normas, muitas vezes se omitem. O professor foi outro que perdeu a autoridade inerente à sua função. Ao admitir um "príncipe escolar", em vez de ajudar o aluno a viver em sociedade, ele prejudica seu crescimento.

 

Recuperar a autoridade fisiológica não significa ser autoritário, cheio de desmandos, injustiças e inadequações.

 

Autoridade é algo natural que deve existir sem descargas de adrenalina, seja para se impor ou se submeter, pois é reconhecida espontaneamente por ambas as partes. Assim, o relacionamento se desenvolve sem atropelos. O autoritarismo, ao contrário, é uma imposição que não respeita as características alheias, provocando submissão e mal-estar, tanto na adrenalina do que impõe, quanto na depressão do que se submete.

 

A disciplina é essencial à educação. E, para haver disciplina, é necessária a presença de uma autoridade saudável. O segredo que difere o autoritarismo do comportamento autoritário adotado para que a outra pessoa (no caso, filhos ou alunos) torne-se mais educada ou disciplinada é o respeito à auto-estima.

 

Este livro pretende ajudá-lo a exercer a sua autoridade - sem culpas, com segurança e bom-senso. Filhos precisam de pais para serem educados; alunos, de professores para serem ensinados.

 

Estes até podem ser amigos, porém não mais amigos do que pais; não mais amigos do que professores [grifo nosso]. Afinal, como educador, você não pode se esquivar à tarefa de apontar os limites necessários para que os jovens se desenvolvam bem e consigam se situar no mundo.

 

(Içami Tiba. Psiquiatra, psicodramatista e psicoterapeuta de jovens e famílias há 26 anos. Disciplina: limite na medida certa. Introdução. São Paulo: Editora Gente, 1996.)

 

 

 

Disciplina: um desafio para pais e educadores

 

Profª Vilma de Lima Chaves

 

Todo ser humano, ao chegar ao mundo, precisa conviver com outras pessoas para "vir a ser" alguém. Isso quer dizer que nenhum indivíduo se forma sozinho, mas precisa da interação com outros seres humanospara aprender um comportamento social aceito.

 

Precisa do reconhecimento de que deve ter limites para sua atuação, precisa reconhecer que tem direitos e deveres para obter uma efetiva e boa convivência social.

 

Um dos grandes dilemas da atualidade para os que se dedicam à educação sejam eles pais ou professores, é o estabelecimento destes limites, de modo que não venham ser eles elementos restritivos à liberdade e à personalidade individual.

 

Outra questão que tem influído para aumentar as dificuldades dos pais e educadores, diz respeito às várias teorias sobre a educação, cujas propostas vão desde a total permissividade a um autoritarismo rigoroso, que acabam impedindo a formação de uma disciplina autônoma e cria muita insegurança e dúvidas em todos os envolvidos.

 

Numa análise histórica do tempo, podemos verificar que "modismos" educacionais permearam todo o trabalho educativo e provocaram diferentes comportamentos nas gerações de pais e de filhos, quando confrontados perante essa tarefa tão importante que é educar.

 

Também temos que creditar alguns dos problemas educacionais, aos meios de comunicação que, contrariamente a seu potencial educativo, têm contribuído para fixar nas crianças padrões de comportamento inadequados à convivência social. Refiro-me a images da violência, costumes aéticos, estímulo ao consumo de bebidas e drogas, permissividade confundida com liberdade etc.

 

Quando analisamos o comportamento humano na sua dimensão disciplinar, verificamos que, inicialmente, a aquisição de regras acontece porque a criança faz aquilo que o outro quer dela, evoluindo depois para uma atitude de desejar ter um comportamento oriundo do próprio pensamento. Em matéria de educação da disciplina, a criança evolui de uma condição heterônoma (dirigida pela vontade exterior) para uma condição autônoma (dirigida pela sua vontade interior).

 

Todos esses fatores, associados às dúvidas dos pais e professores sobre a melhor maneira de educar os mais jovens, têm gerado a necessidade de uma maior reflexão sobre a importância de se impor limites ao comportamento. Refiro-me aos comportamentos de respeito às normas e às pessoas, de solidariedade e de compromisso com a melhora da qualidade das relações e da vida social.

 

Os pais têm dificuldades em saber até onde uma criança deve ser limitada, preocupando-se com a sua individualidade.

 

Correto, mas é necessário também perceber que ninguém vive sozinho, que viver é estar compromissado com o outro. Portanto, é melhor ter regras que poderão não ser as mais adequadas do que não ter nenhuma. As situações de anomia, onde a criança nunca sabe até aonde pode ir, são geradoras de ansiedade e de sofrimento para ela.

 

Sempre é necessário oferecer aos filhos e aos alunos as normas vigentes e permitir que eles as questionem para aceitá-las, para reconhecer nelas o freio que permite parar antes de um acidente fatal. Saber exatamente a razão de uma norma ou regra é o meio mais fácil de obter sua aceitação.

 

Crianças que têm regras em casa aprendem desde pequenos a respeitar e a exigir ser respeitado. Sentem-se seguros e aos poucos vão ganhando uma disciplina autônoma, diferente daquela imposta pelos pais ou professores.

 

Quando calamos sobre um mau comportamento, quando apoiamos uma criança num ato errado ou quando deixamos a criança entregue às suas próprias decisões estamos fazendo com que, no futuro, este adulto seja um indivíduo sem valores, sem emoções e sem sensibilidade. Acima de tudo, facilitamos para que ele se torne uma criatura inconseqüente e com grandes dificuldades para a vida social.

 

O conhecimento desses fatos nos remete à conclusão bastante lógica de que a disciplina se constrói a partir da relação da criança com os adultos e com outras crianças.

 

É no convívio diário que a criança se "apossa das leis e das normas" , da ética e da moral, e isto implica grande responsabilidade para pais e professores. É nesse cotidiano que se aprendem os valores, e esses só são apreendidos pela vivência.

 

De nada adianta dizermos que certos costumes não devem ser adquiridos, que certas atitudes não devem ser tomadas se, na prática, na vivência diária, eles não são vividos conforme o desejamos. Só há uma forma de aprender valores: vivenciando-os. E o aprendizado de valores está intimamente relacionado à aquisição da disciplina interior, da disciplina autônoma.

 

Existe um velho ditado que diz: "mais vale um gesto do que mil palavras..." e isso é verdade! Uma atitude (ou a ausência dela também) ensina muito mais do que mil discursos.

 

Isso nos remete a uma constatação preocupante, pois vivemos numa sociedade que não valoriza o cumprimento da lei, onde burlá-la ou infringi-la é sinônimo de esperteza, onde as pessoas estão achando que sempre é possível "dar um jeitinho". Isso é extremamente deseducativo.

 

O pai que ultrapassa o sinal vermelho está ensinando o filho que a lei não é para ser cumprida. Como cobrar dele depois o horário de voltar para casa, o compromisso responsável e cuidadoso do uso do carro, a responsabilidade com os estudos, com o namoro? Fica difícil realmente... fica difícil!

 

Como podemos ver não é fácil educar nem é fácil escolher entre os caminhos possíveis. Uma coisa, porém, devemos ter claro : não é possível educar sem normas e sem impor limites, se quisermos ter adultos responsáveis, compromissados, sensíveis e conscientes. Temos que lutar por isso!

 

 

A dívida de Bradley

 

(Texto adaptado de Hugh T. Kerr. In: O livro das virtudes II - o compasso moral, de William J. Bennett)

 

Era uma vez um menino chamado Bradley. Quando Brad tinha uma determinada idade, adquiriu o hábito de considerar tudo em termos de dinheiro. Queria saber o preço de tudo o que via e, se não custasse grande coisa, não parecia ter valor algum.

 

Mas há muitas e muitas coisas que o dinheiro não compra. E algumas são as melhores do mundo.

 

Certa manhã, quando Brad desceu para o café, colocou sobre os pratos de Papai e de Mamãe um papelzinho cuidadosamente dobrado. Eles abriram e quase não acreditaram no que Brad escrevera:

Papai e Mamãe devem para Bradley:

Por levar recados
3 reais
Por tirar o lixo
2 reais
Por varrer o chão
2 reais
Extras
1 real
Total que Papai e Mamãe devem a Bradley
8 reais

 

Eles sorriram ao ler aquilo, mas nada disseram.

Na hora do almoço, eles devolveram a conta sobre o prato de Brad, junto com os 8 reais. Os seus olhos faiscaram quando viram o dinheiro. Enfiou-o depressa no bolso, já sonhando com as coisas que ia comprar com a sua recompensa.

 

No mesmo momento, Brad viu um outro pedaço de papel ao lado do seu prato, cuidadosamente dobrado, igualzinho ao que escrevera. Quando abriu, percebeu que era uma conta do Papai e da Mamãe:

Bradley deve a Papai e a Mamãe:

Por serem bons para ele
nada
Por cuidarem da sua catapora
nada
Pelas camisas, sapatos e brinquedos
nada
Pelas refeições e pelo lindo quarto
nada
Total que Bradley deve a Papai e a Mamãe
nada

 

Brad ficou sentado, olhando para a sua nova conta, sem dizer nenhuma palavra. Minutos depois, levantou-se e puxou os 8 reais do bolso, colocando-os nas mãos de Papai e de Mamãe.

E depois disso passou a ajudar a seus Pais por amor.

 

 

 

Embarque e desembarque de alunos na portaria da Escola: medidas de segurança

 

Uma instituição educacional deve ser vista como um todo. Um todo constituído por partes igualmente importantes. E todas estas partes devem concorrer para a boa formação do educando, entendida a boa formação como o desenvolvimento da habilidade de entender o ambiente em que se está inserido, situar-se nele e agir sobre ele, além da capacitação para o prosseguimento dos estudos.

 

A constatação de que o ambiente é um todo social fixa, para nós, obrigações que se descumpridas comprometem a qualidade de vida de todos nós. Um exemplo de bem social do nosso interesse é o trânsito urbano. Especialmente nas proximidades da Escola, sobretudo o trânsito gerado pelo embarque e desembarque diário dos alunos.

 

A Escola está o tempo todo sensível à questão. Buscando sempre alternativas para agilizar o fluxo do tráfego, sem jamais abrir mão de qualquer medida de segurança.

Alguns procedimentos, se adotados pelos pais no dia-a-dia, contribuirão em muito para a formação integral do educando:

 

- esteja atento quanto aos redutores de velocidade ("tartarugas") fixados nas pistas que dão acesso à Escola. Evite riscos de acidentes, toda cautela em locais de movimentação de crianças é pouca. A vida é o bem mais precioso deste mundo;

 

- esteja atento para a sinalização das ruas (vertical e horizontal): placas e faixas para pedrestes. O cruzamento entre a Gabriel Ferreira e a Benjamin Constant tem provocado acidentes por desatenção dos motoristas, especialmente pelo desrespeito às vias preferenciais;

 

- esteja atento para os locais reservados exclusivamente nos horários de pique para estacionamento e manobras dos veículos destinados ao transporte escolar (peruas e micro-ônibus). O transporte escolar deve ter prioridade. É um importante serviço: amanhã, Você pode ter que recorrer a ele;

 

- não buzine: a área escolar é considerada como zona de silêncio - seu filho não pode ser perturbado em sala de aula;

- não trafegue em alta velocidade nas proximidades da Escola: a área contígua à Escola é considerada como de segurança - seu filho não pode ser atropelado;

 

- não fique se despedindo indefinidamente do seu filho dentro do carro, ou entregando no último momento o dinheiro do lanche, ou ainda retirando as mochilas do bagageiro, enquanto se forma uma enorme fila de carros, por sua vez conduzindo pessoas com "os mesmos direitos de fazer as mesmas coisas" e com as quais Você não concorda no caso delas estarem fazendo isso à sua frente;

 

É importante, por estas e outras razões, compreender a necessidade de escoar rapidamente o tráfego nas proximidades da Escola. Todos querem e precisam, da mesma forma, desembarcar ou embarcar suas crianças. A paciência de cada um de nós deve ser permanentemente estimulada: caso lhe falte paciência por Você mesmo, procure desenvolvê-la em favor da educação das crianças. Isso fará um bem incalculável para a formação delas. Podem acreditar.

 

No entanto, cumpre esclarecer que o Instituto Dom Barreto encontra-se empenhado no constante estudo de melhores soluções para facilitar a movimentação das crianças (entrada/saída) no ambiente escolar. Colabore. Ofereça sugestões. Venha conversar conosco. Obrigado pela atenção.

Paz e Bem.

 

Marcílio Flávio Rangel de Farias - Diretor

 

 

 

Lidar com perdas

 

perder... a palavra desperta, de imediato, reações negativas: vivemos numa sociedade onde a noção de "perda" está muito carregada de conotações adversas. Perda evoca prejuízo financeiro, morte, derrota, vergonha.

 

Ninguém quer perder, ser um perdedor.

No entanto, se examinarmos o aspecto puramente psicológico da perda, podemos, de imediato, afirmar que uma perda é, apenas, a ruptura de um laço, de uma ligação afetiva - um vínculo, como dizemos. Esse vínculo, no entanto, é normal e necessário.

 

Sabe-se, desde o início do Século, que toda uma série de síndromes, de doenças que atacam o bebê resultam do abandono materno, da não-aceitação pela mãe, e, de forma geral, da privação de interesse, atenção e toque físico por parte de outro ser humano. "Sem o vínculo psico-físico, o ser humano sequer consegue sobreviver".

 

Assim, se a formação do vínculo com o "outro" é indispensável até para se sobreviver, a própria sobrevivência e o desenvolvimento subentendem um processo de ruptura de vínculos, perdas e crises. Com base nesse enfoque, podemos dizer, mesmo, que se começa a "perder" um filho desde o seu nascimento, e que desde o nascimento se inicia para cada um, o processo de perdas.

 

A vida neste mundo começa com uma ruptura, uma separação, uma perda. Rompe-se a "bolsa d’água", ocorre o nascimento, o novo ser humano se separa daquele outro, a mãe, que por nove meses o abrigou; perde o conforto, a segurança do útero materno.

 

Há quem considere, mesmo, que se trata de um trauma, o chamado "trauma do nascimento". Mas, impossível entrar neste universo sem passar por essa perda.

 

Também, à medida que o indivíduo cresce, se desenvolve, avança em sua trajetória, a perda vai acompanhá-lo, marcando e possibilitando o seu crescimento.

 

De fato, para "avançar" é preciso "deixar para trás". Seguir pela vida significa romper vínculos - sofrer perdas - justamente para poder estabelecer outros vínculos novos, e assim por diante. Todo o processo de crescimento psicofísico pode ser visto - e bem visto - sob esse ângulo.

 

A separação física, a ruptura do cordão umbilical, marca esse início do processo de surgimento de uma "outra" pessoa - a princípio, muito indefesa, com grande grau de dependência em relação a esse primeiro ser do qual acaba de se separar.

 

O bebê necessita da mãe, do corpo da mãe, inclusive quanto ao alimento - o seu melhor alimento, o que lhe dá mais chances de viver, mais garantias de defesas orgânicas no novo meio: o leite materno.

 

Mas, como já apontamos, não é apenas uma questão de alimento: é através do vínculo, não só físico como psíquico que o recém-chegado começa a fazer contato com o desconhecido, com esse estranho mundo em que acaba de ingressar e isso ocorre em etapas, em fases marcantes.

 

O crescimento nada mais é do que a história dessa caminhada, dessa sucessiva formação e quebra de vínculos - conquistas e perdas - que marcam a trajetória do ser humano. Uma história que começa com a perda do útero e prossegue com a perda do seio, no desmame; com a perda da imagem da mãe, quando a criança percebe que há "estranhos", aqueles que não são a mãe e passa a perceber a ausência materna.

 

A formação do novo ser segue paralela ao processo de separação, de perda, que possibilita o ganho, o avanço.

 

A chamada "crise normativa" - aquela que é esperada, que é normal e dá norma, e de cuja superação depende o bom avanço e o desempenho na superação da crise seguinte. É impossível evitar tais crises, pois é ao vivê-las bem, ao superá-las, que o indivíduo vai fortalecer o seu ego, se constituir e se integrar socialmente.

 

Tratar corretamente a criança, pois é a base para um sentimento de identidade que mais tarde se combinará com um sentimento de "ser aceitável", de ser ela mesma e de que pode converter-se naquilo em que os demais confiam que ela chegará a ser.

 

A questão é indagar se estamos realmente preparados para lidar com as perdas.

 

Quem vem se desenvolvendo bem ao longo de sua vida, faz e desfaz vínculos de uma maneira que não hesitaríamos de chamar de "saudável".

Se a separação é necessária, é indispensável, impedi-la ou retardá-la seria mais que negativo.

 

O apego indevido e excessivo, o vínculo enrijecido impede uma separação, um nascimento para o mundo, impede que esse ser humano termine de se desenvolver, de estabelecer sua própria individualidade. Aqui é preciso saber perder o filho - para que ele possa se "ganhar". O adulto tem dificuldade de aceitar o crescimento e colocar-se diante de uma nova relação.

 

Seria interessante que, diante uma perda afetiva, especialmente a decorrente de afastamento, algumas questões fossem consideradas:

 

- examine sua perda, se ela é necessária ou não;

- examine as suas exigências, se o que você quer é conveniente para o seu filho, se implica abrir mão de algo;

- examine a sua situação, qual a natureza do vínculo com o seu filho, se tal vínculo permite que ele desenvolva sua liberdade e sua autonomia;

- examine sua flexibilidade, o que mudar para suportar melhor essa perda.

 

Toda a experiência, por mais dolorosa, nos ensina algo: aquilo que se aprendeu de positivo. É preciso lidar com as perdas para que, superando-as construtivamente, cada ser humano possa alcançar o mundo e viver a vida plenamente.

 

(Texto condensado de Perdendo filhos, da psicóloga Vanda L. P. Vasconcellos. In: Brasil Rotário, set. 1996).

 

 

 

Mãe, filha, avó e neta

 

 

Ah, mãe! Sentar-me para escrever sobre nós foi uma longa viagem de volta até onde consigo lembrar. Meu primeiro dia de aula no primeiro período da Irmã Seráfia, lembra? A senhora ansiosa, esperando meu choro e eu, na fila, tão empertigada quanta uma menina de 4 anos pode ser, viro para trás e digo: Pode ir embora, mamãe!

 

De antes, há lembranças meio esfumaçadas, peças soltas.

 

É engraçado como cada fase da vida adulta nos remete a uma época específica da infância. Já passei, com meus filhos, pela fase da fralda e da mamadeira.

 

Hoje atravesso a vida entre cadernos, pesquisas para quarta-feira (hoje é terça à noite...), coleguinhas, reunião de pais, reuniões no serviço, passeios no shopping, fitas de videogame."Mãe, pega o Felipe pra passar o dia aqui". Hora-extra para terminar o trabalho encomendado pelo chefe."Não esquece de devolver a fita na locadora"."Amanhã é aniversário da Letícia", tenho que comprar presente e não vai dar tempo na hora do almoço...

 

Agora, sim, estão aí todos os elementos (quase todos; só não havia shopping e videogame) que me transportam a outro tempo, a outra mãe, a outra profissional - e nossa história começa a ficar parecida, a se misturar.

Responde, mãe: como é que a senhora nunca faltava as reuniões de pais, as festinhas do Dia das Mães, a todos "programas de mãe"?

 

Até algum tempo atrás, até acontecer comigo, eu não havia me dado conta dessa difícil conciliação. Trabalhar fora, três crianças, casa, marido, festas juninas, vestidos de anjo, aniversários... e lá estava a senhora, sempre alegre e sorridente.

 

As lembranças me fazer voar de marcha a ré. A mãe que sou, briga com o terrível plástico de encapar caderno; a filha que fui pula de alegria ao ver a beleza do material novinho. A mãe de hoje se descabela para descobrir uma merenda que não volte sem ser tocada.

 

A filha de ontem adora o cheirinho do plástico da merendeira. A mãe de agora sabe que esperar acordada o filho chegar da festa é pior que não dormir por causa da dor de barriga do nenê - e reconhece os temores e angústias que apertavam o coração da mãe do passado...

 

A filha de ontem nunca vai esquecer a canjica com amendoim do aniversário dela em junho. A mãe de hoje não consegue "inventar" um aniversário em que a criançada se afaste do videogame.

 

A filha que fui lembra com carinho dos vestidos de organdi e tiras bordadas, feitos com capricho e carinho. A mãe que sou não pode entender - só achar graça - a filhota que detesta vestido; prefere bermuda, tênis e boné.

 

Desse passado tão misturado com o presente guardo na memória, mãe, uma de minhas melhores lembranças: a senhora me ensinando a dançar ao som dos 78 rotações de Al Johnson, Edith Piaf, Glenn Miller, Ivon Curi. Meu gosto pela música nasceu desses momentos.

 

E neste meu presente tão atribulado, às vezes sou obrigada a lhe pedir coisas que, tenho certeza, levam-na de volta ao passado: recortar figuras de revistas, fazer pesquisas sobre o cupim (aquela mesma, que é pra amanhã!), costurar remendos nos jeans para a festa junina, procurar no jornal algum artigo sobre a camada de ozônio; essas coisas de mãe-avó.

 

Sabe, mãe, são por essas e outras que experimento o gostinho bom de ser - ainda hoje, confesso, mais filha do que mãe.

 

E, na tentativa de reencontrar a menina de um dia, a mulher que sou tantas vezes, preciso de colo, carinho e cafuné, sabendo que ser mãe ou filha é questão de circunstância, há um tempo em que os papéis se mesclam, se confundem, se invertem, para recomeçar tudo de novo com a menininha que por enquanto é apenas filha e neta.

 

(Adaptado do texto de Maria Carmem Gomes Silveira. Revista Cláudia, maio 1995. p. 14)

 

 

 

Namoro: é preciso recriar o amor

 

Ao receber o convite para refletir, pensei que já sou velho. Mas outro juízo se contrapôs ao precedente: dentro de mim existe, convivendo simultaneamente, o velho e o jovem. Então a reflexão sobre o namoro traz à tona a juventude e a velhice.

 

O velho, que desponta atualmente em mim, se preocupa com o tempo de hoje: o assim chamado pós-moderno.Uma das características da pós-modernidade é notada pela destruição de tudo quanto é valor e limite.

 

Destruição da estrutura familiar, ética, social e religiosa. Não sobra nada. Não existem mais tradições, nem modelos. O tempo presente não se inspira mais no passado, não existem mais certezas nem verdades, muito menos caminhos. Não se cultiva mais a amizade, o amor, o respeito, a fidelidade e a partilha.

 

A educação humanista, há tempo, perdeu sua cátedra. O ápice da pós-modernidade se constitui no caos. Estamos vivendo, hoje, como dentro de um navio que afunda em alto mar: salve-se quem puder. O homem perdeu seu nome e a humanidade, a sua identidade.

 

Quando o inconsciente rompe no consciente, a pessoa perde o controle de si mesma e enlouquece.

 

Poder-se-ia dizer que a humanidade enlouqueceu, perdendo todo e qualquer referencial humano, vivendo embrutecida e tragicamente violenta. Pode ser que eu erre, mas, psicologicamente falando, arriscaria um diagnóstico provisório para a doença do mundo atual: o homem tornou-se um narcisista patológico, cuja característica principal é a onipotência ou a ousadia de considerar-se Deus.

 

O namoro. Dentro deste contexto, aparentemente pessimista e com raras e dignas exceções, coloco o namoro, que não é mais um caminho do amor, mas do impulso ou do irracional.

 

O namoro como relação afetiva perdeu para a relação com a morte como valor. Por incrível que pareça, hoje, cultua-se a morte.

 

Para afastar risos e descrédito quero tentar explicar-me: não havendo mais nada que segure o jovem, percebendo-se como o umbigo do mundo, julgando-se todo-poderoso, caminha a passos largos para o nada ou para a morte.

 

Perdeu-se o outro, então namora-se a morte como valor. Erotiza-se a agulha, a droga, o perigo, o trágico, a velocidade, o acidente e o crime. Enfim, ama-se o que é sádico, destruidor, exótico e paradoxal.

 

Então, não se namora mais porque a relação trocou de objeto. O jovem não erotiza mais a menina, mas a si mesmo, sádico, projetado nos objetos ou em situações altamente perigosas.

 

O narcisista patológico não se relaciona, mas ama-se a si mesmo com toda a alma e entendimento. A onipotência, como deificação de si mesmo, constitui uma defesa contra uma fraqueza brutal. Ninguém é tão fraco como aquele que se considera Deus.

 

A política, a economia, a ciência e a sociedade, mais do que nunca, criam deuses. A pobreza de afeto, de sentimento, de ausência de valorização do outro, são-lhes características marcantes. O pavor de depender de alguém torna-os independentes e supremos.

 

Se a essência do amor é dom e entrega, então a juventude atual precisa converter-se para poder amar. Hoje, falar de namoro como preparação para o casamento, e isso é motivo de piada. A reflexão sobre a necessidade de construir um lar sobre bases sólidas torna-se conversa mole com jeito de padre, freira ou gente beata.

 

Toda e qualquer natureza que é mutilada nos seus valores vitais, se vinga, mais cedo ou mais tarde.Quando o amor é crucificado, os céus clamam e a terra estremece.

 

Quando os valores humanos fundamentais e perenes são abolidos da face da terra, então tudo perde o sentido. Banido o amor, a humanidade embrutece e enlouquece. Pela observação dos sinais, pelo que se vê e ouve, têm-se a impressão de que a razão humana desgovernou-se e conduz a humanidade para o caos.

 

Jovens de todo mundo, amai! O eu da gente se estrutura ao redor de valores.

 

O homem adoece mentalmente quando perde os valores e se embrutece quando não se reconhece mais como criatura ou um ser relativo em relação ao absoluto.

 

Perdoem-me os educadores e a sociedade para o que vou afirmar: no meio deste mundo cão, é necessário construir um mundo novo; reconstruir a família para abolir a violência e o crime; trazer de volta a relação, centrada no conhecimento e na amizade para recuperar a saúde; recriar o amor para o curar o homem da loucura; estruturar um eu forte, permeado de valores, para evitar a erupção do caos.

 

Depois disso, arrisco-me em falar de namoro como um projeto promissor para o casamento: prelúdio encantador de uma sinfonia que extasia o casal pela vida a fora.

 

Quem namorou, casou e é fiel até que a morte os separe, descobriu que a dialética do amor é morte e ressurreição.

 

A única experiência de felicidade verdadeira é fruto ou conseqüência da morte-ressurreição e doação total de si mesmo. E a saúde mental passa por ai.

 

(Natal Fachini, jornalista e psicanalista. Texto publicado in Mundo Jovem. Porto Alegre, jun. 1997. p. 11)

 

 

 

Nossos filhos terão emprego?

 

A grande maioria das mães de adolescentes e pré-adolescentes se preocupa, com razão, com as perspectivas de emprego de seus filhos e filhas. As notícias sobre o fim do emprego, terceirização, globalização, níveis de desemprego são alarmantes para quem pretende iniciar uma carreira daqui a alguns poucos anos.

 

Quais são os fatos concretos?

 

1. As 500 maiores empresas brasileiras não acrescentaram um único emprego novo nos últimos dez anos. Pelo contrário, retiraram do mercado 400.000 postos de trabalho, passando a empregar somente 1,6 milhão de funcionários, o que representa insignificantes 2,3% dos trabalhadores brasileiros.

 

2. A globalização está dizimando não somente empresas brasileiras, mas setores inteiros.

 

3. O crescimento das importações não gera apenas um problemático déficit comercial, mas cria empregos no exterior em detrimento do emprego interno.

 

Sem querer dar a impressão de um mar de rosas, existem algumas considerações que amenizam esse quadro. Dificuldades os jovens terão, mas os argumentos abaixo serão úteis quando o pânico empregatício surgir novamente:

 

1. O crescimento das importações não durará para sempre no nível atual e nunca chegará a 90% do PIB, desempregando todo mundo, como uma simples extrapolação poderia sugerir.

 

Provavelmente estabilizaremos em torno de 15% as importações, como na Índia e nos Estados Unidos. Oitenta e cinco por cento do PIB será feito por brasileiros para brasileiros.

 

2. O grande gerador de emprego no mundo inteiro não é a grande empresa, e sim a pequena e a média. Quem emprega 97,3% da força de trabalho hoje em dia são a pequena e a média empresa, bastante esquecidas ultimamente nas prioridades econômicas do governo.

 

O governo FHC tem priorizado as grandes empresas, seja nas grandes privatizações, na busca de grandes investidores internacionais ou nas grandes reformas. A pequena e a média empresa mal figuram no discurso presidencial.

 

Elas ainda não figuram prioritariamente no discurso econômico, uma importante razão desse aumento do desemprego. Mais dia menos dia, alguém alertará FHC para o fato de que não se fomentarão os empregos de que precisamos somente baixando os juros.

 

3. Mas o principal argumento para acalmar mães aflitas é que o povo brasileiro ainda não consome seu primeiro e segundo televisores, como ocorre no Primeiro Mundo, nem seu quinto par de sapatos ou sua viagem a Fortaleza.

 

Enquanto esses desejos existirem, nossos filhos terão oportunidades incríveis para produzir os itens necessários para satisfazê-los.

 

O mercado brasileiro é incrível em termos de potencial e nosso problema hoje é exclusivamente de produção, não de mercado nem econômico.

 

Preocupadas, deveriam estar as mães alemãs, suíças e francesas, porque nesses países as pessoas já têm cinco pares de sapatos, três televisores em cada casa, um mercado saturado.

 

Nenhum europeu vai querer dois televisores em cada quarto nem dez pares de sapatos, pois não são a Imelda Marcos. Na Europa, não há mais emprego porque o consumismo europeu está chegando à saturação.

 

4. Se seu filho e sua filha souberem adquirir competência e conhecimentos práticos que sejam requeridos por esse novo mercado emergente, não terão dificuldades.

 

Quem não estiver minimamente preocupado com seu futuro profissional ou estiver freqüentando uma escola mais preocupada em ensinar o que era importante no passado do que o que será importante no futuro vai ficar sem ter o que fazer.

 

Não querendo deixar a impressão de que tudo será fácil nem de que estamos no caminho certo, quem decifrar o seguinte enigma não terá de se preocupar: no futuro faltarão empregos, mas não faltará trabalho.

Stephen Kanitz.Veja, Março 1998

 

Oh, devolvei, devolvamos os contos de fadas para as crianças

 

Que me permitam, a próposito de contos, narrar aqui uma pequena história.

Meu amigo Jacques entrou um dia numa padaria para comprar um pãozinho que chamara sua atenção. Pretendia levar o pão para um menino que havia perdido o apetite e só concordava em comer alguma coisa quando o distraíam. Pareceu a meu amigo que um pão tão bonito deveria apetecer até mesmo a um enfermo.

 

Enquanto esperava o troco, entrou na padaria um meninozinho de sete ou oito anos, pobremente vestido, mas muito limpo.

 

- Dona - disse ele à padeira - Mamãe me mandou buscar um pão...

A padeira subiu ao balcão (o caso se passou numa cidadezinha do interior) e tirou da vitrina das bisnagas de quatro libras o melhor pão que encontrou ali e o depositou nos braços do meninozinho.

 

Meu amigo Jacques reparou então na figura franzina e enfezada do pequeno comprador, que contrastava com o aspecto viçoso e rechonchudo do enorme pão, cujo peso ele mal parecia agüentar.

 

- Você trouxe o dinheiro? - indagou a padeira.

Os olhos do menino anuviaram.

 

- Não, senhora - respondeu, apertando a bisnaga contra o peito - Mamãe disse que vem falar com a senhora amanhã.

 

- Está bem - disse a padeira bondosamente - pode levar o pão, meu filho.

 

- Obrigado, dona - falou o meninozinho.

 

Meu amigo Jacques recebeu o seu troco, meteu sua compra no bolso e se preparava para sair quanto notou, parado às suas costas, o menino do pão, que ele julgava já estar longe.

 

- Que é que você está fazendo aí? - perguntou a padeira ao menino, que ela também imaginava já ter ido embora. - Não ficou satisfeito com o seu pão?

 

- Oh, fiquei sim - falou o garotinho.

 

- Pois então vá levá-lo para a sua mamãe, meu pequeno. Se você demorar, ela vai pensar que ficou brincando pelo caminho e vai ralhar com você.

O menino não pareceu ter ouvido. Alguma coisa parecia atrair toda a sua atenção. A padeira aproximou-se e deu-lhe um tapinha carinhoso no rosto.

 

- Em que é que você está pensando, em vez de ir embora? - falou ela.

- Que é isso que está cantando aqui? - perguntou o meninozinho.

 

- Ninguém está cantando aqui - respondeu a padeira.

 

- Está sim - insistiu o menino. - Ouça: Cuic, cuic, cuic, cuic...

 

- A padeira e o meu amigo Jacques apuraram o ouvido, mas nada ouviram a não ser o refrão de alguns grilos, hóspedes costumeiros das casas onde é feito o pão.

 

- Será um passarinho - indagou o garoto - ou é o pão que canta quando está assando, como as maçãs?

 

- Não é nada disso, meu tolinho - falou a padeira. - São os grilos. Eles cantam onde está sendo feito o pão porque o forno acaba de ser aceso, e a vista das labaredas os deixa contentes.

 

- Os grilos! - exclamou o meninozinho. - Eles são o que a gente costuma chamar de cri-cri?

 

- Isso mesmo - respondeu pacientemente a padeira.

O rosto do menino se iluminou.

 

- Dona - falou ele, corando diante da ousadia de seu pedido - eu ia ficar muito contente se a senhora me desse um cri-cri...

 

- Um cri-cri? - sorriu a padeira. - Que é que você vai fazer com um cri-cri, benzinho? Está bem, se eu puder dar a você todos os que andam aqui pela casa, farei isso agora.

 

- Oh, basta que me dê só um, se a senhora puder! - falou o menino juntando as mãozinhas pálidas acima do seu enorme pão. - Ouvi dizer que os cri-cris trazem felicidade para as casas. Quem sabe se nossa casa tivesse um, a Mamãe, que tem tanta tristeza, nunca mais chorasse...

 

Meu amigo Jacques olhou para a padeira. Era um bela mulher, de rosadas faces. Ela enxugou os olhos com a ponta do avental, e se o meu amigo Jacques também estivesse usando um, teria feito o mesmo.

 

- E por que a sua pobre mamãe chora tanto? - indagou o meu amigo Jacques, que não pôde evitar de se meter na conversa.

 

- Por causa das contas, senhor - falou o garotinho. - Meu pai morreu, e por mais que a Mamãe trabalhe, nós nunca conseguimos pagar todas as contas.

Meu amigo Jacques levantou em seus braços o menino, e junto com ele o pão e creio que abraçou os dois.

 

Enquanto isso a padeira, que não tinha coragem de pegar ela própria os grilos, desceu até a sala de fazer pão e pediu ao marido que recolhesse uns quatro, os quais foram colocados numa caixa com alguns buracos na tampa, para que eles pudessem respirar; em seguida entregou a caixa ao meninozinho, que foi embora todo contente.

 

Quando ele partiu, a padeira e meu amigo Jacques apertaram-se as mãos calorosamente.

 

- Pobre criança! - falaram os dois juntos.

 

A padeira apanhou então o seu livro de contas, abriu-o na página onde estavam anotadas as dívidas da mãe do meninozinho e traçou um grande risco atravessando a página, porque as contas eram muitas, escrevendo embaixo: pago.

 

Enquanto isso o meu amigo Jacques havia colocado sobre uma folha de papel, para não perder tempo, todo o dinheiro que trazia nos bolsos - que, por sorte, era bastante naquele dia - e pediu à padeira que o enviasse o mais rápido possível à mamãe do menino dos cri-cris, junto com a nota de quitação de suas contas e um bilhete dizendo que ela possuía um filho que um dia seria a sua alegria e o seu consolo. Entregaram tudo a um padeirinho de longas pernas, recomendando-lhe que se desincumbisse com toda a presteza da missão.

 

O menino, com o seu enorme pão, seus quatros grilos e suas curtas pernas, não pôde andar tão depressa quanto o padeirinho; de forma que, ao chegar em casa encontrou a sua mamãe, pela primeira vez em muito tempo, com os olhos afastados do trabalho e um sorriso de paz e felicidade em seus lábios.

 

Ele acreditou que foi a chegada dos seus quatro bichinhos escuros que tinha feito o milagre, e na minha opinião ele não estava errado. Será que sem os cri-cris e o seu bom coração teria ocorrido aquela feliz mudança no humilde destino de sua mãe?

 

Para que servirá esta historieta? Servirá para responder por um fato - por insignificante que seja - a essa categoria de espíritos positivos demais que pretendem hoje, em nome da razão, banir o maravilhoso do repertório da infância.

 

Nada, absolutamente nada podereis revelar às crianças, se pretendeis ocultar-lhes o maravilhoso, o inexplicado, o inexplicável, o impossível, que são encontrados no real tanto quanto no imaginário.

 

Oh, devolvei, devolvamos os contos de fadas para as crianças, se não formos bastante puros para voltarmos nós próprios a eles.

 

(Texto adaptado. P. J. Stahl. A respeito dos contos de fadas. Introdução. Charles Perrault. Contos de Perrault. Belo Horizonte : Villa Rica, 1992. p. 15-21.)

 

 

 

Para que serve o roteiro de estudos?

 

O Roteiro de Estudos é um instrumento facilitador do Plano de Estudos da criança. Se prestarmos atenção bem direitinho, vamos verificar que ele já foi desdobrado através da Agenda Diária.

 

Daí, interpretá-lo como orientação só no período de avaliações é deixar de entender o estudo como processo.

 

Estudar é um trabalho sistemático, diário, contínuo. Incorre-se em erro pensar que se deve aguardar o Roteiro de Estudos, e só depois de tê-lo em mãos estudar "para as avaliações". Mesmo porque não se estuda para isso e sim para a vida.

 

Então para que serve o Roteiro de Estudos? É para oferecer ao educando uma visão de conjunto dos conteúdos até então desenvolvidos.

 

A Escola entende que a reapresentação dos conteúdos de maneira agrupada (lembre-se do seu desdobramento na Agenda Diária) pode também ajudar na sua compreensão global, contribuindo para visualizar as relações entre eles.

 

É uma maneira de construir uma concepção de mundo com base na organização, na sistematização, na inter-relação - potencializando oportunidades para o raciocínio se desenvolver.

 

O objetivo não é só facilitar os estudos no "período de avaliação". É preciso que a família compreenda que a Escola não recomenda ênfase nos estudos episódicos. Estudar é uma obrigação diária. Se o aluno encarar o ato de estudar como processo, a revisão torna-se proveitosa. O Roteiro de Estudos cumpre a sua finalidade.

 

Na verdade, não existe "um período de avaliações" na Escola. As demais atividades da Escola continuam - não havendo porque, por parte da família, criar um clima especial para a semana em que se realizam, também, as avaliações.

 

É contra-educativo qualquer ânimo que enseje tensão, ansiedade, para o educando nesta ou em qualquer outra etapa do calendário escolar.

 

Esperamos que o Roteiro de Estudos seja bem compreendido e utilizado pela família e pelo educando. Só assim todos nós, família e Escola, podemos afirmar que a nossa única preocupação é com o crescimento do aluno.

Bons estudos para todos! Sucesso!

Paz e Bem.

 

Marcílio Flávio Rangel de Farias - Diretor

 

 

 

O pataxó e o bacalhau

 

NINGUÉM da minha geração passou pela infância sem bom tapa na bunda por recusar óleo de fígado de bacalhau.

 

Garanto, todos se lembram do gosto intragável daquele verdadeiro purgante que, segundo a propaganda, garantiria saúde na juventude e pela vida inteira.

 

Da memória não sai, também, a imagem do pescador carregando o enorme bacalhau. Azar o nosso, meu e dos sete irmãos. Papai, farmacêutico, garantia estoque inesgotável, mesmo que o mais ousado desse sumiço no vidro de plantão.

 

Se todos têm trauma do homem do bacalhau, me julgo no direito de trauma maior. E só por causa de uma tarde de sexta-feira.

 

Um desgraçado peixeiro passou pela farmácia, onde eu era o titular da faxina e da entrega, e convenceu papai das qualidades de um surubim, recém-chegado das águas de Três Marias.

 

Já pensando no domingo, no próprio e no almoço da turma, o velho fechou o negócio. O problema é que o danado do peixe não ficava bem na farmácia e, tampouco, fora da geladeira.

 

Prático nas coisas da roça - e como falta roça na vida de hoje! - o velho fez um buraco na boca do peixe, passou laçada forte de barbante, pediu-me que estendesse o dedo indicador da mão direita e fez o que sempre fazia: deu a ordem, taxativa, irrevogável.

 

O problema é mamãe estava a 10 quilômetros de distância e não ficava bem, para um garotão de 13 a 14 anos, desfilar pela rua Padre Eustáquio, a mais movimentada do Carlos Prates, com um peixe daquele nas costas. Inadmissível o risco de cruzar com alguma das muitas namoradas que ele imaginava ter fisgado na última "hora dançante", ao som de Roberto, Erasmo, Wanderléia...

 

Não, definitivamente, não dava para encarar suprema humilhação. Resistir é preciso, pensei, até porque vivíamos a época da resistência. Encarei o velho. Decidi que era a hora de romper com o autoritarismo. Era preciso, como se diz hoje, chutar o pau da barraca.

 

Faltou foi tempo para executar o decidido. Para tamanha ousadia, só uma conseqüência: um baita de um catiripapo na orelha e, com ela quente e vermelha, chorando, nariz escorrendo, surubim às costas, tomei o rumo de casa para levar o maravilhoso, eternamente maravilhoso, almoço dominical da Dona Adélia.

 

Hoje o Brasil continua falando dos garotos de Brasília. Daqueles que pirotecnisaram Galdino, o Pataxó. Meus filhos também são daqui. São jovens. Acabaram de ir para cama.

 

Segunda-feira, escola. O corre-corre de sempre. Paciência, diálogo, psicologia... Angústia, questionamento, dúvidas. Alegrias, emoções. Obrigações, trabalho. Sou pai, sou filho do velho Humberto, o marido de Dona Adélia. Sofremos o supremo radicalismo dele.

 

Quem conheceu se lembra, simplesmente exagerado. Mas, nos dias de hoje, me pergunto: eu, tu, ele, nós... estamos todos, em Brasília, em Belô, em qualquer lugar, agindo certo com a moçada?

 

Estamos sabendo impor limites? Estamos dosando certo as liberdades que nunca tivemos ou estamos usando nossos filhos para resistir a um modelo de sociedade que não resiste a mais nada?

 

O velho Humberto estava certo? Aí me assalta a pior das dúvidas: não está faltando passar na farmácia para comprar óleo de fígado de bacalhau?

 

Uma certeza eu tenho: óleo e catiripapo, na juventude, fazem muito bem à saúde.

 

(Leonel da Mata. Jornalista. Jornal O Dia. Teresina, 3 mai. 1997. p. 4)

 

 

 

Do QI às múltiplas inteligências: quase um século de história

 

Para localizarmos a origem desta história, teremos que nos reportar ao início do século, mais precisamente em 1905, quando foi solicitado ao psicólogo francês Alfred Binet uma bateria de testes para verificar como se sairiam as crianças francesas, nos bancos escolares.

 

Binet elabora então uma avaliação que não pretendia mensurar e rotular numericamente o sujeito em questão, até por preocupações de indiretamente traçar o seu futuro.

 

Na realidade, Binet simplesmente comparava o padrão médio de resultados mentais de uma faixa etária, com o resultado do indivíduo analisado, e este por sua vez à idade cronológica, desta forma, simplesmente por comparação, identificaria o sujeito acima ou abaixo da média padrão daquela idade.

 

Alguns anos mais tarde, W. Stern divide a idade mental (IM) pela cronológica (IC) multiplicando este coeficiente por 100, dando então origem ao QI.

 

Deste momento em diante os indivíduos, passaram a ser mensurados e numericamente rotulados com QIs de 100, 90, 120 etc e, desta forma, tendo seu futuro pré-estabelecido na sociedade em função do seu QI.

 

Aproximadamente 70 anos perpetuaram o QI como fator decisório no sucesso de um indivíduo na sociedade em que este vivesse, até que o psicólogo americano Howard Gardner e sua equipe começassem a desenvolver um trabalho de pequisa mais profunda, nos testes de QI, nos sujeitos de "pouca inteligência" e finalmente naquilo que a escola se preocupava em destacar como o mais importante para desenvolver a Inteligência de seus alunos.

 

Gardner começa a notar então que o teste de QI e seus similares privilegiam apenas as áreas lógico-matemática e lingüística, e que por sua vez estas eram as áreas de maior, se não total, atuação nas escolas.

 

É óbvio então concluir que um sujeito de alto QI, ao entrar na escola ou universidade se sairá muito bem, pois os dois encaminham seu processo para as mesmas áreas, ou seja a lógico-matemática e a lingüística.

 

Mas alguns sujeitos foram rotulados como "pouco inteligentes", e de alguma forma tiveram sucesso na sociedade, pois são excelentes profissionais em suas áreas de atuação. Mas como isto poderia acontecer se eles possuem baixo QI?

 

Na realidade, eles possuem inteligências não desenvolvidas nas áreas privilegiadas pelo teste de QI, porém se tiveram sucesso é porque com certeza devem possuir outras inteligências desenvolvidas, de tal sorte a solucionar seus problemas diários e conquistarem o sucesso na sociedade em que vivem.

 

Com base nesta linha de análise, Gardner estabelece então que a INTELIGÊNCIA é a capacidade de resolver problemas, de qualquer forma ou espécie, e que portanto um sujeito não possui uma única inteligência, como algo fechado e imutável, mas sim possui Múltiplas Inteligências que podem e devem ser desenvolvidas, de tal forma a resolver qualquer espécie de problema.

 

Desta forma as Inteligências são encaradas como multifacetadas, como um espectro de competências, que por estímulos poderão se desenvolver mais ou menos.

 

Gardner e sua equipe estudam algumas áreas da inteligência e definem então sete inteligências:

 

Inteligência lógico-matemática - Capacidade que um sujeito tem de lidar bem com os números, cálculos e com a lógica de forma geral.

 

Inteligência lingüística - Capacidade que um sujeito tem de se comunicar muito bem verbalmente ou por escrito, característica esta notada nos políticos, oradores, escritores, poetas.

 

Inteligência musical - Capacidade que tem um sujeito tem de ler, escrever e interpretar uma música, ou até mesmo de comunicar se por ela.

 

Inteligência espacial - Capacidade que um sujeito possui de visualizar, entender no plano algo de caráter espacial. Como um arquiteto que desenha uma planta de um prédio de 40 andares, com seus respectivos detalhes internos e externos, ou ainda um navegador que se localiza num mapa de navegação.

 

Inteligência corporal-cinestésica - Capacidade que um sujeito possui de, com o seu corpo e o movimento provocado por ele, resolver um problema, fato este constatado nos atletas principalmente.

 

Inteligência interpessoal - Capacidade que um sujeito tem de comunicar-se e relacionar-se muito bem com um grupo, entendendo a individudalização de cada membro, de tal maneira a conduzi-los se necessário a um determinado objetivo.

 

Inteligência intrapessoal - Capacidade que um sujeito tem de conhecer a si próprio,reconhecendo desta forma suas limitações e desta forma encontrar caminhos e mecanismos para romper suas barreiras.

 

Em maior destaque, propaga-se a Inteligência Emocional, que está diretamente relacionada às Inteligências Pessoais (inter e intra). Tal destaque deve-se principalmente pelo marketing executado ao seu redor, colocando esta área de inteligência como "salvadora" de todos os problemas sócio-econômicos da humanidade.

 

É óbvio sua importância, principalmente no desenvolvimento das crianças, porém é necessário precaver-se do "comércio" instalado ao seu redor, que apresenta hoje à sociedade formas de se medir o emocional de de um sujeito, como se isto fosse a coisa mais simples do mundo.

 

Não podemos esquecer que levamos quase um século para iniciarmos o processo de "jogar pela janela" o QI, que ao mensurar o indivíduo, já estabelecia o seu futuro, e agora estamos prestes a comprar o QE, que irá estabelecer numericamente o emocional de uma pessoa.

 

Acreditamos que um sujeito não pode, e nem deve ser rotulado por um número, pois enquanto aprendiz ele poderá se desenvolver mais ou menos nas diferentes áreas, dependendo inclusive do educador, que como mediador, agora não poderá encarar seu aluno como possuidor ou não de Inteligência, e sim como um indivíduo carente e sedento de estímulos, para como um cristal, ter suas inteligências lapidadas e multifacetadas.

 

(Nilbo Ribeiro Nogueira. Psicopedagogo. Escola On Line. Informativo da Futurekids para o Professor. Maio. 1997)

 

Qualidade da educação e eficiência econômica

 

(Doutor Moacir Gadotti, Professor Titular da USP, Diretor do Instituto Paulo Freire e palestrante de renome nacional)

 

A qualidade da educação é condição da eficiência economica. Esta é uma tese cada vez mais defendida tanto por empresários quanto por educadores. Contudo, essa tem sido também uma tese compreendida de muitas maneiras.

 

No passado, alguns sustentatam que todas as escolas deveriam formar para o trabalho através da obrigatoriedade do ensino técnico-profissionalizante. Estava na Lei 5.692/71. E demorou muito para se perceber o equívoco. Só em 1984 é que uma lei complementar tornou facultativo o ensino profissionalizante nas escolas de segundo grau.

 

Outros, em contrapartida, sugeriram a criaçãode uma formação politécnica, numa época em que a diversidade profissional exige especializações e atualizações permanentes. A idéia não seria ruim se essa politecnia não fosse entendida como formação de generalistas.

 

Hoje fala-se de uma educação para a competividade, entendendo-se que as pessoas para serem competentes, devem ser competitivas. Outro equívoco. As pessoas não são competentes porque são competitivas, mas porque são capazes de responder a problemas concretos a elas apresentados.

 

Uma empresa de qualidade hoje exige de seus funcionários autonomia intelectual, capacidade de pensar, de ser cidadão.

 

A qualidade do trabalhador não se mede mais pela resposta a estímulos momentâneos e conjunturais, mas pela sua capacidade de tomar decisões. O trabalhador deve ser hoje polivalente? Sim. Mas não como um generalista.

 

Ele deve ser polivalente no sentido de que possui uma boa base de cultura geral que lhe permite compreender o sentido do que está fazendo. E isso pode ser oferecido por todas as escolas.

 

O sistema produtivo é também uma vítima da má qualidade da educação. A julgar pelos investimentos que os empresários brasileiros estão fazendo na educação, essa ainda não é uma tese tão difundida quanto a primeira. O setor produtivo investe relativamente pouco em educação básica e profissional, em comparação com outros países.

 

O empresariado alemão, por exemplo, investe hoje em educação básica o equivalente ao que a Alemanha investe nas suas escolas públicas. Uma única Universidade norte-americana, a Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), recebeu, no ano passado, da empresa privada, 300 milhões de dólares na forma de doação e convênios.

 

A educação é um dever do Estado? Sim. Mas é também responsabilidade da sociedade, da família e, supletivamente, da empresa. Este é um enorme campo aberto à criatividade social para o qual são chamados hoje a colaborar tanto intelectuais e educadores quanto empresários e políticos.

 

 

Saída antecipada do aluno da sala de aula: contra-indicações pedagógicas

 

O Brasil é um país que malversa o calendário letivo de maneira impiedosa. Além dos feriados oficiais (federais, estaduais e municipais), dos dias santificados, dos feriados culturalmente impostos, dos pontos facultativos, dos finais de semana esticados, das férias, dos sábados e domingos - as famílias, que fazem um sacrifício incomensurável para colocar os filhos na

 

Escola, ainda exercem pressão para que eles sejam liberados antes de se terminar a jornada diária de estudos. Um paradoxo de difícil entendimento.

A família, quando pressiona a Escola para liberar os filhos antecipadamente, abre um leque de riscos para as atividades escolares sistemáticas:

 

- primeiro, coloca em questão a sua própria autoridade, ao incompreensivelmente impor aos próprios filhos um caminho que diz não desejar;

 

- segundo, coloca em dúvida a eficácia do processo disciplinador para a vida e de amplo alcance no plano da cidadania, que a Escola trabalha de maneira coerente;

 

- terceiro, produz uma série de conseqüências de caráter epistemológico: o educando, ao perder a seqüência dos conteúdos sistematizados, provoca lacunas de superação sensível e passa a ter dificuldades para acompanhar as exposições do Professor; o educando, ao mesmo tempo, compromete o nível da sua Turma; o educando, finalmente, começa a ficar na dependência de atividades suplementares que, por mais que o Professor se empenhe, nunca mais terão o mesmo efeito pela desconexão com um ambiente que se encontra mais à frente.

 

A família, por outro lado, ao optar pela proposta pedagógica que esta Escola oferece à sociedade piauiense, o fez livre e soberamente e com pleno conhecimento de suas implicações no cotidiano familiar.

 

Dessa forma, a Escola não pode aceitar a ruptura unilateral, por parte da família, do pacto firmado com o propósito exclusivo de promover o educando - não só para bem prosseguir os estudos mas, essencialmente, para transformá-lo num cidadão consciente das suas responsabilidades perante a sociedade.

 

A Escola, não pode aceitar igualmente um alunado com esta característica que foge totalmente ao direcionamento estabelecido pela linha filosófica que norteia as suas atividades. Esta tipologia de alunado coloca em risco a proposta da Escola.

 

Todas as pessoas que contam com a presença (em qualquer tipo de evento) de um aluno que foi retirado de maneira inconveniente da sala de aula, com certeza ficam constrangidas e profundamente envergonhadas com tal presença. Esteja ela na terra ou no céu.

 

Dessa forma, solicitamos encarecidamente às familias dos nossos educandos: não pressionem a Escola para liberar os alunos antes do término das aulas.

 

Não criem feriados fictícios comprometedores do sucesso escolar deles. Não retirem o sentido da Escola: a Escola só tem sentido se o aluno freqüentá-la sistematicamente.

 

Não contribuam para agravar as estatísticas educacionais deprimentes que envergonham o nosso país. Jamais sugiram aos educandos oportunidades para não virem à Escola ou para saírem da sala de aula antecipadamente, qualquer que seja o motivo, qualquer que seja a razão.

 

Vamos todos, juntos e solidariamente, evitar que o aluno falte às aulas, a qualquer título. Paz e Bem.

 

Marcílio Flávio Rangel de Farias - Diretor

 

 

 

Segurança na hora de saída do aluno após o término das aulas diárias

 

O Instituto Dom Barreto, ano a ano, mantém-se vigilante diante das questões relacionadas com a segurança do aluno.

 

Com esse propósito, busca ampliar os locais de saída/entrada de alunos (Portarias) para agilizar o escoamento do tráfego, busca exercer uma fiscalização mais rigorosa do trânsito nas imediações da Escola e busca, sobretudo, controlar a saída dos alunos após o término diário das aulas.

 

O Crachá de Controle de Saída de Alunos, ora entregue, é um instrumento criado com o objetivo de oferecer, a cada família, segurança na hora da saída diária do aluno após o término das aulas.

 

É importante que cada família estimule o seu uso correto diariamente. Ajude o seu filho a compreender a importância do Crachá. Eis algumas sugestões para essa orientação:

 

- Todo dia, ao sair da Escola, o Crachá deverá estar afixado no bolso da roupa, ou na mochila ou, ainda, ser apresentado à pessoa responsável pela Portaria;

 

- O Crachá deve ser guardado na mochila (ou na pasta), após o aluno sair da Escola para evitar perda ou extravio. (Lembre-se: o Crachá é um documento de segurança de interesse pessoal da família);

 

- Nos casos emergenciais, em que a criança deva ser apanhada por uma pessoa cujo nome não conste do Crachá, a família deve mandar um bilhete à Escola (de preferência, mandar através do próprio aluno, para sua maior segurança) ou telefonar avisando quem vem pegar a criança;

 

- No caso de perda ou extravio do Crachá, comunicar imediatamente à Escola. E no caso de alterações de nomes de pessoas responsáveis para apanhar a criança na hora da saída, solicitar por escrito.

 

Contando com a colaboração de cada pai e de cada mãe em benefício da criança, ao ensejo renovamos nossas manifestações de apreço.

Paz e Bem.

 

Marcílio Flávio Rangel de Farias - Diretor

 

 

 

Senhores Pais: as tarefas escolares são um exercício de cidadania

 

Sabendo que o ser humano é incluído na sociedade através do conhecimento, através da aprendizagem e que a Escola é participante neste processo, pergunta-se: se a criança passa grande parte de sua vida na

 

Escola e nela faz uma série de tarefas, como seria a relação Professor/Aluno/Tarefas? Em que essas tarefas contribuiriam na formação desse aluno como cidadão? Possibilitariam a autoria do pensamento?

 

Vê-se, então, a importante relação existente entre Tarefas/Escola/Cidadania. Será que a Escola, como ensinante, permite um espaço de autoria para seus alunos, proporcionando-lhes a construção da autonomia? Essas tarefas escolares exercitam o pensamento desses alunos, despertando e desenvolvendo a curiosidade e a criatividade?

 

Cabe à família, escola, nação... criarem oportunidades para que a criança possa exercer o pensamento, tornando-se assim, cidadão livre, com capacidade de reflexão, de discernimento, atuante no mundo, explorando-o, transfor-mando-o e vivendo neste mundo, dignamente, como ser humano que é.

 

Refletindo sobre estes aspectos observa-se que num país onde o número de analfabetos é relevante, parece não ser a preocupação dos governantes desenvolver propostas pedagógicas que estimulem o pensamento crítico, a autoria, a autonomia, a politização do sujeito permitindo que esse sujeito ocupe o lugar que lhe compete na sociedade por direito.

 

Saindo dessa queixa repetitiva, buscando uma escuta psicopedagógica para uma atuação pedagógica, pode-se pensar em como e onde fazer mudanças e, então, vê-se a necessidade de observar alguns fatores.

 

Entre eles, res-saltamos o Desenvolvimento cognitivo (objetividade) e Desenvolvimento afetivo (subjetividade), por entendermos que o ser humano não é apenas biológico. Suas emoções, seus valores, seus conhecimentos, seus pensamentos devem ser considerados.

 

Acreditando na interferência desses fatores na vida da criança, do aluno, do professor, sabe-se que é somente através da compreensão deles é que é possível proporcionar ao aluno meios de se desenvolver e se tornar um sujeito ativo, atuante no mundo onde vive, um agente transformador, logo as ações do aluno interagindo no meio serão rico material para a assimilação e acomodação, proporcionando o exercício das estruturas mentais, tornando-se, assim, capaz de lidar melhor com o seu mundo interno e com o seu mundo externo.

 

Podemos dizer que o ser humano aprende não só com base num conceito, mas também fundado na sua vivência e lembrança, ou seja, através da sua experiência, que um conhecimento não é só o seu conteúdo, mas também a significação que esse conteúdo possa ter.

 

Podemos pensar estar aí a necessidade de considerarmos a triangulação Professor/Aluno/Tarefas.

 

Um vínculo saudável, uma relação harmoniosa entre os elementos dessa triangulação, que é de suma importância para a aprendizagem, logo para a inclusão do ser humano no mundo enquanto pessoa, enquanto emoção, enquanto profissional...

 

Isso quer dizer que o professor precisa, inicialmente, formar um vínculo (em dupla) com esse aluno. Quando esse vínculo estiver estabelecido o professor deve dirigir o olhar para o terceiro elemento da relação (tarefas).

 

Pensamos que dessa forma, a tarefa vista como algo bom, que pode ser introduzido como positivo, possibilite ao aluno um desejo de incluí-la em seu cotidiano de uma forma prazerosa. Ao lidar com as tarefas de uma maneira não prazerosa, estas podem ser geradoras de angústia.

 

As tarefas escolares, não raro, são as primeiras tarefas atribuídas à criança.

 

A forma como ela se relaciona com essas tarefas, parece ser a forma da sua relação com as tarefas pessoas como cidadão, posteriormente.

 

É como ela vai lidar com o tempo em relação as essas tarefas, com a responsabilidade no cumprimento delas, com a assiduidade, com as angústias, com o prazer e o desprazer que essas tarefas podem proporcionar ou não.

 

Todo esse movimento de fazer das Tarefas um momento para os sonhos, um convite para o novo, à criação, ao prazer de ser "ensinante" e "aprendente" é um constante exercício de cidadania para com o ser humano, logo para com a sociedade.

 

(Cláudia Maia. Psicopedagoga. Jornal Psicopedagogia da Associação Brasileira de Psicopedagogia-Seção Goiás. Goiânia, abr./maio 1997)

 

 

 

Sete coisas que os pais inteligentes calam

 

Observações assim, tão comuns, podem magoar fundo seus filhos e minar a autoconfiança

 

Minha mão tremia quando olhei para a longa lista de notas 2 e 1 na caderneta de meu filho, aluno do 9 grau. "Não lhe avisei que isso ia acontecer?", perguntei acusadoramente.

 

De pé, de costas voltadas para mim, ele se mantinha silencioso. Insisti. "Seu problema é ser pura e simplesmente um preguiçoso."

 

Depois, enfurecida por seu silêncio, continuei: "Nem sequer vale a pena tentar falar com você. Não vai jamais chegar a ser coisa nenhuma!".

Tinha acabado de atacar meu filho com três tipos de observação que, segundo os especialistas, são dos mais prejudiciais para eles; uma afirmação onipotente do tipo "Eu não lhe disse?", um rótulo negativo e uma condenação cega de seu futuro. Envolvida em minha própria zanga e frustração, rebaixei-o e malquistei-me com ele, fazendo que uma situação já por si ruim se tornasse ainda pior.

 

De vez em quando, qualquer um diz coisas infelizes aos filhos, e eles normalmente sobrevivem intatos. Mas um padrão persistente de observações desse gênero pode provocar danos para toda a vida. "É em casa que as crianças aprendem a maior parte de suas aptidões de comunicação", alerta Michael Beatty, professor de Comunicação da Universidade de Estadual de Cleveland, em Ohio.

 

"As que são alvos crônicos de insultos e crítica transformam-se em adultos com tendência para recorrerem à mesma linguagem negativa." Isso pode provocar-lhes dificuldades no emprego e com seus cônjuges e filhos.

 

Psicólogos, educadores e outros especialistas identificaram os comentários mais destrutivos que os pais podem dirigir a seus filhos. Se você costuma fazer esse tipo de comentário que aparentemente não são tão prejudiciais, pode estar minando a sensação de bem estar dele, tanto hoje como no futuro. Eis aqui sete das coisas mais comuns e destrutivas que os pais podem dizer aos seus filhos:

 

Você devia tê-lo feito desta forma. Em seu livro The Self-Confident Child (A Criança Auto-confiante), a Dra. Jean Yoder e William Proctor descrevem uma criança em idade pré-escolar que, depois de muito esforço, aprende a dar o nó nos cordões de seus sapatos.

 

Orgulhosa, ela exibe seu feito ao pai. "Ótimo", responde ele. "Mas você devia antes ter visto se os sapatos estavam calçados nos pés certos."

 

Kevin Leman, psicólogo de Tucson, Arizona, e um dos apresentadores de "Parent Talk" (Conversa com os Pais), um programa nacional de rádio, avisa que nunca se deve usar esses "você devia" ao dirigir-se a uma criança. "Não fique sempre corrigindo-a", ensina ele.

 

Quando os elogios são misturados com críticas, os mais jovens tendem a se concentrar no lado negativo.

 

"Se sua filha de 5 anos fizer a cama e você imediatamente ajeitar melhor o travesseiro, ao mesmo tempo que lhe diz que a cama está muito bem feita, ela pensará: 'A mamãe está me dizendo que fiz bem a cama, mas eu acho que podia ter feito melhor.' "

 

Um pai de cinco filhos, em Lowell, Massachussetts, recorda um incidente passado quando estava treinando o time de beisebol de seu filho de 12 anos. "Perto do fim do jogo, estando o escore muito aproximado, tocou a meu filho ser o rebatedor", conta o pai.

 

"Ele falhou. Não parei de falar enquanto ele voltava a banco. Mostrei-lhe como é que devia ter segurado o bastão. Disse também: 'Uma criança de 9 anos teria conseguido acertar aquela bola.' "O menino se sentiu arrasado.

 

Magoado pela constante depreciação do pai, ele passou a andar taciturno e a se dar pouco com os outros. Por fim, o homem percebeu que a culpa era das palavras duras que lhe dirigia. "Aprendi que, em vez de engrossar, faz mais sentido conversar com o filho sobre o que se passou de errado e como agir para ele não voltar a repetir o erro."

 

Até as críticas construtivas podem magoar se enunciadas no momento errado. Por exemplo, logo a seguir a uma criança ter estragado algo em que ela trabalhava.

 

É nesse momento que ela está mais vulnerável. Como nem você nem ela podem alterar um resultado desanimador, por vezes é melhor evitar discutir logo o assunto.

 

"Mais tarde, empenhe-se em discutir os sentimentos dela e em encontrarem juntos formas de melhorar seu desempenho", sugere Anita Vangelisti, assistente de Comunicação Oral na Universidade do Texas, em Austin.

 

Isso aí na sua cabeça é cabelo ou esfregão de assoalho? A zombaria dos pais é a mais dolorosa de todas, avisa a Dra. Carole Lieberman, psiquiatra de Beverly Hills, Califórnia. "As crianças olham para os pais como para um espelho que lhes diz quem são neste mundo", explica ela. A troça cria insegurança, porque a criança nunca sabe se os pais estão falando a sério ou não.

 

E é freqüente essa insegurança persistir depois. "Eu era uma criança gordinha" recorda Vangelisti, "e mamãe passava a vida me dizendo que eu tinha a constituição de uma sólida casinha de tijolo.

 

Eu sabia que ela não estava tentando me magoar. Estava era dizendo: 'Esta é a nossa filhinha robusta e saudável'. Apesar disso, aquilo me feria. Só adulta foi que perdi a sensibilidade à troça."

 

Num estudo clínico levado a efeito no Centro Yale de Doenças Alimentares e do Peso, em New Haven, Connecticut, com 40 mulheres com excesso de peso, os pesquisadores examinaram as relações entre o amor-próprio e o fato de ser objeto de gozação por causa de excesso de peso ou do volume que se tem.

 

As analisandas que reportaram uma freqüência maior da troça em motivo de seu peso quando estavam em idade de crescimento tinham uma idéia mais negativa de sua aparência quando adultas.

 

Você não está falando a sério! Mãe e educadora, Adele Faber, co-autora de How To Talk So Kids Can Learn at Home and at School (Como Falar com Crianças de Modo que Possam Aprender em Casa e na Escola), recorda o dia em que sua filha anunciou: "Odeio a vovó".

 

Instintivamente, Adele começou a defendê-la. "Isso é uma coisa terrível de dizer. Você não está falando a sério!"

 

Depois, deu-se conta de que tinha afirmado à sua filha que seus sentimentos não eram tomados em consideração. Quando se nega constantemente seus sentimentos, nossos filhos depreendem que o melhor é não exprimi-los. Pensam que devem guardar a zanga e outras emoções dentro de si.

 

Uma higienista dental de San Antonio ainda hoje se sente aterrorizada por um método que adotava freqüentemente quando estava educando seus três filhos. "Eu tinha uma solução para cada problema", recorda ela.

 

"Quando minha filha não entrou para o grupo de animadoras da torcida, eu lhe disse: 'Podia ser pior.

 

A outra menina provavelmente precisava muito mais disso que você.'

 

Quando uma garota desmarcou um encontro com um de meus filhos, eu disse para ele: 'Provavelmente, ela teve de sair com a família.' "

Pensando sobre o assunto, ela percebe que não deveria ter tentado minimizar os desapontamentos dos filhos, dando a entender que seus sentimentos não eram importantes.

 

"Quando seu filho exprimir um desapontamento intenso ou uma emoção negativa", aconselha Adele, "não o contradiga. Em vez disso, ouça o que ele tem para contar e acate com respeito seu sentimento."

 

"Depois da aflição de uma criança ser reconhecida e aceita, é-lhe mais fácil lidar com seus sentimentos, e talvez até encontrar uma solução para eles", esclarece Adele. A higienista poderia ter respondido à filha: "Custa muito quando se é rejeitado numa coisa que se queria realmente fazer." E ao filho poderia ter dito: "Pode ser mesmo terrível quando alguém desmarca um encontro conosco."

 

É o desenho mais bonito que já vi! Marilyn Gootman, professora de Educação da Universidade de Geórgia, em Athens, especializada em maternal e autora do livro The Loving Parents Guide to Discipline (O Guia de Disciplina dos Pais Carinhosos), relembra um dos comentários favoritos de seu pai quando ela estava crescendo: "Você é tão inteligente, tão esperta".

 

Sua efusividade era tanta nos elogios que Marilyn acabou por deixar de acreditar nele.

 

As crianças que são alvo de um fluxo constante de elogios paternais são capazes de sentir um enorme abandono quando entram num mundo mais vasto. "Quando eu era uma jovem adulta, tive dificuldades em aceitar elogios feitos em minha presença", conta Marilyn.

 

"Por um lado, estava sempre à espera de aplausos, e ficava preocupada quando não os recebia. Por outro, mantinha uma atitude cética quando era elogiada, por ter-me habituado a não confiar em todo o incenso que havia recebido em criança."

 

Embora os jovens necessitem de reações positivas quando fazem coisas bem feitas, os pais devem temperar os elogios com honestidade.

 

Quando uma menina ouve sempre em casa que ela é "a mais linda princesinha de todo o mundo", mas os meninos da escola a gozam por seu nariz, ela identifica imediatamente a inconsistência da coisa. As crianças que são constantemente elogiadas "não raro concluem que seus pais estão fora da realidade e que não as compreendem", explica Michael Beatty.

 

Ou, pior ainda, podem se convencer que os pais realmente não esperam grande coisa delas.

 

Evite escorregadelas do gênero: "Finalmente você executou esse trecho musical bem" ou "Nunca pensei que você fosse capaz de aprender este jogo". A primeira afirmação transmite a mensagem de que a criança foi lenta na aprendizagem. A segunda comunica-lhe que você desconfia de suas capacidades. Seja como for, perdeu uma oportunidade de realçar a capacidade da criança.

 

Você é um autêntico selvagem. Janet Christie, assistente social de Boca Raton, na Flórida, recorda-se de uma pessoa conhecida que se referia constantemente a seu filho de 2 anos, um menino cheio de energia, como "um verdadeiro capeta".

 

"Ele se comportava como qualquer outra criança normal de 2 anos, correndo de um lado para o outro e mexendo em tudo", recorda Janet. Quando o menino atingiu a idade escolar, seu comportamento não evoluiu. Continuou a adotar sempre o mesmo proceder, tentando viver de acordo com o rótulo que a mãe lhe tinha posto.

 

"A maior parte dos filhos acredita no que os pais lhe dizem", alerta Michael Beatty. "Se um pai chama seu filho de fracassado, ele se vê como um fracassado. Se lhe acontecem coisas más, ele afirmará para si próprio que as merece por ser um fracassado. Quando as coisas boas acontecem", acrescenta, "pensa que teve sorte".

 

Pam Ancowitz, diretora da Parents Place, Inc., em White Plains, Nova York, caiu nessa armadilha dos rótulos. Lembra-se bem de ter posto um em seu filho do meio quando ele tinha 4 anos. "Abri a geladeira e vi que ele havia dado uma dentada em cada um de seis sorvetes", conta ela. "Perguntei-lhe se o tinha feito, e ele, sentindo-se subitamente ameaçado, disse que não. Chamei-o de mentiroso."

 

Ela sabe agora que, ao enfrentar o filho daquela maneira, o tinha pressionado a dizer uma mentira sem importância, e que depois ainda havia coroado o incidente insultando-o. Preferia mil vezes ter-lhe dito: "Você mordeu os sorvetes. Não quero que volte a fazer isso, senão ninguém vai poder comê-los. Da próxima vez, escolha um só."

 

Para que expressem sua zanga sem magoarem, Janet Christie sugere aos pais que critiquem o comportamento da criança em vez de criticarem a própria criança. Não diga: "Você é um desmazelado". Tente antes: "Seu quarto está uma bagunça. Você tem de apanhar a roupa suja do chão."

 

Evite igualmente rótulos que tenham que ver como sexo. Por exemplo chamar de "bebê chorão" ou de "mariquinhas" um garoto reforça estereótipos sexuais prejudiciais. Ele aprende que não é apropriado exprimir sua zanga e agressividade e que deve suprimir sentimentos de tristeza ou de medo. "Um padrão constante de aplicação de estereótipos sexuais pode tornar difícil aos meninos virem a lidar com sua intimidade mais tarde", avisa ela.

 

Cuidado, você está pedindo um castigo. Fran Litman, diretora do Centro de Estudos sobre Pais, do Wheelock College, de Boston, recorda um pai de dois meninos, um de 3 e outro de 5 anos, nos workshops por ela dirigidos sobre aquele tema.

 

"Ele admitiu afirmar constantemente coisas como: 'Se você não puser isso imediatamente no lugar, apanha' ", conta ela. "Mas sabia que nunca cumpriria a ameaça."

 

Os filhos provavelmente também o sabiam. Tal como os falsos elogios, as falsas ameaças também podem minar a credibilidade dos pais.

Tente substituir a ameaça por uma p

 

romessa. Em vez de ameaçar deixar seu filho para trás quando ele se perde em admiração pelas prateleiras do supermercado, diga-lhe, de preferência: "Vamos andar rápido, para ainda termos tempo de brincar em casa."

 

A idéia é criar uma motivação e encorajar o comportamento desejado.

 

Dar bastante ênfase aos aspectos positivos, oferecendo à criança uma razão lógica para fazer qualquer coisa, é um ótimo esquema que pode funcionar com as crianças de praticamente todas as idades.

 

Agora não. Laura Stafford, professora-associada de Comunicação da Universidade Estadual de Ohio, lembra-se de que, sempre que ia buscar seus três filhos no jardim da infância, "via pais enfiando os seus apressadamente nos carros para conseguirem fugir ao trânsito e chegar mais cedo em casa."

 

Como era normal, cada criança saudava a mãe com sua peça de arte orgulhosamente na mão. "Mamãe", diriam por exemplo, "olha o que eu fiz na escola hoje". E a resposta da mãe era: "Agora não. Eu vejo quando chegarmos em casa". Isso, para a criança eqüivale a: "Você e seu trabalho não merecem que eu perca tempo."

 

É óbvio que na vida dura dos pais há momentos em que qualquer um tem que dizer ao filho para esperar até mais tarde. O padrão persistente de adiamentos é que pode ter impacto duradouro.

 

Ao tentarmos decidir quais as observações que magoam nossos filhos, será proveitoso não nos esquecermos do conselho de Shirley Gould, psicoterapeuta aposentada e autora do livro How to Raise an Independent Child (Como Criar uma Criança Independente): "As crianças respondem melhor aos atos e palavras que reconhecem como sendo de encorajamento, reagindo pior aos castigos e comentários degradantes, que os desencorajam.

 

O encorajamento torna-os mais capazes. O desencorajamento, menos."

 

(Texto Divulgado in Seleções do Reader’s Digest, junho de 1996)

 

 

 

Seu filho tem de ser melhor que você

 

Por muitas razões as competências que há uma geração eram raras e admiradas estão se tornando requisitos mínimos para um emprego

 

Se você é pai ou mãe, deve estar preocupado com o futuro dos seus filhos, especialmente se eles são adolescentes e estão sofrendo a angústia de decidir o que querem ser como pessoas e como profissionais.

 

Seu filho está preparado para viver no século XXI? Está preparado para trabalhar nesse século? Pois bem, as evidências indicam que seu filho vai ter que ser muito melhor do que você foi para ter um grau de sucesso semelhante ao que você teve.

 

A aceleração da inovação tecnológica, a globalização dos mercados e a redução do papel do estado na sociedade formam um conjunto de fenômenos que têm por conseqüência um aumento geral da concorrência em todos os mercados. Para as empresas, isso implica a demanda por mão-de-obra cada vez mais qualificada para a inovação contínua e para o crescimento da produtividade e da qualidade.

 

As empresas estarão buscando esses recursos humanos onde puderem encontrá-los, inclusive no exterior.

 

O recrutamento internacional tenderá a crescer, mesmo com as pressões nacionalistas em contrário.

 

Qual será o perfil das pessoas que as empresas estarão buscando? Bem, em primeiro lugar, essas pessoas deverão ter competências concretas. O mero diploma não será mais suficiente.

 

Mesmo o diploma de escolas reputadas só será valorizado na medida em que essas escolas continuem a preparar pessoas de forma adequada. Competências que há uma geração eram raras e admiradas, como dominar o inglês e o espanhol e ter agilidade no uso de computadores, estão se tornando requisitos mínimos para um emprego diferenciado.

 

Os tipos de trabalho bem remunerados do futuro exigirão capacidade de adaptação a novos ambientes e novas situações, mobilidade entre países e culturas e disposição para o aprendizado contínuo.

 

Exigirão também a capacidade de comunicação oral e escrita, inclusive as capacidades de ouvir, de preparar relatórios e de fazer apresentações. As habilidades interpessoais, a capacidade de trabalhar em equipe e a capacidade de assumir papéis de liderança e de tomar decisões também serão altamente valorizadas.

 

Para poder trabalhar com eficácia em ambientes de redes eletrônicas, qualquer profissional deverá ter a capacidade de participar de esforços cooperativos, incluindo participantes que estarão a centenas ou milhares de quilômetros de distância.

 

A iniciativa, a criatividade e a capacidade empreendedora serão cada vez mais características distintivas dos profissionais de sucesso. A cultura geral continuará a ser um ativo pessoal importante. Mas também a atitude profissional, a postura ética e a responsabilidade social terão um reconhecimento crescente.

 

Todas estas são qualidades que serão valorizadas nas melhores ocupações. Evidentemente, o profissional deverá também dominar aqueles conhecimentos e técnicas que são específicos do seu trabalho. Como sempre, o médico terá que conhecer medicina, o advogado, as leis e os processos.

 

O administrador terá que dominar conhecimentos de administração geral, mas também de psicologia, sociologia, finanças, marketing, operações e economia, entre outros.

 

Antes de mais nada, ele deve ser um generalista no âmbito desses conhecimentos e ter confiança para tratar com problemas e tomar decisões em um mundo diversificado, complexo e interdependente.

 

Entre os administradores incluem-se profissionais de diferentes áreas, como engenheiros, médicos, advogados, que em decorrência de sua participação em organizações freqüentemente passam a assumir funções de administração.

 

A preocupação com a eficácia e com os resultados práticos pode sugerir uma ênfase nos conhecimentos derivados da experiência, em detrimento da teoria. Aqui é necessário buscar um equilíbrio e convém lembrar o valor da teoria para o conhecimento humano.

 

Como dizia Kurt Lewin, não há nada mais prático do que uma boa teoria. E poderia se acrescentar: aqueles que se recusam a utilizar qualquer teoria em geral acabam, sem saber, usando uma teoria ruim.

 

O valor das teorias para ajudar a unificar e dar sentido à crescente complexidade do mundo contemporâneo é indiscutível. Evidentemente, o jovem deve ser exposto às boas teorias.

 

Todas estas demandas sobre os futuros administradores impõem uma enorme pauta de inovações para as escolas de administração. Os processos de ensino deverão sofrer profundas transformações.

 

O aprendizado será cada vez mais ativo, preparando os alunos para assumir mais responsabilidade, ter mais iniciativa, conseguir administrar a si próprios, redefinir constantemente a forma de criar valor e aperfeiçoar suas habilidades e seu conhecimento.

 

A filosofia do action learning transformará os alunos de "pacientes" em "aprendizes".

 

O aprendizado ativo combina com uma concepção abrangente da educação, que passa a ser vista não apenas como transferência de conhecimento (como se o conhecimento fosse uma mercadoria) mas também como a construção coletiva do conhecimento, na qual se reconhece que o aluno tem um papel ativo e que novo conhecimento pode surgir na interação aluno-professor-objeto de estudo.

 

A necessidade do aprendizado contínuo, durante toda a vida, estimulará o crescimento do mercado para a educação continuada, que se tornará imenso e muito competitivo. Esse mercado continuará a crescer e a educação continuada se tornará o modo predominante de aprendizado, superando a educação profissional de nível de graduação universitária. Isso implicará novas concepções destas duas modalidades de educação.

 

À medida que o educando passe a ter maior responsabilidade e flexibilidade na gestão do seu aprendizado e que boa parte deste ocorrerá nas empresas e em outros âmbitos de trabalho, a escola deverá rever seu papel, passando a ser menos uma instituição encerrada em limites bem estabelecidos e cada vez mais uma instituição aberta, ágil e integrada com a sociedade, com os cidadãos e com as empresas.

 

Mas não serão apenas as escolas que deverão assumir a responsabilidade pela formação dos futuros profissionais.

 

Os pais também enfrentarão o desafio crescente de educar seus filhos nos valores mais fundamentais do ser humano, através do diálogo e do exemplo. Acredito que as próximas gerações só estarão adequadamente preparadas se o esforço de renovação na escola estiver fundamentado no empenho e na dedicação dos pais.

 

Os dois esforços são complementares e indispensáveis.

 

Alain Florent Stempfer. Diretor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (SP)

 


 
     
 

     
     

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